Operação da PM no Rio derruba símbolo do “Complexo de Israel”, mas o TCP segue crescendo nacionalmente, segundo a Folha. A facção expandiu-se para diversos estados, firmou aliança com o GDE no Ceará e intensificou disputas territoriais e episódios de intolerância religiosa. Especialistas apontam avanço do “narcopentecostalismo” e temem aumento da violência em regiões dominadas pelo grupo.

Complexo de Israel surgiu em 2020, com domínio de cinco comunidades na zona norte do Rio - Foto: Reprodução/Redes Sociais
Complexo de Israel surgiu em 2020, com domínio de cinco comunidades na zona norte do Rio - Foto: Reprodução/Redes Sociais

Uma operação da Polícia Militar do Rio de Janeiro derrubou, em março, a enorme Estrela de Davi instalada no alto de uma caixa d’água em Parada de Lucas, símbolo que marcava o chamado “Complexo de Israel” — área sob domínio do Terceiro Comando Puro (TCP). A estrutura, que iluminava noites na zona norte, representava a identidade religiosa adotada por integrantes do grupo, conhecido pela presença de traficantes que se apresentam como evangélicos. As informações são da Folha de S.Paulo.

Apesar da ação policial e da demolição de um imóvel de luxo pertencente ao chefe local, Álvaro Malaquias Santa Rosa, o “Peixão”, o líder do tráfico não foi capturado. Aos 39 anos, ele é envolto em mistério, com versões contraditórias sobre sua suposta conversão religiosa — variando entre relatos de que seria pastor ou de que adotou a fé por influência da mãe.

Segundo a Abin, o TCP vive um processo acelerado de expansão nacional. A facção, antes restrita ao Rio, alcançou estados como Ceará, Bahia, Goiás, Espírito Santo, Amapá, Acre, Mato Grosso do Sul e Rio Grande do Sul, movimento que colocou o grupo como o “terceiro maior ator” do crime organizado brasileiro, atrás de CV e PCC.

No Ceará, a presença do TCP se tornou mais visível nos últimos meses, com pichações da estrela de Davi e frases religiosas. A entrada ocorreu por meio de aliança com a facção local GDE (Guardiões do Estado), conhecida por ações violentas e que perdeu força após repressão policial. Lideranças do GDE migraram para o Rio e costuraram a aproximação com o TCP.

Autoridades cearenses monitoram impactos da parceria, que já inclui prisões e investigações sobre extorsões e casos de intolerância religiosa — inclusive o fechamento de terreiros de umbanda em cidades como Maracanaú e Pacatuba.

Pesquisadores apontam três características que impulsionam o grupo: relação menos conflituosa com a polícia no Rio, proximidade com o PCC — que garante redes internacionais de tráfico — e práticas semelhantes às milícias, como cobrança de taxas. A expansão do TCP preocupa especialistas por intensificar disputas territoriais com o Comando Vermelho, facção rival histórica desde 2002.

No Ceará, a escalada recente de violência resultou no fechamento temporário de escolas e no abandono de um vilarejo inteiro em Morada Nova. A presença do grupo reacende temores em um estado que ainda registra algumas das maiores taxas de homicídio do país.

Moradores relatam que o clima de medo domina regiões conflagradas, com toques de recolher informais, separação de famílias e silêncio forçado. Organizações sociais também identificaram aumento de ataques, tiroteios e ameaças envolvendo adolescentes.

O fenômeno do chamado “narcopentecostalismo”, abordado por estudiosos, aponta que a retórica religiosa passou a integrar a identidade do TCP, que utiliza discursos cristãos para justificar violência, disputa territorial e perseguição a religiões de matriz africana. Especialistas explicam que esse uso simbólico se estende à criação de um “projeto ideológico” dentro da própria facção.

Embora rejeitada por igrejas evangélicas tradicionais, a associação entre tráfico e discurso religioso encontra terreno fértil no crescimento do protestantismo no país — especialmente dentro do sistema prisional, onde 43% dos detentos do Ceará se declaram evangélicos.

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