Em carta enviada da Penitenciária Federal de Campo Grande, Marcinho VP analisa a situação jurídica do filho, o rapper Oruam, admitindo erros do jovem, mas contestando o peso das acusações. O detento também relata sua rotina de isolamento, critica o monitoramento de suas correspondências e enfrenta novos mandados de prisão que podem impedir sua soltura, prevista para setembro.

Marcinho VP e Oruam || Reprodução: Redes Sociais
Marcinho VP e Oruam || Reprodução: Redes Sociais

Preso na Penitenciária Federal de Campo Grande, em Mato Grosso do Sul, Márcio dos Santos Nepomuceno, conhecido como Marcinho VP, mantém uma rotina de escrita constante. Em carta enviada ao seu advogado, o detento discorre sobre temas sociais, políticos e, recentemente, sobre os impasses judiciais enfrentados por seu filho, o rapper Oruam. O músico é réu por tentativa de homicídio qualificado contra policiais civis, além de responder por delitos como desacato, resistência e dano qualificado.

Oruam teve sua prisão preventiva restabelecida após a revogação de um habeas corpus, sendo atualmente considerado foragido pela Justiça. Em uma das cartas, publicada pela coluna ‘True Crime‘, do jornalista Ullisses Campbell, do jornal ‘O Globo‘, Marcinho VP avalia a conduta do filho com sobriedade, reconhecendo que houve falhas no comportamento do jovem artista, mas questionando a dimensão das acusações formuladas pelas autoridades.

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O reconhecimento do erro

Em texto datado de setembro do ano passado, o pai do artista manifestou que, embora lamente o cenário atual, o filho não agiu com a cautela necessária. Segundo o relato, Oruam deve responder estritamente pelo que cometeu, sem a atribuição de condutas que o pai classifica como levianas. Ele defende que a punição seja proporcional aos atos reais, refutando teses que tentam associar o jovem ao porte de armamentos de forma indevida.

Marcinho VP descreveu a criação dos filhos em ambiente religioso e destacou que o sucesso repentino pode ter contribuído para que o músico perdesse o foco. Apesar do contexto de reclusão e dos processos em curso, ele manifestou confiança de que o período de adversidade servirá para o amadurecimento do filho, a quem descreve como um artista de potencial relevante no cenário musical, capaz de atrair grandes públicos.

Críticas à Justiça

Além das questões familiares, as cartas trazem críticas técnicas ao sistema jurídico brasileiro. Marcinho VP contesta a aplicação da teoria do domínio do fato em seus processos, mencionando o jurista alemão Claus Roxin. De acordo com a visão do detento, a tese que pressupõe o conhecimento de lideranças sobre crimes cometidos por subordinados é aplicada de maneira distorcida no país para fundamentar condenações e manter prisões preventivas.

O monitoramento das correspondências também é um ponto de insatisfação relatado por ele. No Sistema Penitenciário Federal, todas as cartas passam por uma triagem rigorosa de funcionários, que buscam identificar possíveis ordens para o exterior das unidades. Marcinho VP afirma que o procedimento fere sua privacidade e relata que trechos de seus textos são frequentemente censurados com rasuras antes de chegarem ao destino ou serem entregues a ele.

Projeções para a liberdade

Preso no sistema federal desde 2007 e submetido a isolamento rigoroso, Marcinho VP aproxima-se do limite de 30 anos de cumprimento de pena, teto vigente na época de suas condenações. A previsão inicial para que ele deixe o sistema penitenciário é setembro de 2026. Entretanto, a liberdade do apenado enfrenta novos obstáculos jurídicos.

Atualmente, pesa contra ele um mandado de prisão preventiva decorrente de uma investigação de 2024. O processo em questão apura o envolvimento de lideranças criminosas em uma estrutura de roubo de veículos na Zona Norte do Rio de Janeiro. Caso essa ordem judicial seja mantida, a soltura prevista para o próximo ano poderá ser inviabilizada, mantendo-o sob custódia por tempo indeterminado enquanto o novo processo tramita na Justiça.

Leia a carta de Marcinho VP a Oruam:

“No que dizia respeito a meu filho Popstar, firmeza total. Como pai, lamento muito por tudo que ele está passando, porém, ele também não vigiou né? Ainda assim, tem que pagar (somente) apenas pelo que fez de verdade, e não por acusações levianas e armas portadas como estão intentando fazer com o menino. Fere os princípios da proporcionalidade e da razoabilidade a imputabilidade do direito mais gravoso do que a pessoa cometeu. Está tudo filmado, gravado! E contra os fatos não há argumentos. As imagens são claras, assim como a loz solar de qual foram as infrações que ele d e forma imprudente cometeu, e também das que os agentes cometeram. Porém estou tranquilo e confiante na justiça porque sei que a longo prazo as acusações fabricadas de má fé, como uma pedra de quase cinco quilos que apareceu supervenientemente ao ocorrido não se sustentam. Depois de Deus, o tempo e o Juiz são mais perfeitos.

É de luzidia evidência jurídica que meu filho errou, e não abono sua conduta. Ele tem que pagar pelo que fez. Entretanto, não é justo, e muito menos escorreito, intentarem atribuir a ele coisas na qual ele não fez. Podem aqueles que se dizem defensores da lei, da ética e da sociedade fazer injustiça em nome da Lei? Enfim, Deus sabe de todas as coisas. Os planos de Deus para nossas vidas foram estabelecidos, principalmente na esfera espiritual, antes da fundação do mundo, e creio piamente que é um bom plano como se vê em Jeremias 29:11 “Porque sou eu que conheço os planos que tenho para vocês, diz o Senhor, planos de fazê-los prosperar e não de lhes causar danos, planos de lhe dar esperança e um futuro”(destacamos).

Todos os meus filhos cresceram na Igreja. O Mauro era um menino bom, respeitador, obediente aos pais, humilde. Todavia, é insofismável que o sucesso fez ele tirar os pés do chão um pouco e se perder. Que o cativeiro sirva de reflexão para ele se apegar de novo a Deus, como fazia quando era menino, e procurar a sua melhora. Só não aceito quererem fazer com ele o mesmo que fizeram comigo aos 20 anos de idade: imputá-lo um monte de crimes para destruí-lo. Isso não podemos admitir jamais né? Pois meu filho não é, e nunca foi nenhum bandido. Mais sim um artista com potencial ímpar, que canta, compõe e arrasta multidões. Acredito que ele, se tiver juízo, vai sair de lá maior do que entrou. Lembra de José do Egito? A história de José nos mostra que muitas vezes em nossas vidas, Satanás acha que esta fazendo algo terrível para nos destruir de vez, e, no entanto, os planos de Deus são outros. Ele só finge aceitar a astúcia do inimigo para nos causar dano e arruinar-nos, mas em silêncio trabalha pelo nosso bem. Deus transforma mal em bem. Em Gênesis 50: “José diz a seus irmãos: “Vocês planejaram o mal contra mim, mas Deus o tornou em bem, para que hoje fosse preservada a vida de muitos”. Mistério profundo! Abração. Marcio”

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