O presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), colocou na pauta a PEC da Blindagem, que pode retomar trechos da Constituição de 1988, autorizando que deputados e senadores barrem investigações contra colegas por meio de votação secreta. Especialistas alertam que a medida pode abrir brechas para impunidade, já que o texto original permitia suspender inquéritos e denúncias independentemente da gravidade do crime. Desde a Emenda Constitucional nº 35, de 2001, investigações e denúncias podem ser feitas pelo Ministério Público Federal diretamente ao STF, sem autorização parlamentar.

Câmara pode retomar votação secreta para barrar investigações de parlamentares
Câmara pode retomar votação secreta para barrar investigações de parlamentares

A Câmara dos Deputados pode voltar a ter votações secretas para autorizar a investigação de seus membros. A chamada PEC da Blindagem foi colocada em pauta pelo presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB) e, se aprovada, pode retomar o texto original da Constituição de 1988. Especialistas alertam que a medida pode abrir um precedente perigoso e levar a um aumento da impunidade no país.

A proposta, que é uma das ideias em discussão no Congresso, volta no tempo para um modelo que foi modificado em 2001. Antes disso, era necessária a licença da própria Casa para que deputados e senadores pudessem ser investigados. Isso significava que investigações e denúncias contra parlamentares dependiam de uma autorização política, o que, na prática, criava uma barreira para a apuração de crimes.

Como era antes de 2001?

No modelo de 1988, que pode ser resgatado:

  • O Supremo Tribunal Federal (STF) só podia abrir inquérito ou ação penal contra parlamentares após a autorização da Câmara ou do Senado.
  • A exigência de licença valia para qualquer crime, inclusive os comuns, como assassinato.
  • A aprovação para a investigação era feita por voto secreto, o que permitia que os parlamentares barrassem investigações sem ter que se expor publicamente. O advogado criminalista Michel Saliba explica que, por conta disso, “muitas acusações e investigações” eram arquivadas.
  • Em casos de flagrante, a prisão de um parlamentar só era autorizada após o aval da respectiva Casa Legislativa.

A mudança de 2001 e a situação atual

A Emenda Constitucional n.º 35, de 2001, alterou o texto e acabou com a necessidade de autorização prévia. Atualmente, a investigação ou o processo contra deputados e senadores podem ser iniciados diretamente pelo Ministério Público Federal (MPF) junto ao STF. O poder do Legislativo se limita a suspender uma ação penal já em curso, não a impedi-la desde o início.

A alteração representou um avanço na transparência e no combate à impunidade, como mostram casos emblemáticos.

  • Humberto Costa (antes de 2001): Um pedido de investigação contra o então deputado por supostas irregularidades precisou passar pela Câmara, o que atrasou o andamento do processo.
  • Eduardo Cunha (após 2001): A Procuradoria-Geral da República (PGR) investigou e apresentou denúncia contra ele sem a necessidade de autorização da Câmara, o que demonstrou a efetividade da mudança.

 

Por que a PEC da Blindagem preocupa?

Apesar de a Constituição já prever um rito diferenciado para o Presidente da República, a PEC da Blindagem, ao estender a mesma prerrogativa aos parlamentares, pode enfraquecer o sistema de justiça. O retorno ao modelo de 1988, na visão de especialistas, seria um retrocesso que aumenta o risco de impunidade.

O caso do ex-deputado Hildebrando Pascoal é um exemplo de como a imunidade parlamentar pode ser usada para adiar a responsabilização. Acusado de chefiar um grupo de extermínio, as investigações contra ele só avançaram após a autorização da Câmara, o que, na época, gerou um longo período de espera pela justiça.

Com a PEC em pauta, o debate agora é se o Congresso voltará a um modelo que, no passado, já mostrou ser uma barreira para a justiça. O relator da proposta ainda não apresentou um novo parecer, mas a discussão sobre as votações secretas e a blindagem de parlamentares está de volta ao centro do debate político.

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