A nova pesquisa da PNAD Contínua 2024, realizada pelo IBGE em parceria com o MPT e a Unicamp, aponta que o trabalho por aplicativos cresceu 25,4% em dois anos, alcançando 1,7 milhão de brasileiros. O levantamento revela que a expansão do modelo vem acompanhada de precarização, com longas jornadas, rendimentos menores por hora, falta de direitos e ausência de proteção previdenciária. Segundo o estudo, mais de 60% dos trabalhadores de plataformas não contribuem para a Previdência, e a maioria é composta por homens com ensino médio completo. Para o MPT, o avanço desse tipo de trabalho sem regulação ameaça a seguridade social e consolida um cenário de desproteção trabalhista.
O número de brasileiros que têm nos aplicativos sua principal forma de trabalho cresceu expressivamente nos últimos dois anos, segundo pesquisa da PNAD Contínua 2024, divulgada nesta sexta-feira (17) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O levantamento, realizado em cooperação com o Ministério Público do Trabalho (MPT) e a Unicamp, mostra que 1,7 milhão de pessoas executavam em 2024 atividades em plataformas digitais, um aumento de 25,4% em relação a 2022.
Os chamados trabalhadores plataformizados: motoristas, entregadores e prestadores de serviços, já representam 1,9% da população ocupada no setor privado. A pesquisa também aponta a expansão de 52,1% desse modelo para outros segmentos, com o Sudeste concentrando mais da metade do total de trabalhadores (53,7%).
Apesar da expansão, os dados confirmam um cenário de precarização. Os trabalhadores por aplicativo têm jornada semanal, em média, 5,5 horas mais longa que os demais e recebem 8,3% menos por hora trabalhada (R$ 15,40 contra R$ 16,80). O rendimento mensal mais alto se deve apenas ao excesso de horas, e não à valorização da atividade.
“O avanço significativo do trabalho em plataformas mostra o potencial ilimitado desse modelo e a devastação dos direitos trabalhistas e de proteção social”, afirmou a procuradora Clarissa Ribeiro Schinestsck, do MPT em Campinas.
A pesquisa também revela que mais de 60% dos plataformizados não contribuem para a Previdência Social, tornando o grupo um dos mais vulneráveis do mercado. Entre eles, 72,5% atuam em transporte, armazenagem e correios — a maioria composta por homens com ensino médio completo ou superior incompleto.
Segundo o professor e pesquisador da Unicamp, José Dari Krein, “os dados reafirmam a ampla precarização no trabalho em plataformas digitais, marcada por longas jornadas, baixa remuneração e ausência de direitos trabalhistas e previdenciários”.
Outro dado preocupante é o controle algorítmico: mais da metade dos motoristas e entregadores afirmaram ter sua rotina influenciada por bônus, punições e metas impostas pelas plataformas. “O trabalhador é autônomo apenas formalmente. Na prática, sua rotina e seus ganhos são determinados pelo algoritmo”, explica o pesquisador Ricardo Antunes, da Unicamp.
Para o MPT, o crescimento desse tipo de vínculo ameaça se espalhar para outros setores, comprometendo o financiamento da Seguridade Social. “A transformação digital não pode significar retrocesso nas relações de trabalho. É possível conciliar tecnologia e dignidade, desde que haja regulação e compromisso social”, reforçou Clarissa Ribeiro.
