O papa Leão 14 declarou que as aparições de Jesus em Dozulé, na França, entre 1972 e 1978, não têm origem sobrenatural. A decisão encerra 50 anos de controvérsias e reforça a postura do pontífice em eliminar práticas populares não reconhecidas oficialmente pela Igreja. O papa também reafirmou que Maria não é corredentora da humanidade, buscando tornar a fé mais centrada em Cristo.
O papa Leão 14 declarou nesta quarta-feira (12) que as supostas aparições de Jesus Cristo em Dozulé, na Normandia, França, entre 1972 e 1978, não são de origem sobrenatural e, portanto, não devem ser objeto de veneração. A decisão, comunicada por meio de uma carta do Dicastério da Doutrina da Fé, encerra um debate que se arrastava havia mais de cinco décadas.
As aparições teriam sido relatadas por Madeleine Aumont (1924-2016), uma moradora da pequena cidade francesa, que afirmou ter recebido 49 mensagens de Cristo entre 1972 e 1978 — e uma adicional em 1982. Segundo os relatos, Jesus teria pedido a construção de uma cruz monumental, de 738 metros de altura e 123 metros de largura, como símbolo da “Gloriosa Cruz” ou “Cruz do Amor”.
O fenômeno, no entanto, sempre gerou controvérsias dentro da Igreja. A investigação conduzida pelo Vaticano concluiu que não há base sobrenatural nos eventos, alertando para o risco de criação de cultos independentes e interpretações apocalípticas. O documento oficial, assinado pelo cardeal argentino Víctor Manuel Fernández, prefeito do dicastério, afirma que “o fenômeno deve ser reconhecido, definitivamente, como não sobrenatural em sua origem, com todas as consequências que fluem dessa determinação”.
A decisão contrasta com outras aparições reconhecidas pela Igreja, como as de Fátima (Portugal) e Guadalupe (México), onde a Igreja considerou as manifestações autênticas. No caso de Dozulé, o Vaticano apontou que as mensagens falavam sobre o fim dos tempos e fixavam prazos para a construção da cruz — profecias que nunca se concretizaram.
“A oração, o amor aos sofredores e a veneração da cruz continuam sendo meios autênticos de conversão, mas não devem ser acompanhados por elementos que induzam à confusão”, diz o texto enviado a Jacques Habert, bispo de Bayeux-Lisieux, responsável pela região de Dozulé.
A decisão deve frustrar peregrinos e comerciantes locais, já que o movimento de fiéis gerava turismo religioso na cidade. Embora menor que os centros de devoção em Fátima e Lourdes, Dozulé recebia milhares de visitantes todos os anos.
A medida é mais um passo da gestão de Leão 14 para enxugar práticas populares não respaldadas pela doutrina oficial. Na semana passada, o papa também declarou que a Virgem Maria não é “corredentora da humanidade”, contrariando tradições marianas populares e até visões defendidas por João Paulo 2º.
Com essas decisões, o novo pontífice sinaliza uma abordagem mais ortodoxa e teologicamente rigorosa, buscando recentrar a fé na figura de Cristo, ao mesmo tempo em que tenta aproximar a Igreja das novas gerações — simbolizado pela futura canonização do “santo millennial” Carlo Acutis.
Leia mais:
