Daniel Ferraz, de 32 anos, foi absolvido pela Justiça de São Paulo da acusação de envolvimento na construção de um túnel que levaria uma quadrilha ao cofre principal do Banco do Brasil, na Zona Sul da capital.
O morador de Guarujá (SP) Daniel Ferraz (32), foi absolvido pela Justiça de São Paulo da acusação de envolvimento na construção de um túnel que levaria uma quadrilha ao cofre principal do Banco do Brasil, na Zona Sul da capital. Apontado à época como um dos suspeitos do que seria o “maior assalto do mundo”, o homem hoje tenta reconstruir a vida como influenciador digital, após não conseguir recolocação profissional por causa dos antecedentes criminais.
“A minha vida não é mais a mesma”
Em entrevista ao g1, Daniel contou que a decisão judicial trouxe alívio, mas que a rotina continua marcada pela desconfiança. Formado em Engenharia Civil e com curso de inglês feito no exterior, ele afirma ter sido rejeitado em todas as oportunidades de emprego desde que saiu da prisão.
“Me sinto aliviado em ter sido absolvido e tirar essa mancha do meu nome, mas a minha vida não é mais a mesma. Estudei, fiz faculdade, fui para fora do país para aperfeiçoar o inglês, e nunca tive uma oportunidade de emprego. Quando as pessoas veem meus antecedentes, já me excluem”, lamentou.
Sem conseguir trabalho formal, o morador do litoral paulista passou a investir na carreira de criador de conteúdo, compartilhando nas redes sociais vídeos sobre carros, motocicletas e embarcações. Atualmente, ele soma mais de 100 mil seguidores.
“Na rua, não consegui emprego e sou discriminado até hoje. Quando sou abordado pela polícia, pensam que eu sou um criminoso”, disse.
O caso do túnel e a acusação
A investigação teve início em outubro de 2017, quando a Polícia Civil descobriu um túnel em construção que levava ao cofre central do Banco do Brasil, em São Paulo. Na época, o delegado Fábio Pinheiro Lopes, responsável pelo caso, afirmou que a quadrilha pretendia levar R$ 1 bilhão, o que seria “o maior assalto do mundo”.
Daniel não chegou a ser preso naquele momento, mas acabou detido em 2020 por porte ilegal de arma e roubo a residência, acusações das quais também foi absolvido, por falta de provas.
“Mesmo negando o conhecimento dessa arma, o delegado me encaminhou ao presídio. Lá, fiquei doente e pedia para Deus que, se fosse para ser preso por algo que não cometi, que Ele me levasse”, relembrou.
Segundo o influenciador, sua mãe, de 70 anos, precisou usar todas as economias para pagar advogados e manter os estudos do filho, investimentos que ele ainda não conseguiu colocar em prática.
Ligação genética e absolvição final
O advogado Marcos Jesuino Junior, responsável pela defesa, explicou que uma luva apreendida em uma residência roubada foi usada como ponto de partida para uma nova acusação. O Ministério Público apontou que o material genético obtido nesse item coincidia com o de uma escova de dente apreendida no túnel. O laudo técnico indicava probabilidade superior a 99,9% de compatibilidade.
Mesmo assim, o juiz Guilherme Eduardo Martins Kellner, da 2ª Vara de Crimes Tributários, Organização Criminosa, Lavagem de Bens e Valores da Capital, considerou as provas insuficientes para a condenação e absolveu Daniel no último dia 23.
Na sentença, o magistrado destacou que o Ministério Público se baseou apenas na coincidência genética de um material relacionado a outro processo já arquivado, e que não havia comprovação de que a luva pertencia ao acusado.
Já a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo (SSP-SP) informou, em nota, que não comenta decisões judiciais.
Tentativa de furto bilionário
O túnel, localizado na Zona Sul da capital, tinha mais de 600 metros de extensão e estrutura reforçada com madeira e ferro, além de ventilação e iluminação internas. Segundo a Polícia Civil, o grupo criminoso pretendia acessar o cofre central do Banco do Brasil por baixo da avenida, realizando o maior furto já planejado no país.
Com a absolvição, Daniel Ferraz tenta agora consolidar a vida como influenciador, mas admite que o estigma o acompanha.
“A Justiça me inocentou, mas as pessoas ainda me julgam. Eu só quero ter uma vida normal”, concluiu.
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