O termo “safári humano”, utilizado em diferentes contextos, tornou-se um símbolo da forma como a violência contra civis é transformada em entretenimento.
O termo “safári humano”, utilizado em diferentes contextos, tornou-se um símbolo da forma como a violência contra civis é transformada em entretenimento. Os conflitos, reais, também retratados em produções cinematográficas, são episódios de ontem e de hoje evidenciam o mesmo impulso perverso: o de transformar pessoas em alvos, como se a vida humana fizesse parte de um jogo.
Kherson e os drones que caçam civis
Na região de Kherson, no sul da Ucrânia, moradores vivem sob o temor constante de drones russos que sobrevoam a área em busca de vítimas. Militares descrevem essas ações como “safáris humanos”, expressão cruel usada para definir ataques deliberados contra civis.
Equipados com granadas, os drones são empregados para atingir pessoas comuns em fazendas e povoados próximos à linha de frente. Kherson, ponto estratégico e centro agrícola conhecido pela produção de melancias – um dos principais produtos de exportação locais -, tornou-se alvo recorrente.
Em um dos episódios mais recentes, um drone russo tentou atacar uma família durante a colheita. O equipamento foi abatido antes de alcançar o grupo, evitando o que seria mais uma tragédia entre as muitas registradas todos os meses.
Os “turistas de guerra” na Bósnia
O fenômeno, porém, não é novo. O Ministério Público de Milão, na Itália, abriu uma investigação para apurar o envolvimento de cidadãos italianos em um suposto “safári de guerra” ocorrido durante o conflito na Bósnia e Herzegovina, na década de 1990.
De acordo com a Promotoria, europeus pagavam para viajar até Sarajevo e, posicionados como atiradores de elite, disparavam contra civis. Esses chamados “turistas de guerra” não tinham vínculo com forças armadas e participavam por curiosidade, desejo de adrenalina ou puro sadismo.
De acordo com o jornal italiano L’Avennire, a apuração ganhou novo fôlego após o cruzamento de documentos e depoimentos, em casos expostos pelo jornalista Ezio Gavazzeni, a partir de um documentario de 2022, “Sarajevo Safari”, de Miran Zupanic. As informações apontam a presença de estrangeiros nas zonas de combate, reforçando o caráter grotesco de uma guerra que já havia deixado mais de 100 mil mortos.
Bacurau da vida real
O cinema brasileiro também explorou o conceito do “safári humano” de forma simbólica. No filme Bacurau (2019), de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, moradores de um vilarejo fictício no sertão nordestino tornam-se alvos de estrangeiros que viajam ao Brasil para caçá-los em um jogo mortal.
Apesar de ficcional, a narrativa espelha desigualdades históricas e o desprezo por vidas consideradas descartáveis – especialmente as de comunidades marginalizadas. Bacurau funciona como um retrato distorcido, porém verossímil, de um mundo em que a violência é mercantilizada e encarada com indiferença.
A desumanização em diferentes formas
De Kherson a Sarajevo, do sertão de Bacurau às manchetes de guerra, o elemento comum é a desumanização. Reduzir pessoas a alvos – seja por ideologia, por diversão ou por lucro – revela um mesmo padrão de brutalidade que atravessa épocas e fronteiras. O “safári humano” ultrapassa o limite da ficção e expõe o colapso moral que permite que a dor alheia se torne espetáculo.
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