Plataformas de jogos online, como o Roblox, estão sendo usadas por diferentes religiões para promover fé, valores e diálogo com o público jovem. Igrejas católicas, adventistas e terreiros de umbanda têm criado ambientes virtuais que simulam templos e espaços religiosos, atraindo milhões de visualizações e levantando debates sobre evangelização, segurança digital e o futuro da experiência religiosa no ambiente virtual.

Modelagem 3D da paróquia Santa Generosa foi feita pelo próprio padre, que trabalha com arquitetura sacra
Modelagem 3D da paróquia Santa Generosa foi feita pelo próprio padre, que trabalha com arquitetura sacra

O Roblox, uma das plataformas de jogos mais populares do mundo, tem se tornado também um espaço de expressão religiosa. Com cerca de 85 milhões de acessos diários em mais de 180 países, especialmente entre crianças e adolescentes de 9 a 15 anos, o ambiente virtual passou a atrair igrejas e comunidades religiosas interessadas em dialogar com as novas gerações.

O que poucos imaginavam é que, além de jogos, shows e bares virtuais, a plataforma também se tornaria um espaço para celebrações religiosas, formação espiritual e evangelização.

Nos últimos meses, vídeos mostrando missas, cultos e rituais simbólicos dentro do Roblox viralizaram nas redes sociais, chamando atenção de pais, especialistas e líderes religiosos. O fenômeno levanta uma pergunta central: a fé pode existir, ou ao menos ser apresentada, no mundo virtual?

Igreja Católica no Roblox: evangelização sem sacramentos

Em São Paulo, a Paróquia Santa Generosa, localizada no bairro do Paraíso, desenvolveu um projeto pastoral que recria a igreja em ambiente 3D dentro do Roblox. O responsável pela iniciativa é o padre Alysson Carvalho, que acompanha pastoralmente o projeto.

  

“Não se trata de uma unidade paroquial no sentido institucional ou sacramental, mas de um ambiente digital de evangelização e catequese inspirado na vida da paróquia”, explica o sacerdote.

Segundo ele, o projeto ainda está em fase de protótipo, algo comum no desenvolvimento de jogos e ambientes virtuais. O espaço foi criado a partir da modelagem 3D da própria igreja, feita pelo próprio padre, que trabalha com arquitetura sacra, com apoio técnico de programadores.

“Eu acompanho pastoralmente a iniciativa para garantir que o conteúdo, a linguagem e as propostas estejam em plena sintonia com a fé católica e com a missão da Igreja”, afirma.

No ambiente virtual, não são celebradas missas sacramentais. O foco está em experiências educativas, visitas virtuais, interações com personagens (NPCs) e desafios catequéticos.

“A participação presencial na vida sacramental da Igreja é insubstituível. O Roblox funciona como ponte, não como substituição”, reforça.

Mesmo sem divulgação oficial, o servidor já registrou mais de 300 visitas, principalmente de crianças e adolescentes.

Respeito aos ritos e moderação constante

Apesar de estar inserido em um jogo, o projeto católico mantém atenção especial ao respeito aos símbolos religiosos.

“Há um cuidado pedagógico intencional em apresentar os ritos, os espaços e os símbolos com reverência. A fé não é gamificada de forma superficial”, destaca o padre Alysson.

Até o momento, não houve registros graves de intolerância religiosa no ambiente, segundo a paróquia. Ainda assim, o espaço conta com regras claras de convivência, moderação ativa e acompanhamento pastoral.

“Ensinar respeito, diálogo e convivência cristã no mundo digital faz parte da própria proposta evangelizadora”, completa.

Advent City: a cidade virtual da Igreja Adventista

Outra iniciativa de destaque é o Advent City, projeto oficial da Igreja Adventista do Sétimo Dia dentro do Roblox. Criado como uma ferramenta missionária, o espaço oferece atividades educativas, desafios e experiências ligadas à fé cristã.

Segundo Nina Amado, analista de marketing digital da Igreja Adventista em oito países da América do Sul, o objetivo é falar a língua dos jovens.

“Criamos um espaço digital educativo e divertido dentro do Roblox, onde crianças e adolescentes podem viver experiências ligadas à fé e aos valores cristãos de forma natural e interativa.”

Desde a inauguração, o Advent City já soma mais de 123 mil acessos. Em um evento de abertura, mais de 1.200 jogadores participaram simultaneamente, com hino, oração, música e dinâmicas ao vivo.

“É muito mais fácil convidar alguém para jogar Roblox do que para ir a um evento da igreja. Dentro do jogo, eles acabam conhecendo nossos valores”, afirma Nina.

A plataforma também adota filtros de linguagem, bloqueio de termos inadequados e proibição de chat por voz, além de incentivar a participação das famílias.

Umbanda no Roblox: fé, respeito e combate ao preconceito

O fenômeno não se restringe ao cristianismo. Religiões de matriz africana, como a umbanda, também passaram a ocupar o Roblox com terreiros virtuais.

Para João Galerani, dirigente do Terreiro da Vó Benedita, a presença digital é uma necessidade das novas gerações.

“Se a gente não acompanha a tecnologia, a religião morre junto com a gente. Os jovens são o nosso futuro”, afirma.

Segundo ele, o ambiente virtual pode ser uma ferramenta de aprendizado e respeito.

“É uma forma de aprender sobre a religião e aprender a respeitar. Desde que haja respeito aos fundamentos e à ancestralidade, vejo como algo positivo.”

João acredita que a exposição online pode ajudar a reduzir o preconceito, comum contra religiões de matriz africana.

“Toda forma de mostrar como a nossa religião funciona, nossas práticas de caridade e valores, ajuda a diminuir a intolerância.”

Vídeos virais e o olhar dos pais

O debate ganhou força após a viralização de vídeos publicados pelo perfil Jacaré Pereira, que faz conteúdos de react sobre o Roblox. As gravações mostram trechos de cultos e missas virtuais e já somam mais de 6 milhões de visualizações no TikTok e no Instagram.

Os comentários se dividem entre surpresa, curiosidade e preocupação. Muitos pais relatam que descobriram o interesse religioso dos filhos justamente por meio desses vídeos.

Fé digital não substitui o presencial

Apesar das críticas e desafios, líderes religiosos concordam em um ponto: o ambiente digital não substitui a vivência presencial da fé.

“A Igreja sempre esteve onde as pessoas estão. Hoje, as pessoas estão também no digital”, resume o padre Alysson.

A presença no Roblox, segundo eles, não busca competir com outras religiões ou “roubar fiéis”, mas criar pontes, despertar curiosidade e promover diálogo.

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