Na abertura da 80ª Assembleia Geral da ONU, Lula fará da defesa da soberania o ponto central de seu discurso, em meio a tensões com o governo Trump, que tentou interferir em processos contra Bolsonaro e impôs tarifas e restrições a autoridades brasileiras. O presidente também deve abordar democracia, clima, multilateralismo, guerra na Ucrânia e os ataques de Israel em Gaza, reforçando o papel do Brasil como voz do Sul Global.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) abre nesta terça-feira (23) o debate da 80ª Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), em Nova York, com a defesa da soberania nacional como principal bandeira. O tema ganhou ainda mais relevância após os Estados Unidos, sob a gestão de Donald Trump, tentarem interferir em processos que levaram à condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro por tentativa de golpe de Estado.
De acordo com o governo brasileiro, Trump chegou a condicionar a retirada de uma sobretaxa de 50% sobre produtos nacionais ao arquivamento do processo pelo Supremo Tribunal Federal (STF). O episódio, classificado como ingerência indevida, foi utilizado pelo Planalto para reforçar a narrativa de que o Brasil não cederá a pressões externas. A resposta de Lula ajudou a consolidar sua imagem interna como defensor das instituições democráticas.
Além da soberania, Lula deve destacar no discurso a importância da democracia, ameaçada pelo avanço da extrema-direita global; a valorização do multilateralismo; e a urgência no enfrentamento da crise climática. O presidente também pretende reforçar o convite a líderes internacionais para participarem da COP30, marcada para novembro em Belém (PA).
Assim como em suas últimas participações na ONU, Lula deve insistir em um acordo de paz entre Rússia e Ucrânia e, paralelamente, condenar os ataques de Israel contra palestinos na Faixa de Gaza.
Histórico dos discursos de Lula na ONU
Primeiro mandato (2003-2006): Lula lançou a iniciativa “Ação contra a Fome e a Pobreza”, articulando financiamento internacional contra a insegurança alimentar, e defendeu a reforma do Conselho de Segurança da ONU.
Segundo mandato (2007-2010): Em meio ao crescimento econômico, o Brasil foi apresentado como potência emergente. Lula pediu nova governança financeira internacional após a crise de 2008 e maior protagonismo para o Sul Global.
Retorno em 2023: O presidente voltou à ONU após 14 anos enfatizando clima, fome e desigualdade global, além da importância da Amazônia como patrimônio da humanidade.
Discurso em 2024: Lula reforçou a necessidade de reforma da governança mundial e combate à desinformação, ao extremismo e à erosão da democracia.
Novo contexto: tarifaço de Trump
A participação brasileira este ano acontece em clima de atrito diplomático. O “tarifaço” imposto por Trump, considerado político, atinge diversos setores e até mesmo membros da comitiva presidencial. O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, cancelou a viagem após ser impedido de participar de uma conferência da Organização Pan-Americana de Saúde (Opas), em Washington.
Em um cenário de tensão com Washington, Lula deve usar a tribuna da ONU para reafirmar que o Brasil não aceitará retaliações externas e continuará a defender democracia, soberania e multilateralismo.
