Com 79,3 quilômetros de extensão, a linha 477P/10 Ipiranga–Rio Pequeno é a maior da rede municipal de ônibus de São Paulo. O trajeto atravessa 18 distritos, transporta cerca de 12 mil passageiros por dia e conecta bairros com realidades econômicas muito diferentes, passando por regiões como Faria Lima, Itaim Bibi, Brooklin e Butantã. A viagem dura cerca de três horas e se tornou um retrato das desigualdades e transformações urbanas da capital.

A bordo da maior linha de ônibus de São Paulo: 79 quilômetros, 18 distritos e um retrato das desigualdades da capital

Percorrer São Paulo de ponta a ponta pode levar horas. Para milhares de passageiros, essa travessia faz parte da rotina diária dentro de um único ônibus.

Com 79,3 quilômetros de extensão considerando ida e volta, a linha 477P/10 Ipiranga–Rio Pequeno é a mais longa da rede municipal da capital paulista e se transformou, ao longo dos anos, em um verdadeiro retrato das desigualdades, das transformações urbanas e da diversidade da cidade.

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Operada por 23 veículos, a linha realiza 137 viagens em dias úteis e transporta, em média, 12 mil passageiros diariamente. Cada trecho dura cerca de três horas e os ônibus circulam com intervalos de aproximadamente dez minutos nos horários de pico.

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Ao longo do percurso, o ônibus cruza 18 distritos e passa por mais de 200 pontos de parada somando os dois sentidos da viagem. São 114 pontos no sentido Rio Pequeno e 103 no sentido Ipiranga.

Mas os números impressionam menos do que as paisagens vistas pela janela.

A viagem começa no Ipiranga, um dos bairros mais tradicionais da capital, e segue por regiões como Sacomã, Saúde, Brooklin, Itaim Bibi, Vila Olímpia e Butantã até chegar ao Rio Pequeno, na zona oeste. Durante o trajeto, o cenário muda constantemente.

Em poucos quilômetros, o passageiro deixa para trás ruas residenciais arborizadas e casarões da zona sul para entrar em uma das áreas financeiras mais importantes do país. Na Avenida Faria Lima, os prédios espelhados, os escritórios de grandes empresas, os patinetes elétricos e o intenso movimento de executivos contrastam com os bairros periféricos encontrados no início e no fim da viagem.

Mapa mostra trajeto de um dos sentidos da linha; somadas, ida e volta completam 78,3 km, distância maior do que a das duas pontas extremas da cidade - Foto: Reprodução/SPTrans

Mapa mostra trajeto de um dos sentidos da linha; somadas, ida e volta completam 78,3 km, distância maior do que a das duas pontas extremas da cidade – Foto: Reprodução/SPTrans

Após a travessia do Rio Pinheiros, a paisagem muda novamente. Áreas ainda pouco impactadas pela verticalização dividem espaço com pequenos comércios de bairro, conjuntos residenciais e terrenos abertos às margens da Rodovia Raposo Tavares.

Uma viagem entre diferentes realidades

A linha também conecta regiões marcadas por diferenças econômicas significativas.

Segundo o Mapa da Desigualdade da Rede Nossa São Paulo, o Itaim Bibi, um dos bairros atravessados pelo percurso, possui a segunda maior remuneração média entre os distritos paulistanos, com salário médio de R$ 8,4 mil para trabalhadores com emprego formal.

Já o Rio Pequeno, ponto final da linha, aparece na 78ª posição entre os 96 distritos avaliados, com remuneração média de aproximadamente R$ 2,7 mil.

A diferença é perceptível não apenas nos indicadores econômicos, mas também na paisagem urbana. Ao longo do trajeto, o ônibus conecta centros financeiros, áreas de serviços especializados, bairros de classe média e regiões periféricas, reunindo em uma única viagem diferentes retratos da metrópole.

Ligação estratégica para a mobilidade

Além de transportar passageiros entre bairros distantes, a 477P desempenha um papel estratégico na integração do sistema de transporte da cidade.

A linha conecta moradores a importantes polos de emprego e serviços, como Faria Lima, Itaim Bibi, Moema e Saúde. Também permite acesso às linhas 1-Azul, 2-Verde e 4-Amarela do metrô, ampliando as opções de deslocamento para quem depende do transporte coletivo.

Para muitos passageiros, a linha evita a necessidade de múltiplas baldeações, tornando-se uma alternativa direta para cruzar a cidade.

Quase 30 anos ao volante

Poucas pessoas conhecem tão bem o trajeto quanto o motorista Gileuson Coelho, de 49 anos.

Conhecido pelos passageiros como Gil, ele dirige a linha desde 1997. Nascido no sertão da Paraíba e criado em São Paulo desde os dois anos de idade, trabalhou em diferentes atividades antes de ingressar na empresa Via Sudeste.

Gileuson Coelho, 49, dirige a linha mais longa de ônibus de São Paulo há 28 anos - Foto: Reprodução/Lorena Barros/UOL

Gileuson Coelho, 49, dirige a linha mais longa de ônibus de São Paulo há 28 anos – Foto: Reprodução/Lorena Barros/UOL

Hoje, inicia a jornada às 5h da manhã e realiza três percursos por dia, seis vezes por semana.

“Quando comecei nessa linha senti muita diferença pela distância. Era muito longe. Parecia que não ia chegar mais no ponto final, de tão longe que era”, relatou ao UOL.

Ao longo de quase três décadas, Gil acompanhou de perto as transformações urbanas da cidade. Segundo ele, nenhum trecho mudou tanto quanto a região da Faria Lima. O crescimento dos edifícios corporativos também alterou profundamente a paisagem do Itaim Bibi e do Brooklin, que continuam em constante expansão imobiliária.

“Eu vi boa parte desses prédios sendo construída”, conta.

Um retrato da cidade em movimento

Mais do que a linha mais extensa da rede municipal, a 477P/10 funciona como uma espécie de corredor social de São Paulo.

Em um mesmo ônibus embarcam estudantes, trabalhadores, aposentados, profissionais do mercado financeiro, comerciantes e moradores de diferentes regiões da capital. Durante três horas, compartilham o mesmo espaço enquanto atravessam uma cidade marcada por contrastes econômicos, culturais e urbanísticos.

Ao final da viagem, o ônibus chega ao Rio Pequeno, atrás de uma unidade de pronto atendimento. O ponto final, cercado por mercados e pequenos comércios, encerra um percurso que atravessa parte significativa da metrópole e revela, janela após janela, as múltiplas faces de São Paulo.

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