A crise entre os dois países, que já dura três meses e resultou em tarifas de 50% sobre produtos brasileiros e sanções a autoridades, está paralisada, não apenas pelo shutdown doméstico dos EUA ou pela complexa negociação em Gaza. O verdadeiro impasse mora no coração do governo Trump: uma divisão que virou uma autêntica batalha ideológica.
A crise entre os dois países, que já dura três meses e resultou em tarifas de 50% sobre produtos brasileiros e sanções a autoridades, está paralisada, não apenas pelo shutdown doméstico dos EUA ou pela complexa negociação em Gaza. O verdadeiro impasse mora no coração do governo Trump: uma divisão que virou uma autêntica batalha ideológica.
O time de Trump está rachado em duas frentes que parecem tiradas de um roteiro de série política.
Ala pragmática: liderada por figuras como o secretário de comércio Howard Lutnick e o enviado especial Richard Grenell, este grupo é sensível aos argumentos do empresariado americano que está perdendo dinheiro com as tarifas e vê o Brasil se aproximar da China. Eles querem uma solução rápida.
Ala ideológica: este lado é capitaneado por nomes como o secretário de Estado, Marco Rubio, e o secretário do Tesouro, Scott Bessent. Eles são a voz da campanha bolsonarista em Washington, que há meses pede sanções ao Brasil para forçar uma anistia ao ex-presidente. Bessent, por exemplo, chegou a cancelar uma conversa com o ministro Fernando Haddad para receber em seu gabinete os bolsonaristas Eduardo Bolsonaro e Paulo Figueiredo.
É desta ala mais dura que vieram a maior parte das ações contra o Brasil nos últimos meses, como as restrições de vistos e as sanções contra o ministro Alexandre de Moraes e sua esposa. A última rodada de punições, inclusive, ocorreu menos de 24 horas antes do tal abraço na ONU.
O abraço surpreendente
Enquanto o julgamento de Jair Bolsonaro no STF avançava, com o ex-presidente sendo condenado por todos os crimes, para a surpresa do próprio Trump, a ala pragmática já sondava o governo brasileiro para saber se Lula aceitaria um cumprimento cordial nos bastidores da ONU.
O que ninguém esperava era a efusividade de Trump. Diante das câmeras da Assembleia Geral, o republicano não apenas abraçou Lula como improvisou um elogio efusivo, enquanto seu secretário de Estado (Rubio) assistia sem aplaudir.
Para alguns diplomatas, a atitude poderia ser uma tática para constranger Lula, mas a avaliação mais provável é que as prioridades do presidente “simplesmente mudaram”.
Ritmo lento
Por uma questão de protocolo, caberia ao Departamento de Estado, liderado por Rubio, conduzir as conversas com os brasileiros para concretizar o telefonema prometido por Trump. Mas as ações do time ideológico têm sido tímidas.
Enquanto isso, a ala pragmática segue agindo. O chefe de Comércio dos EUA conversou com o vice-presidente Geraldo Alckmin no dia em que Bolsonaro foi condenado. O enviado especial Richard Grenell, conhecido por negociar em situações complexas (como a libertação de americanos na Venezuela), se encontrou com o chanceler brasileiro Mauro Vieira no Rio.
Apesar da lentidão burocrática e da guerra interna em Washington, a esperança do governo não morre.
Resta saber se a “ótima química” de Trump será forte o suficiente para vencer a resistência ideológica em seu próprio governo e, finalmente, fazer o telefone tocar em Brasília.
