A atleta Rafaella Arruda, de 20 anos, integrante da Seleção Brasileira de taekwondo, relata início difícil no esporte, vivência de abusos psicológicos no alto rendimento e decisão de interromper a carreira para cuidar da saúde mental. Após dois anos afastada, ela se reconstruiu e voltou ao topo, defendendo que dignidade deve estar acima de qualquer medalha.
A história de Rafaella Arruda, de 20 anos, atleta da Seleção Brasileira de taekwondo e estudante de Direito na Universidade Municipal de São Caetano do Sul (USCS), é marcada por conquistas expressivas — mas, sobretudo, por um processo profundo de reconstrução pessoal.
Moradora do ABC Paulista, Rafaella começou no esporte ainda criança, sem imaginar que ali encontraria seu caminho. Vinda de modalidades consideradas mais “delicadas”, o primeiro contato com o taekwondo foi de estranhamento.
“Era um ambiente mais duro, mais físico… eu não me enxergava ali. Eu não via beleza. Eu não via pertencimento”, relembra.
A conexão com o esporte surgiu aos poucos, à medida que ela passou a compreender sua complexidade.
“Quando eu entendi que não era só luta, mas estratégia, inteligência, controle e precisão, e percebi que eu era boa naquilo, tudo mudou. O taekwondo virou um lugar onde eu me sentia potente”, afirma.
A partir daí, o que antes era apenas mais uma tentativa virou parte central da sua identidade.
Os resultados vieram cedo. Rafaella conquistou o título pan-americano aos 13 anos e acumulou uma sequência de vitórias que a manteve invicta por anos. No entanto, por trás das medalhas, havia um cenário silencioso de sofrimento.
Inserida ainda adolescente em um ambiente de alta performance, ela enfrentou abuso psicológico, manipulação e assédio — situações que, segundo ela, eram naturalizadas.
“Por muito tempo, eu achei que tudo aquilo era o preço do sucesso”, conta.
O limite chegou quando o desgaste emocional passou a afetar sua identidade.
“Eu não me reconhecia mais. Eu estava performando, mas não estava vivendo”, diz.
A decisão de interromper a carreira aconteceu em 2022, após a conquista do ouro nos Jogos Sul-Americanos, e foi potencializada por uma lesão no joelho, que a afastou dos treinos e permitiu uma nova perspectiva.
“Reconhecer que não era normal foi doloroso. Decidir parar foi mais doloroso ainda. Mas foi o primeiro ato de amor próprio que eu tive comigo”, afirma.
O período de dois anos longe do esporte foi, segundo Rafaella, o maior desafio da sua vida.
“Foi silencioso. E muito mais difícil do que qualquer campeonato”, resume.
Durante esse tempo, ela investiu em terapia, se afastou de ambientes tóxicos e reconstruiu sua autoestima fora do pódio.
“Eu precisei aprender quem era a Rafa sem medalha, sem convocação, sem uniforme da seleção”, explica.
O retorno aconteceu no final de 2024 — e rapidamente. Em menos de um ano, Rafaella reconquistou espaço na Seleção Brasileira, sendo convocada como titular da equipe sub-21 e reserva da equipe adulta, além de ser eleita a melhor atleta sub-21 do estado de São Paulo em 2025.
Para ela, a principal mudança está na motivação.
“Eu voltei inteira. Não para provar algo para alguém, mas porque eu estava bem comigo mesma”, afirma.
Hoje, a atleta concilia uma rotina intensa entre treinos, faculdade e trabalho, com deslocamentos diários entre o ABC Paulista e Santo Amaro. Ainda assim, garante que a relação com o esporte mudou completamente.
“Eu treino porque eu quero melhorar, não por medo de decepcionar alguém. Eu escuto meu corpo, respeito meus limites e não negocio minha saúde mental por medalha nenhuma”, diz.
A disciplina permanece, mas com outro significado.
“Hoje, ela vem de dentro, não do medo”, completa.
Ao compartilhar sua trajetória, Rafaella faz um alerta direto a outros jovens atletas que enfrentam situações semelhantes.
“Resultado nenhum vale a sua dignidade. Se você precisa se diminuir, se calar ou suportar violência para dar certo, isso não é alto rendimento, é abuso disfarçado de ambição”, afirma.
Ela reforça que é possível alcançar o alto nível sem abrir mão da própria integridade.
“Você pode ser forte e ainda assim impor limites. Eu sou prova disso. Eu parei, me reconstruí e voltei melhor, não só como atleta, mas como pessoa”, diz.
Hoje, mais do que os títulos, Rafaella valoriza o caminho percorrido — e a forma como escolheu trilhá-lo.
“Viver dessa forma é muito mais gratificante. Eu sinto que estou no caminho certo”, conclui.
