A chuva foi também alimentada por um corredor de umidade canalizado por uma frente fria estacionada no litoral do Sudeste, que trouxe vapor d’água da Amazônia em direção ao Sudeste

Temporal em Minas Gerais (Foto:  Divulgação/Sala de Imprensa/CBMMG)
Temporal em Minas Gerais (Foto: Divulgação/Sala de Imprensa/CBMMG)

A configuração geográfica de Minas Gerais, na Zona da Mata mineira, teve papel determinante na intensificação das chuvas extremas que já provocaram mais de 20 mortes e deixaram dezenas de desaparecidos no município e também em Ubá, localizada a pouco mais de 100 quilômetros dali. De acordo com especialistas, o relevo montanhoso da região atuou como um fator potencializador das tempestades, agravando um quadro atmosférico típico do verão no Sudeste.

Situada em um vale cercado por morros e serras, com altitudes que variam de aproximadamente 470 a quase 1.000 metros, Juiz de Fora possui uma formação que favorece a retenção e o deslocamento forçado de massas de ar úmido. Quando frentes e sistemas meteorológicos avançam sobre a região, essa barreira natural contribui para a formação de nuvens carregadas e chuvas volumosas em curto período de tempo.

Na segunda-feira (23), o município registrou mais de 190 milímetros de precipitação em apenas oito horas, volume considerado extremamente elevado. Ao longo do mês, o acumulado já se aproxima dos 600 milímetros, índice muito acima da média histórica. A combinação entre fatores climáticos de grande escala e as características do relevo local explica a intensidade do temporal que atingiu a região e ampliou os impactos das enchentes.

Condições locais influenciaram a concentração das chuvas

A permanência de uma frente fria sobre o litoral do Sudeste nos últimos dias contribuiu para organizar um intenso fluxo de umidade em direção a Minas Gerais. Mesmo sem grande força, o sistema atuou como um canal para o transporte de vapor d’água vindo da Amazônia, formando um corredor atmosférico que atravessou a região e manteve as nuvens carregadas sobre o estado.

Outro fator determinante foi a temperatura da superfície do mar, que está até 3 °C acima da média, com registros próximos de 29 °C. O oceano mais aquecido eleva a evaporação e amplia a quantidade de umidade disponível na atmosfera, criando condições favoráveis à formação de tempestades mais intensas e volumosas.

Especialistas comparam o fenômeno ao aquecimento de uma panela com água: quando a fervura começa, é possível prever agitação, mas não exatamente onde surgirá cada bolha. Na atmosfera, esse processo recebe o nome de convecção, mecanismo responsável pela ascensão do ar quente e úmido, que dá origem a nuvens carregadas.

Além disso, a chegada de ventos mais frios e úmidos vindos do oceano intensificou o contraste entre massas de ar quente e frio. Esse encontro favoreceu a formação de nuvens do tipo cumulonimbus, associadas a temporais, rajadas de vento e grande volume de chuva em curto intervalo de tempo. Dependendo das condições locais, essas nuvens podem se deslocar rapidamente ou permanecer concentradas sobre uma mesma área, ampliando os impactos.

Formação irregular das nuvens intensificou a tempestade

Na comparação com a fervura da água, as “bolhas” representam as nuvens que se formam de maneira irregular na atmosfera, concentrando mais intensidade em determinados pontos. No caso de Juiz de Fora, o relevo acidentado teve papel decisivo nesse processo. Os morros e serras da cidade impulsionaram a ascensão do ar quente e úmido, intensificando a formação de nuvens densas e mantendo a chuva forte estacionada sobre o município por várias horas.

“A interação desse cenário de grande escala com o relevo na pequena escala faz com que, em algumas áreas, haja nuvens mais carregadas. Ou seja, o relevo acaba fazendo a chuva ser mais intensa e mais concentrada”, explica o meteorologista do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), Giovani Dolif.

Diferença de impactos mesmo com volumes elevados

Esse mecanismo orográfico não apenas aumentou a intensidade da precipitação, como também prolongou sua duração e ampliou os danos. A influência do terreno explica por que áreas com volumes semelhantes, ou até superiores de chuva que podem registrar impactos diferentes.

Um exemplo é Mangaratiba, no litoral do Rio de Janeiro, que no mesmo intervalo contabilizou mais de 200 milímetros de chuva, índice superior ao observado em Juiz de Fora. Ainda assim, os efeitos não foram proporcionais. A diferença está relacionada às características geográficas e urbanas de cada local, que interferem diretamente na drenagem, no escoamento da água e no risco de alagamentos e deslizamentos.

“Essa chuva foi generalizada, ela não ficou concentrada em uma área da cidade, e isso faz com que haja mais impactos. O que a gente percebe é que isso pode ter acontecido pela reação do cenário meteorológico com a própria cidade”, explica Pedro Camarinha, especialista em desastres e diretor do Cemaden.

Temporal em Minas Gerais (Foto: Divulgação Corpo de Bombeiros)

Levantamento do IBGE destacou risco elevado no município

Além dos fatores climáticos e do relevo, a própria vulnerabilidade urbana agravou as consequências do temporal em Juiz de Fora. Com grande parte do município formada por encostas íngremes, a água da chuva escoou com velocidade, provocando enxurradas intensas e colocando pressão sobre o sistema de drenagem. Em bairros com ocupação em áreas inclinadas, os deslizamentos de terra se multiplicaram, contribuindo para o alto número de vítimas.

Os riscos já eram conhecidos. Em fevereiro de 2025, a então diretora do Cemaden, Regina Alvalá, havia alertado que cerca de 130 mil moradores da cidade viviam em regiões classificadas como áreas de risco. O dado reforçava a necessidade de ações preventivas e políticas de adaptação diante de eventos extremos.

Indicadores nacionais também apontavam o cenário preocupante. Em 2024, Juiz de Fora ocupava a quarta posição no país em registros de ocorrências relacionadas a riscos geológicos, como escorregamentos de encostas. Já levantamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) colocou o município na 12ª colocação entre as cidades brasileiras com maior número de pessoas vivendo em áreas vulneráveis, com mais de 128 mil moradores expostos.

“A forma como a cidade é ocupada é uma questão-chave. Há moradores em encostas, em áreas de risco, e isso faz com que toda chuva seja um risco. Quando há um volume maior, vemos uma tragédia”, explica Giovani Dolif.

Cemaden mantém alerta máximo para a cidade

Segundo o Cemaden, o nível de alerta máximo permanece em vigor devido ao alto grau de saturação do solo em Juiz de Fora. Com o terreno já encharcado após dias consecutivos de chuva intensa, a previsão indica novo período de precipitações fortes entre quinta-feira (26) e sexta-feira (27), o que aumenta o risco de deslizamentos e alagamentos.

Diante do cenário crítico, o município decretou estado de calamidade pública e reforçou as ações de monitoramento e resposta emergencial. Equipes da Defesa Civil e demais órgãos atuam no suporte às famílias afetadas, além de intensificar a vigilância em áreas consideradas mais vulneráveis para reduzir os impactos de possíveis novos temporais.

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