Um caso de violência doméstica na Escócia ganhou repercussão internacional após a divulgação de imagens que mostram os momentos finais de uma jovem antes de sua morte. Kimberley Milne, de 28 anos, tentou fugir do marido após um histórico prolongado de abusos físicos e psicológicos. Na noite do crime, ela foi perseguida e encurralada, chegando a escalar um viaduto sobre uma rodovia, de onde caiu. A vítima acabou sendo atingida por um veículo e não resistiu aos ferimentos.

 

Lee Milne e Kimberley Milne (Foto: Reprodução)
Lee Milne e Kimberley Milne (Foto: Reprodução)

Imagens divulgadas pelas autoridades escocesas revelam os momentos de desespero vividos por uma mulher pouco antes de sua morte, em um caso marcado por violência doméstica. Kimberley Milne, de 28 anos, caiu de uma ponte sobre a rodovia A90, na cidade de Dundee, em julho de 2023, após tentar fugir do então marido.

Lee Milne e Kimberley Milne (Foto: Reprodução)

O responsável, Lee Milne, de 40 anos, foi condenado nesta semana a oito anos de prisão. De acordo com a investigação, ele submeteu a vítima a um ciclo contínuo de abusos ao longo de cerca de um ano e meio.

Os registros em vídeo, apresentados em tribunal pelo Crown Office e pelo Procurador Fiscal Central, mostram a sequência de acontecimentos na noite do crime. Em uma das gravações, o homem aparece dirigindo de forma agressiva ao entrar rapidamente em um estacionamento por volta das 21h15 daquela noite, na Old Glamis Road. No local, Kimberley tenta sair do carro, enquanto ele avança com o veículo em sua direção, interrompendo o movimento bruscamente pouco antes de atingi-la.

Outro trecho do vídeo, às 22h captado mais tarde, mostra o casal deixando um supermercado na região de Kingsway. Nas imagens, a jovem surge visivelmente abalada, tentando se proteger enquanto é alvo de insultos.

Irmã tentou alertar sobre comportamento abusivo

As mensagens entre Kimberley e a irmã trouxeram à tona a de pressão emocional vivido pela jovem antes da tragédia. Nos diálogos, ela demonstra insegurança diante das ameaças do companheiro, que, segundo relatado, dizia que atentaria contra a própria vida caso fosse abandonado.

Em uma das mensagens, Kimberley questiona: “Como posso deixá-lo se ele diz que vai se matar sem mim? Em seguida a irmã responde: “Eu simplesmente o deixaria. Ele não se importa se é isso que está fazendo, para ser honesta, Kim.”

Na noite de 27 de julho de 2023, uma sequência de acontecimentos marcados pelo medo. De acordo com a acusação, o homem conduziu o carro de maneira perigosa e imprevisível, criando um ambiente de pânico. Em determinado momento, a vítima conseguiu sair do veículo, mas passou a ser perseguida e impedida de fugir.

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Familiares reage à decisão judicial

Diante da situação, Kimberley acabou subindo a estrutura de um viaduto sobre a rodovia A90, em Dundee, de onde caiu. Após atingir a pista, ela foi atingida por um caminhão que trafegava no sentido leste, sofrendo ferimentos graves que levaram à sua morte. O caso foi julgado em março deste ano, quando o acusado foi considerado culpado por sua participação direta nos acontecimentos que resultaram na morte da jovem.

Familiares de Kimberley demonstraram alívio após o desfecho judicial do caso. A mãe da jovem, Lynne Bruce, afirmou estar satisfeita com a decisão, destacando que, finalmente, a versão apresentada pela filha foi reconhecida. Segundo ela, o sentimento é de que a verdade prevaleceu.

A irmã da vítima, Lynsey Anderson, também se pronunciou de forma contundente, classificando o condenado como alguém perigoso e ressaltando que, com a sentença, ele não poderá mais fazer novas vítimas.

O responsável voltou ao Tribunal Superior de Glasgow para a definição da pena, em uma etapa decisiva do processo. Durante a audiência, o tribunal ouviu o relato de uma testemunha-chave, Daisy White, de 25 anos.

Ela descreveu uma cena perturbadora ocorrida na noite da morte, afirmando ter visto o homem pressionando Kimberley contra uma parede do lado de fora de um estabelecimento comercial no Kingsway Retail Park, em Dundee.

Testemunha descreve vítima como assustada

Durante o julgamento, o relato de testemunhas e registros anteriores reforçou a violência vivida por Kimberley ao longo do relacionamento. Uma das testemunhas, Daisy White, descreveu a jovem como visivelmente assustada na noite do crime, afirmando que a cena presenciada era a de um homem intimidando uma mulher em clara situação de vulnerabilidade.

O casal iniciou o relacionamento no fim de 2021 e oficializou a união em setembro do ano seguinte. Desde então, segundo apontado no processo, Kimberley passou a enfrentar episódios frequentes de agressões físicas e psicológicas.

Episódios de violência

Antes de sua morte, a vítima chegou a relatar às autoridades situações extremas, incluindo episódios em que teria sido agredida até perder a consciência. Em um dos depoimentos, contou que vivia com medo constante, a ponto de evitar sair de casa e dormir com um objeto de defesa sob o travesseiro.

Outros registros detalham crises de ciúmes que evoluíam para violência. “Ele viu mensagens de outros homens antes de ficarmos juntos. Ele ficou bravo e começou a gritar e xingar comigo. “Ele me chamou de e de s*****r. Logo depois disso, ele colocou as duas mãos no meu pescoço e me encostou na parede da cozinha. “Depois de um tempo, ele trocou as mãos, pressionou o antebraço direito contra meu pescoço. “Alguns segundos se passaram e ele soltou e começou a chorar, dizendo o quanto sentia muito”.

Na decisão final, a juíza destacou que o conjunto de abusos levou a vítima a um estado extremo de desespero na noite de sua morte. Ao se dirigir ao réu, ressaltou que ele não apenas cometeu atos violentos, mas também teve responsabilidade direta pelo desfecho fatal.

A magistrada também mencionou o impacto devastador causado à família, que descreveu Kimberley como uma pessoa querida e insubstituível, cuja perda deixou marcas profundas entre parentes e amigos.

Imagens da câmera de segurança (Foto: Reprodução)

Caso é considerado marco jurídico

Durante a sentença, a juíza destacou que nenhuma decisão judicial seria capaz de reparar a perda sofrida pela família da vítima, reconhecendo a profundidade do impacto causado pela tragédia. O caso ganhou ainda mais relevância por ser considerado um marco jurídico na Escócia, diante da responsabilização direta do réu pela morte em um contexto de abuso contínuo.

A magistrada determinou uma pena estendida de 11 anos, sendo oito em regime de prisão e outros três sob supervisão após a libertação.

Após o julgamento, vieram à tona outros antecedentes do condenado, incluindo um episódio ocorrido em 2024, no qual ele foi considerado culpado por importunar dois menores. O histórico criminal também inclui registros por agressão, resistência à abordagem policial e infrações de trânsito.

De acordo com o inspetor-chefe detetive Craig Kelly, a apuração revelou uma sequência prolongada de crimes domésticos contra Kimberley, evidenciando um padrão de comportamento marcado por violência, manipulação e crueldade.

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