O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e o presidente russo, Vladimir Putin, se encontrarão no Alasca nesta sexta-feira (15) para discutir o fim da guerra na Ucrânia. Trump, que vinha pressionando Putin para um cessar-fogo, minimizou as expectativas de um acordo imediato, afirmando que o encontro é um “exercício de escuta” e que há apenas 25% de chance de sucesso. O principal obstáculo é a intransigência de ambos os lados em relação a concessões territoriais. Líderes europeus e o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, expressaram preocupação com a possibilidade de negociações sem a presença da Ucrânia.
A complexa história e a localização geográfica do Alasca dão um peso especial ao encontro entre o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e o presidente russo, Vladimir Putin, marcado para esta sexta-feira (15). A reunião, que será a primeira entre os dois líderes desde a invasão em larga escala da Ucrânia, acontece em um território americano com fortes laços históricos e geográficos com a Rússia. A última vez que os dois se encontraram foi em 2019, durante uma cúpula do G20, no Japão.
O Estreito de Bering
A escolha do Alasca como local para as conversas não é por acaso, principalmente por sua proximidade com a Rússia. Apenas 88 quilômetros separam as partes continentais dos dois países no Estreito de Bering e, em algumas ilhas da região, a distância chega a ser de apenas 3,8 km. Essa proximidade geográfica sempre tornou o Alasca estrategicamente vital.
Apelidado de “Guardião do Norte”, o estado foi um ponto-chave durante a Guerra Fria, conhecido como a “Cortina de Gelo” pelo governo de Mikhail Gorbachev. Naquela época, abrigava importantes instalações militares dos EUA, que funcionavam como centros de comando e bases para caças. Atualmente, o Alasca abriga estações do North Warning System, um sistema de radar que monitora o espaço aéreo contra potenciais ataques vindos da região polar.
A geografia do Alasca também o posiciona como uma porta de entrada para um Ártico em transformação. O Estreito de Bering é a única passagem marítima direta entre os oceanos Pacífico e Ártico. Com o derretimento do gelo marinho, a Rota do Mar do Norte, que segue a costa russa, está se tornando mais navegável. Isso oferece uma alternativa de transporte mais curta entre a Ásia e a Europa, aumentando o valor estratégico da região para a navegação global.
Além disso, o Alasca é rico em recursos naturais. O estado possui cerca de 3,4 bilhões de barris de petróleo bruto e 125 trilhões de pés cúbicos de gás natural, que são fundamentais para a segurança energética dos EUA.
Apesar de ser território americano desde 1867, quando foi comprado da Rússia por US$ 7,2 milhões, o Alasca mantém laços culturais e históricos com o país. O estado conserva edifícios históricos e conta com cerca de 80 igrejas ortodoxas russas ativas. Os povos indígenas, como os Yupik e os Chukchi, vivem em ambos os lados do Estreito de Bering e mantêm laços familiares e culturais, apesar da formalização da fronteira.
Onde será o encontro?
A Casa Branca confirmou que o encontro vai ser em Anchorage. Ao anunciar a reunião bilateral, Trump disse que o local seria “muito popular por várias razões”, sem revelar que seria na maior cidade do Estado. Os dois serão recebidos na base Elmendorf-Richardson, a maior instalação militar do Alasca.
O encontro acontece em um momento de alta tensão e expectativas. Trump tem pressionado publicamente para o fim da guerra na Ucrânia e chegou a estabelecer um prazo para que Putin aceitasse um cessar-fogo, ou enfrentaria sanções mais severas. Apesar de ter prometido acabar com o conflito em 24 horas caso fosse eleito, a realidade tem se mostrado mais complexa. A reunião no Alasca, que foi confirmada após uma conversa “altamente produtiva” entre o enviado especial de Trump, Steve Witkoff, e Putin, é vista pela Casa Branca como um “exercício de escuta”. O próprio Trump a classificou como uma “reunião para sondar o terreno”.
Os pontos de discordância
O principal obstáculo para o fim da guerra é a rigidez das posições de Rússia e Ucrânia. Embora ambos os países queiram o fim do conflito, eles têm exigências que o outro lado rejeita veementemente. A Ucrânia tem sido inflexível em não aceitar o controle russo sobre as regiões que Moscou tomou, incluindo a Crimeia. O presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, rejeitou qualquer ideia de “troca” de territórios, afirmando que “não vamos recompensar a Rússia pelo que ela fez”.
Em contrapartida, Putin não tem cedido em suas exigências territoriais, na neutralidade da Ucrânia e no futuro tamanho de seu exército. A Rússia lançou a invasão em 2022, em parte pela crença de que a Otan, a aliança militar ocidental, estava usando a Ucrânia para se aproximar das fronteiras russas. O governo Trump tem tentado influenciar líderes europeus em relação a um acordo de cessar-fogo que cederia vastas áreas do território ucraniano à Rússia, como a península da Crimeia e a região de Donbas. Em troca, a Rússia teria que abrir mão das regiões de Kherson e Zaporizhzhia. O vice-presidente dos EUA, J.D. Vance, admitiu que qualquer acordo “não vai deixar ninguém superfeliz”, mas que “é preciso alcançar a paz”.
No entanto, a proposta tem gerado preocupação na Europa. Em uma videoconferência com Trump, os principais líderes europeus se posicionaram contra negociações que envolvam concessão de territórios ucranianos na ausência de Zelensky, que não participará da reunião no Alasca.
“25% de chance de não dar certo”
Apesar da importância do encontro, o próprio Trump minimizou as expectativas. Em uma entrevista no Salão Oval da Casa Branca, ele afirmou que há “25% de chance” de que a reunião não seja bem-sucedida e que um segundo encontro, com a possível presença de Zelensky e líderes europeus, será mais importante. O encontro no Alasca deve começar com uma conversa frente a frente entre Putin e Trump, na presença de intérpretes. As negociações continuarão com as duas delegações, e uma coletiva de imprensa conjunta está prevista para o final. A iniciativa de Trump foi saudada por Putin, que a considerou sincera.
