A iniciativa busca organizar o uso do espaço urbano e enfrentar distorções causadas pela crise imobiliária e pelo envelhecimento da população, fatores que impulsionaram a alternativa dos chamados “apartamentos de cinzas”. Com funerais entre os mais caros do mundo e imóveis mais acessíveis nos últimos anos, muitas famílias recorreram a essa solução, agora alvo de restrições por parte das autoridades.
Com a escassez e os altos valores dos espaços em cemitérios da China, muitas famílias passaram a comprar imóveis residenciais para armazenar urnas funerárias de parentes. Tal comportamento chamou atenção das autoridades, e o governo chinês determinou recentemente a proibição da prática.
A regra contra os “apartamentos funerários” começou a valer nesta semana, às vésperas do Festival de Qingming. Durante o período tradicional, famílias visitam os túmulos de seus antepassados para limpeza, homenagens e oferendas.
Além da proibição desse tipo de uso em imóveis residenciais, o governo chinês também anunciou novas normas para aumentar a transparência e combater irregularidades no setor funerário, especialmente relacionadas à cobrança de serviços. As mudanças fazem parte de um esforço mais amplo para regular um mercado pressionado pela alta demanda e pelos custos elevados.
A dificuldade em lidar com a falta de espaço em cemitérios já havia levado autoridades locais a adotarem medidas controversas. Em 2025, por exemplo, uma região do sudoeste do país determinou a obrigatoriedade da cremação, decisão que provocou reações contrárias de grupos étnicos, como a comunidade miao, que vê a prática como incompatível com suas crenças e tradições ancestrais, por considerar que a destruição do corpo rompe o vínculo com a família e a herança cultural.
Envelhecimento da população
O envelhecimento acelerado da população chinesa, aliado ao fato de o número de mortes já superar o de nascimentos, tem intensificado a alta nos custos funerários no país. Esse cenário, somado ao avanço da urbanização, aumenta a pressão sobre a oferta limitada de espaços em cemitérios nas grandes cidades, elevando ainda mais os preços.
Dados apontam que, em 2020, as despesas com funerais chegaram a representar quase metade da renda média anual no país, colocando a China entre os lugares com serviços funerários mais caros do mundo, atrás apenas do Japão.
Os valores do serviço funerário atingem um alto custo, que pode chegar a 100 mil yuans, aproximadamente R$ 75 mil. Embora os centros urbanos tenham uma alta procura e mais intensa, essa combinação de alta demanda e oferta limitada deixa os preços acima, fazendo com que os rituais de despedida fiquem cada vez mais caros para a população.
Em contrapartida, o mercado imobiliário atravessa um período de queda, com desvalorização significativa dos imóveis entre 2021 e 2025, influenciada por uma crise prolongada no setor e por medidas governamentais para conter a especulação, segundo o The Guardian.
Xinyi Wu, doutoranda em antropologia na Universidade da Califórnia à AFP, disse que o uso de imóveis residenciais para usar como funerária é um tema delicado e sensível para o governo chinês, além disso a pratica acaba ultrapassando os limites entre os espaços destinados à vida cotidiana.
Esse contraste entre o alto custo dos cemitérios e a redução no preço dos imóveis ajudou a impulsionar a prática dos chamados “apartamentos funerários”.
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