Segundo os cientistas, essas mutações se acumulam progressivamente porque, na clonagem, todo o material genético, inclusive possíveis falhas, é transmitido integralmente para os descendentes. O resultado é um efeito semelhante ao de cópias sucessivas de uma mesma imagem, que perdem qualidade a cada reprodução.

Rato (Foto: Freepik)
Rato (Foto: Freepik)

Um estudo científico conduzido ao longo de duas décadas revelou limites importantes da clonagem ao apontar o acúmulo progressivo de mutações genéticas em animais clonados repetidamente. A pesquisa, realizada por cientistas no Japão, acompanhou a reprodução de camundongos clonados a partir de uma única fêmea doadora, evidenciando impactos ao longo das gerações.

Ao todo, foram produzidos 1.206 animais entre 2005 e 2025. Nas primeiras gerações, os clones não apresentaram alterações aparentes, mantendo características semelhantes ao organismo original. No entanto, com o passar do tempo, alterações genéticas começaram a surgir e se intensificaram gradualmente.

Os efeitos se tornaram mais evidentes em gerações mais avançadas. Mesmo sem sinais físicos claros de anormalidade, alguns animais passaram a não sobreviver por muito tempo após o nascimento, indicando danos acumulados no material genético.

Diferença entre clonagem em mamíferos e outros organismos

Segundo o biólogo do desenvolvimento Teruhiko Wakayama, da Universidade de Yamanashi, a pesquisa representa um marco ao demonstrar, pela primeira vez, que a clonagem sucessiva não pode ser mantida indefinidamente sem consequências.

De acordo com o cientista, os resultados mostram que animais clonados acumulam alterações genéticas em uma taxa significativamente superior à observada em indivíduos gerados por reprodução natural. Esse acúmulo progressivo de mutações compromete a viabilidade das gerações seguintes, tornando inviável a continuidade da espécie por meio desse método.

O estudo também reforça a diferença entre mamíferos e outros organismos, como plantas e formas de vida mais simples, que conseguem se reproduzir por clonagem sem os mesmos impactos. Nos mamíferos, no entanto, o processo acaba gerando limitações biológicas que impedem a perpetuação saudável das linhagens clonadas.

Para chegar a essas conclusões, os pesquisadores realizaram sucessivas clonagens ao longo de anos, com intervalos de poucos meses entre cada geração. Todos os animais foram originados a partir de uma única doadora e mantiveram características semelhantes, como sexo e coloração, o que permitiu acompanhar com precisão as mudanças genéticas ao longo do tempo.

Estudo inicial indicava clonagem sem riscos aparentes

Pesquisadores que investigam os efeitos da clonagem ao longo de gerações revisaram conclusões anteriores após ampliar um estudo iniciado há mais de uma década. Em resultados preliminares divulgados em 2013, que analisavam as primeiras 25 gerações de camundongos clonados, os cientistas não haviam identificado problemas aparentes na saúde dos animais, o que levou à hipótese de que o processo poderia ser mantido sem grandes limitações.

No entanto, com a continuidade das análises por mais 13 anos, os especialistas perceberam que a realidade era diferente. Ao aprofundar a investigação, incluindo a análise detalhada do material genético dos clones, foi possível constatar que alterações genéticas se acumulavam progressivamente, o que contradiz a conclusão inicial.

Para entender melhor o fenômeno, os pesquisadores realizaram o sequenciamento genético de animais de diferentes gerações. Os resultados mostraram que a repetição do processo de clonagem provoca um efeito cumulativo, semelhante à reprodução sucessiva de uma mesma imagem, em que a qualidade se deteriora gradualmente a cada nova cópia.

Fertilidade dos clones diminui ao longo das gerações

Os resultados mais recentes do estudo reforçam o papel essencial da reprodução sexuada na preservação genética dos mamíferos, especialmente no que diz respeito à redução de mutações prejudiciais ao longo das gerações. A análise indicou que a clonagem repetida não consegue impedir o acúmulo dessas alterações, o que impacta diretamente a saúde e a capacidade reprodutiva dos animais.

Durante o experimento, os cientistas testaram a fertilidade dos clones ao cruzá-los com machos não clonados. Nas primeiras gerações, os resultados foram semelhantes aos de animais comuns, com ninhadas numerosas. No entanto, com o avanço das gerações, houve uma queda gradual no número de filhotes, evidenciando os efeitos negativos do acúmulo genético ao longo do tempo.

Para realizar a pesquisa, foi utilizada a técnica de transferência nuclear, um método já conhecido na ciência. Esse mesmo procedimento foi responsável pela criação de marcos históricos da clonagem, como a ovelha Dolly, primeiro mamífero clonado com sucesso em 1996, e o rato Cumulina, foi clonado em um laboratório no Havaí em 1998.

Transferência nuclear é base do processo de clonagem

Pesquisadores explicaram que o processo de clonagem utilizado no estudo se baseia na técnica de transferência nuclear, na qual o núcleo de uma célula doadora responsável por armazenar as informações genéticas é inserido em um óvulo previamente esvaziado. Para isso, foi empregada uma célula do cumulus, estrutura que envolve e auxilia no desenvolvimento do óvulo, permitindo a formação de embriões clonados em laboratório.

Apesar dos avanços, os cientistas admitiram frustração com os limites encontrados ao longo das gerações. Segundo o biólogo Teruhiko Wakayama, a expectativa inicial era de que a clonagem pudesse ser repetida indefinidamente, mas os resultados mais recentes mostram o contrário. Ele destaca que, até o momento, não há soluções claras para contornar esse problema, o que indica a necessidade de desenvolver novas abordagens que aprimorem a técnica atual.

A partir da 27ª geração, os pesquisadores observaram um aumento significativo de mutações prejudiciais, incluindo alterações cromossômicas relevantes. Entre elas, foi identificada a perda de uma cópia do cromossomo X, estrutura essencial para o transporte de informações genéticas. Em mamíferos, as fêmeas possuem dois cromossomos X, herdados de cada progenitor, e alterações nesse padrão podem comprometer o desenvolvimento.

Os cientistas também ressaltaram que, na clonagem, todo o material genético é transmitido integralmente para as gerações seguintes, o que inclui tanto genes saudáveis quanto defeituosos. Esse acúmulo progressivo de falhas genéticas ajuda a explicar por que a clonagem em série encontra limites biológicos, tornando inviável sua continuidade indefinida em mamíferos.

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