A reportagem aborda a persistência do assédio contra mulheres no transporte público brasileiro, destacando dados alarmantes e a falta de avanços estruturais na proteção e responsabilização dos agressores. Em São Paulo, 76% das mulheres afirmam ter sofrido algum tipo de violência durante seus deslocamentos, e 30% relatam importunação ou assédio sexual em ônibus, trens ou metrôs. Apesar de leis e campanhas, a sensação de insegurança permanece alta. Casos recentes, como o de uma estudante assediada em um ônibus no Paraná, expõem a falha de protocolos e a omissão de profissionais diante da violência.

Especialistas ouvidos pela reportagem, como a psicóloga Nay Macedo e a advogada Bianca Alves, defendem que o enfrentamento ao assédio exige mudança cultural, preparo de profissionais e políticas contínuas de acolhimento. Para Nay, o problema não é falta de informação, mas a “licença social” que naturaliza o comportamento agressor; já Bianca reforça que o combate à violência depende de respostas rápidas e empáticas, além da atuação conjunta entre poder público e sociedade.

 

Assédio no transporte público ainda é uma das principais formas de violência contra mulheres nas cidades brasileiras

Apesar de avanços em campanhas e leis de proteção, o assédio contra mulheres no transporte público continua sendo uma das expressões mais persistentes da violência de gênero no Brasil.

Em São Paulo, os números mostram a dimensão do problema: segundo a pesquisa “Percepções sobre segurança das mulheres nos deslocamentos pela cidade”, realizada em 2022 pelos institutos Patrícia Galvão e Locomotiva, com apoio da Uber, 76% das paulistanas afirmaram já ter sofrido algum tipo de violência durante seus deslocamentos urbanos. O transporte público aparece como um dos principais espaços de vulnerabilidade e foi citado em 30% dos relatos de assédio sexual.

O cenário é corroborado pelos dados da Secretaria da Segurança Pública de São Paulo (SSP-SP), que registrou mais de 1.800 casos de importunação sexual em locais públicos em 2024, grande parte em estações e terminais. Esses episódios, muitas vezes tratados como ‘casos isolados’, têm efeitos profundos e duradouros.

Como o medo afeta a vida das mulheres

A psicóloga Nay Macedo alerta que o assédio “não deixa marcas visíveis, mas provoca traumas psíquicos como hipervigilância, ansiedade e medo constante”. Em um vídeo educativo sobre o tema, ela reforça que o problema não está na “falta de informação”, mas na ausência de responsabilização social:

“Esses homens não nascem agressores — são formados por uma cultura que naturaliza o olhar invasivo e a piada sexual. Eles não têm transtorno mental, têm licença social.”

Casos recentes ilustram a gravidade da questão. Na última terça-feira (14), uma estudante foi vítima de importunação sexual em um ônibus intermunicipal no Paraná. O agressor, passageiro frequente, acariciou a vítima enquanto ela dormia. O motorista do coletivo presenciou a cena, mas não interveio.

Em um vídeo gravado pela própria jovem, ela precisa pedir duas vezes para que a porta seja aberta e o homem expulso. O episódio, classificado como crime de importunação sexual (art. 215-A do Código Penal), mostra não apenas a recorrência do assédio, mas também a falta de preparo e de empatia de quem presencia a violência.

O que fazer?

A advogada Bianca Alves, especialista em direito de gênero e diretora executiva do Instituto Justiça Delas, reforça que o combate à importunação sexual requer ação imediata e coletiva. Em entrevista, ela destacou a importância do papel de motoristas, seguranças e demais profissionais do transporte:

“O acolhimento imediato e a orientação adequada podem evitar que novas agressões aconteçam”, afirma.

Bianca também chama atenção para as desigualdades que agravam o problema. Segundo ela, não existe um perfil único de agressor e qualquer homem pode cometer um ato de violência.

“A sociedade ainda busca justificativas para a violência, questionando a vítima em vez de responsabilizar o agressor. E as mulheres negras e periféricas são as que mais sofrem, tanto com o assédio quanto com a falta de acolhimento”, reitera a advogada.

Enquanto programas como “São Paulo por Todas”, promovido pela Prefeitura da capital paulista, buscam ampliar o acolhimento e promover campanhas educativas, especialistas afirmam que o desafio vai além da conscientização. Para Nay Macedo, o enfrentamento passa por educação socioemocional, responsabilização efetiva e acolhimento psicológico. 

“O espaço público será seguro quando deixarmos de perguntar às mulheres o que elas fizeram e começarmos a perguntar aos homens o que pensam ter o direito de fazer”, resume a psicóloga.

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