De acordo com o delegado Saulo Ramos Furquim, o homem teria interpretado de forma equivocada uma atividade pedagógica sobre cultura afro-brasileira e reagido com base em convicções pessoais. No documento, o investigador afirmou que a reação do pai se assemelha à do personagem literário que enfrenta “moinhos de vento acreditando serem gigantes”, sugerindo que a situação foi interpretada de maneira distorcida.

Pai aciona polícia após filha desenhar orixá e é indiciado por intolerância religiosa

O delegado que conduziu as investigações sobre o caso do pai que acionou a polícia após a filha desenhar uma orixá na escola comparou o homem ao icônico personagem Dom Quixote, criado pelo escritor espanhol Miguel de Cervantes. Após a finalização do inquérito, o pai foi formalmente indiciado por prática de intolerância religiosa.

“O personagem, guiado por suas próprias convicções e uma imaginação desmedida, enfrenta moinhos de vento acreditando que são gigantes ameaçadores”, destacou o delegado Saulo Ramos Furquim ao fazer referência à obra lançada em 1605.

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“Naquela narrativa, a reação do personagem não se funda na realidade fática, mas na interpretação que constrói a partir dela. De modo semelhante, no presente caso, o investigado, ao deparar-se com mural contendo desenho infantil feito por sua filha alusivo à cultura afro-brasileira, interpretou tal contexto como prática de ensino religioso confessional, passando a agir de modo enérgico contra tal situação”, acrescentou.

Investigação aponta desrespeito

Segundo o delegado responsável pelo caso, o pai escolheu “ampliar o conflito” com a escola ao adotar uma postura agressiva e chamar a Polícia Militar, mesmo ciente de que uma reunião do conselho escolar já estava marcada para discutir a atividade.

O inquérito aponta ainda que o homem ultrapassou os limites do direito de questionar o projeto pedagógico e agiu de forma desrespeitosa em relação à cultura de matriz africana. A Polícia Civil de São Paulo indiciou o pai por intolerância religiosa.

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O relatório da investigação foi encaminhado à Justiça e ao Ministério Público, que decidirão se apresentarão denúncia, proporão acordo na esfera criminal ou tomarão outras medidas legais cabíveis. Procurada pelo Metrópoles, a defesa do investigado, que teve sua identidade preservada para resguardar a filha, informou que ele optou por não se pronunciar sobre o caso.

Polícia Militar é acionada

Conforme publicado na época, em 12 de novembro de 2025, o pai de uma estudante de 4 anos acionou a Polícia Militar ao se declarar contrário a uma atividade realizada pela filha. O homem, que atua como policial, afirmou aos agentes que a criança estaria sendo submetida a uma “aula de religião africana” e alegou que sua família segue a fé cristã, discordando da proposta.

No dia anterior ao episódio, o pai já havia demonstrado insatisfação com o conteúdo do currículo antirracista aplicado pela rede municipal de ensino e chegou a rasgar um mural com desenhos das crianças, segundo relato de uma mãe de aluno.

Após o incidente, a direção da escola convidou o homem a participar da reunião do conselho escolar, mas ele não compareceu e novamente acionou a Polícia Militar.

Atividade escolar envolve desenho da orixá Iansã

O desenho da orixá Iansã fazia parte de uma atividade escolar baseada no livro infantil Ciranda em Aruanda, da autora Liu Olivina, incluído no acervo oficial da rede municipal de ensino de São Paulo.

Publicado pela Editora Quatro Cantos, o livro apresenta ilustrações de 10 orixás e descreve, em textos curtos, as principais características de cada divindade. Oxóssi, por exemplo, é retratado como “o grande guardião da floresta”.

A direção da EMEI ressaltou que a atividade segue as determinações das leis nº 10.639/03 e nº 11.645/08, que obrigam o ensino de história e cultura afro-brasileira em todo o país, e enfatizou que a proposta não tinha finalidade doutrinária. As crianças apenas ouviram a história e, na sequência, realizaram um desenho inspirado no livro.

Ciranda em Aruanda recebeu o selo Altamente Recomendável da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ) e foi reconhecido como Acervo Informativo de Qualidade pela Cátedra UNESCO de Leitura da PUC-Rio.

Capa do Livro, Ciranda em Aruanda (Reprodução/Liu Olivina/Editora Quatro Cantos)

Testemunhas relatam clima de intimidação

Policiais militares que não integravam a equipe de ronda escolar se dirigiram até a unidade de ensino após serem acionados. No local, segundo relatos, os agentes informaram à direção que a atividade realizada poderia ser interpretada como “ensino religioso”, afirmando ainda que a criança estaria tendo contato com conteúdos ligados a uma crença diferente da seguida por sua família. Testemunhas disseram que um dos policiais estava armado com uma metralhadora e classificaram a abordagem como intimidatória.

De acordo com uma mãe de aluno, que preferiu não se identificar, a presença dos policiais provocou medo entre crianças e funcionários. Ela afirmou que os agentes teriam agido de forma autoritária durante a ocorrência.

Caso gera repercussão e cobrança por investigação

A situação também teria afetado a diretora da escola, que passou mal diante do ocorrido. “Um grupo de pais precisou conversar com os policiais para que eles deixassem o local”, relatou. Toda a ação foi registrada tanto pela câmera corporal de um dos agentes quanto pelo sistema de monitoramento da escola.

Após o episódio ganhar grande repercussão, diversas autoridades se manifestaram e cobraram apurações sobre a conduta do pai e também dos policiais que atenderam ao chamado. Conforme revelou o Metrópoles, uma apuração inicial conduzida pelo 16º Batalhão da Polícia Militar resultou no arquivamento do procedimento envolvendo o pai da criança e o tenente responsável pelo atendimento. Em nota, a Secretaria da Segurança Pública (SSP) informou, porém, que ainda existe um Inquérito Policial Militar (IPM) em andamento para analisar o caso.

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