O lançamento do Desenrola 2.0 pelo governo federal acende alerta sobre o endividamento de aposentados e pensionistas do INSS. Apesar de prometer descontos e renegociação facilitada, especialistas alertam que o programa mantém intacta a estrutura de juros do crédito consignado, modalidade que compromete grande parte da renda de idosos e segue sendo alvo de críticas por assédio financeiro e superendividamento.

Desenrola 2.0 (Foto: Reprodução)
Desenrola 2.0 (Foto: Reprodução)

O governo federal lançou oficialmente o Desenrola 2.0 com a promessa de aliviar o orçamento de milhões de brasileiros endividados. A nova versão do programa amplia as possibilidades de renegociação, permite o uso de parte do FGTS e inclui descontos que podem chegar a 90% do valor das dívidas. Apesar disso, economistas e entidades de defesa do consumidor demonstram preocupação com um ponto específico: a permanência das altas taxas do crédito consignado voltado para aposentados e pensionistas do INSS.

O alerta ocorre porque o consignado continua permitindo o comprometimento de até 40% da renda mensal dos beneficiários, o que pode manter milhares de idosos presos em um ciclo contínuo de dívidas. Como as parcelas são descontadas diretamente da aposentadoria, muitos acabam tendo dificuldades para arcar com despesas básicas, como alimentação, contas domésticas e medicamentos.

Governo aposta em renegociação e controle do endividamento

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva anunciou que o novo programa terá juros limitados a 1,99% ao mês para renegociação de dívidas como cartão de crédito, cheque especial e crédito pessoal. Além disso, os participantes poderão utilizar até 20% do saldo do FGTS para quitar débitos bancários.

Outro ponto que chamou atenção foi a medida que bloqueia, por um ano, o acesso dos beneficiários às plataformas de apostas online. Segundo Lula, o objetivo é evitar que as pessoas renegociem suas dívidas e voltem rapidamente ao endividamento por conta das bets.

O programa contempla pessoas com renda mensal de até cinco salários mínimos, além de prever regras específicas para estudantes com dívidas do Fies, microempresas e produtores rurais.

Especialistas criticam falta de mudanças estruturais

Apesar das facilidades anunciadas pelo governo, especialistas afirmam que o Desenrola 2.0 ataca apenas o problema imediato das dívidas vencidas, sem mexer na origem do superendividamento de aposentados: a oferta agressiva de crédito consignado.

Entidades como Procon, Idec e Ministério da Justiça já denunciaram diversas vezes práticas abusivas de telemarketing envolvendo aposentados do INSS. Segundo os órgãos, idosos são frequentemente assediados por financeiras que oferecem empréstimos de maneira insistente, utilizando até dados vazados para facilitar as contratações.

A crítica principal é que o programa não estabelece travas mais rígidas contra essas abordagens comerciais, permitindo que pessoas já endividadas continuem recebendo novas ofertas de crédito.

Comprometimento da renda preocupa

Para aposentados que recebem apenas um salário mínimo, o comprometimento de quase metade da renda com empréstimos pode gerar um efeito devastador no orçamento familiar. Analistas apontam que, sem uma reforma estrutural no modelo do consignado, o Desenrola pode acabar funcionando apenas como um alívio temporário.

Segundo dados do Banco Central, quase 30% da renda dos brasileiros atualmente está comprometida com o pagamento de dívidas, o maior índice desde o início da série histórica, em 2005.

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Mesmo com as renegociações, especialistas alertam que muitos idosos podem voltar rapidamente ao endividamento caso continuem expostos ao crédito fácil e às altas taxas praticadas no mercado financeiro.

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