A Copa do Mundo de 2026 começa nesta quinta-feira (11) e milhões de torcedores estarão atentos a cada lance dentro de campo. Mas existe uma função fundamental para o andamento das partidas que quase nunca recebe atenção do público: a dos gandulas.
A Copa do Mundo de 2026 começa nesta quinta-feira (11) e milhões de torcedores estarão atentos a cada lance dentro de campo. Mas existe uma função fundamental para o andamento das partidas que quase nunca recebe atenção do público: a dos gandulas.

Daniel “Pezão” Motta atua há 12 anos como gandula em jogos do futebol carioca. Foto: Arquivo Pessoal.
Há 12 anos à beira dos gramados, Daniel “Pezão” Motta acumula histórias curiosas, convive com a pressão das arquibancadas e já passou por situações que poucos torcedores imaginam. Em uma delas, ele sequer viu um gol acontecer durante a partida.
“Teve um Fluminense e Corinthians em que eu nem vi o gol. Eu estava prestando atenção somente na bola”, relembra.
Muito além de pegar a bola
Segundo Pezão, o trabalho do gandula vai muito além do que o torcedor vê. A função exige atenção constante e responsabilidade para não atrasar o jogo ou interferir no andamento da partida.
Ele atua em jogos do Fluminense masculino e feminino, além das categorias de base de Botafogo e Bangu. Aos 40 anos, concilia a atividade com um emprego formal e participa de cerca de 20 a 25 partidas por mês.
“As pessoas acham que a gente está ali só vendo o jogo. Não é assim. A gente está trabalhando.”
A diferença entre base e profissional também é clara no dia a dia. Na base, o ambiente é mais leve, com presença de familiares. Já no profissional, a pressão aumenta com arquibancadas cheias e torcidas organizadas.
De Bernardo Gandulla aos gramados atuais
Embora muitos associam o trabalho apenas à reposição das bolas, a função possui uma longa história no futebol. A origem mais conhecida do termo “gandula” remete ao ex-jogador argentino Bernardo Gandulla, que atuou no Brasil na década de 1940 e costumava auxiliar na recuperação das bolas durante treinamentos e partidas.
Com o passar dos anos, a atividade se profissionalizou e passou a seguir protocolos específicos. Segundo Pezão, uma das mudanças mais importantes foi a adoção das bolas posicionadas em suportes ao redor do gramado.
Uma das principais orientações é evitar a chamada “cera”, quando a reposição da bola é retardada de forma proposital. Ele conta, inclusive, que já sofreu punições por esse motivo ao longo da carreira.
“Eu já fui penalizado e até expulso de partidas por estar fazendo essa tal da cera.”
Nos últimos anos, a adoção das bolas posicionadas em suportes ao redor do gramado mudou a dinâmica da função.
“Achei uma boa ideia. Agora a bola fica no cone e a gente não consegue mais fazer a tal da cera. Quando uma sai, a outra já está disponível.”
A medida foi implementada justamente para agilizar a reposição da bola e reduzir interferências externas no andamento das partidas.
Bastidores que o torcedor não vê
Além da reposição das bolas durante os jogos, o trabalho dos gandulas envolve tarefas que muitas vezes passam despercebidas pelo público. Pezão conta que já ajudou na organização e conferência de materiais utilizados nas partidas.
“Muitas vezes já trouxe uniforme para casa para lavar. Depois a gente faz a contagem de todo o material para não faltar nada no próximo jogo.”
O apelido “Pezão”, por sua vez, surgiu por causa de uma característica física. Filho de um homem alto, ele e o irmão herdaram o tamanho dos pés do pai.
“Eu calço 46. Dependendo da forma do tênis ou da chuteira, preciso de um número maior.”
Quando um quero-quero roubou a cena
Nem todas as histórias vividas à beira do gramado envolvem o jogo no meio do campo. Durante uma partida do Fluminense em Moça Bonita, estádio do Bangu, Pezão precisou dividir a cena com um visitante inesperado: um quero-quero, ao tentar recuperar a bola, ele precisou improvisar.
“Quando fui pegar a bola, ele pensou em me atacar. Eu ginguei para ele e a câmera pegou tudo.”
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A cena foi exibida durante a transmissão da partida e chamou a atenção dos torcedores. Apesar do tom divertido do episódio, ele faz questão de destacar a mensagem por trás da história.
“Eu jamais iria agredir o animal. Quem me conhece sabe que eu gosto muito de animais. O importante é preservar a vida.’’
Entre craques e amizades
Ao longo de mais de uma década nos gramados, Pezão já encontrou diversos nomes conhecidos do futebol brasileiro, como Léo Moura, Vagner Love e Túlio Maravilha. Entre todos eles, o ex-artilheiro foi quem mais o marcou.
“O Túlio foi muito educado. Perguntou se a foto tinha ficado boa, se eu queria tirar outra. Aquilo ficou marcado para mim.”
Mas as lembranças mais importantes não envolvem apenas jogadores famosos. Segundo ele, as amizades construídas ao longo da trajetória são uma das maiores recompensas da profissão.
“A gente acaba criando afinidade, amizade. Isso tudo fica marcado na memória.”
Ele também destaca o carinho recebido de atletas do Fluminense feminino, além da convivência com profissionais de diferentes clubes e membros da arbitragem.

Pezão durante atuação em partida do futebol carioca. Foto: Arquivo Pessoal.
Respeito como maior lição
A primeira experiência de Pezão como gandula aconteceu em uma partida entre Flamengo e Emelec, no estádio Nilton Santos.
“Eu estava atrás do gol quando o Vagner Love marcou. Naquele momento eu não acreditava que estava ali.”
Com o passar dos anos, a empolgação inicial deu lugar ao profissionalismo. A paixão pelo futebol, porém, permaneceu.
“O futebol representa paixão. Depois que comecei a trabalhar como gandula, essa paixão aumentou ainda mais.”
Ao refletir sobre a principal lição aprendida em mais de uma década à beira dos gramados, a resposta vem de forma simples.
“A maior lição que o futebol me ensinou foi respeitar o próximo. É muito gratificante quando as pessoas lembram de você, te cumprimentam e reconhecem o seu trabalho.”
Para quem costuma passar despercebido durante os 90 minutos, o reconhecimento talvez seja uma das maiores vitórias.
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