Durante uma expedição soviética à Antártida, no início da década de 1960, um jovem médico tomou uma decisão que entraria para a história da medicina e da sobrevivência humana. Isolado do mundo, sem possibilidade de resgate e diante de uma emergência grave, Leonid Rogozov realizou uma cirurgia em si mesmo para salvar a própria vida.
Rogozov tinha 27 anos e integrava a sexta expedição soviética ao continente gelado. O grupo de 12 homens havia acabado de instalar a Estação Novolazarevskaya, no Oásis Schirmacher, quando o inverno polar começou a se intensificar. Foi nesse período que o médico passou a sentir cansaço extremo, náuseas e dores intensas no lado direito do abdômen.
Apendicite em um dos lugares mais isolados do planeta
Como cirurgião experiente, Rogozov não teve dúvidas ao identificar o problema. Era uma apendicite aguda. Em condições normais, a cirurgia seria simples. Na Antártida, porém, não havia hospital, nem outro médico, nem possibilidade de evacuação. Navios só retornariam meses depois e voos eram impossíveis por causa das tempestades de neve.
Segundo o filho do médico, Vladislav Rogozov, em entrevista à BBC, o pai sabia que esperar significava correr um risco quase certo de morte. Se o apêndice se rompesse, não haveria o que fazer.
Diante do agravamento dos sintomas, Rogozov tomou uma decisão extrema. Ele faria a cirurgia em si mesmo.
A decisão e o preparo da operação
Antes do procedimento, o médico escreveu em seu diário que não havia dormido, atormentado pela dor e pelo medo. Ainda assim, planejou cada detalhe da operação. Distribuiu tarefas aos colegas da expedição, que não tinham formação médica, e explicou como deveriam agir caso ele perdesse a consciência.
Dois assistentes ficaram responsáveis pelos instrumentos e pela iluminação. Um terceiro seguraria um espelho, que permitiria ao cirurgião enxergar o campo operatório. A anestesia geral foi descartada. Rogozov aplicou apenas anestesia local na parede abdominal. O restante da cirurgia seria feito sem analgésicos, para manter a mente o mais lúcida possível.

A cirurgia em si mesmo
O procedimento começou em 30 de abril de 1961. Logo nos primeiros minutos, Rogozov percebeu que o espelho dificultava a visão por inverter as imagens. Abandonou o recurso e passou a trabalhar guiado principalmente pelo tato, usando as mãos sem luvas.
A cirurgia durou quase duas horas. Em diversos momentos, o médico precisou interromper o procedimento para descansar, tamanha era a exaustão. Houve sangramento intenso e até uma lesão acidental em uma víscera, que precisou ser suturada ali mesmo.
Em seu diário, Rogozov relatou o momento em que finalmente encontrou o apêndice inflamado, já com sinais de que poderia se romper a qualquer instante. Mesmo debilitado, conseguiu concluir a retirada e fechar a incisão.
Só depois de orientar os colegas sobre a limpeza dos instrumentos e da sala improvisada, o médico tomou antibióticos e um sedativo para dormir.
Recuperação e retorno ao trabalho
A recuperação foi rápida. Duas semanas após a cirurgia, Rogozov já havia retomado suas atividades na estação. A expedição, no entanto, ainda enfrentaria dificuldades para deixar a Antártida, sendo evacuada apenas mais tarde, em uma operação aérea arriscada.
Ao retornar à União Soviética, Rogozov foi recebido como herói nacional. Sua história passou a ser usada como símbolo de coragem e resistência em plena Guerra Fria, época em que feitos individuais ganhavam enorme peso político e simbólico. Apesar disso, ele evitou a exposição e voltou rapidamente à rotina no hospital onde trabalhava.
Um legado que atravessa gerações
Desde então, muitos países passaram a exigir a retirada preventiva do apêndice de profissionais que participam de missões prolongadas na Antártida. A mesma discussão existe hoje em relação a futuras missões espaciais de longa duração.
Para Vladislav Rogozov, o legado do pai vai além do feito médico. “Se você se deparar com uma situação desesperadora, mesmo no ambiente mais hostil, não desista”, resumiu. “Lute pela vida.”
