A identificação do cantor Oliver Tree entre as vítimas do acidente com helicópteros no Rio de Janeiro destacou a importância da odontologia legal. Segundo o especialista Levy Anderson César Alves, radiografias, implantes, restaurações e outras características dentárias permitem identificar vítimas mesmo em casos de carbonização.
A confirmação da identidade do cantor norte-americano Oliver Tree entre as vítimas do acidente envolvendo dois helicópteros no Recreio dos Bandeirantes, no Rio de Janeiro, chamou atenção para um trabalho que geralmente acontece longe dos holofotes: a atuação da odontologia legal.

Arte Bacci Notícias – Fotos: Reprodução/Redes Sociais
Segundo informações divulgadas pelas autoridades responsáveis pela investigação, a identificação do artista foi possível após a comparação de radiografias odontológicas enviadas dos Estados Unidos com fragmentos da arcada dentária encontrados pelos peritos no Instituto Médico Legal (IML). A medida foi necessária porque o corpo teria sido totalmente carbonizado em decorrência da colisão e da explosão que ocorreu após a queda de uma das aeronaves.
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O caso evidencia a importância da documentação odontológica e da atuação de especialistas em odontologia forense, área que frequentemente se torna decisiva em acidentes aéreos, incêndios, desastres naturais e outras tragédias que dificultam o reconhecimento visual das vítimas.
Por que os dentes ajudam a identificar uma pessoa?
O cirurgião-dentista Levy Anderson César Alves, doutor e pós-doutor em Ciências Odontológicas, explica que a identificação odontológica é baseada na comparação entre registros produzidos durante a vida do paciente e os vestígios encontrados após a morte.
Segundo ele, a boca de cada pessoa reúne características tão particulares quanto uma impressão digital.
“A identificação odontológica é realizada por meio da comparação entre os registros odontológicos obtidos em vida e aqueles coletados após a morte. Os registros geralmente são restaurações, tratamentos endodônticos, próteses, implantes e diversas outras características presentes na cavidade oral”, explica.
Na prática, os peritos analisam informações registradas ao longo dos atendimentos odontológicos e verificam se elas coincidem com os achados encontrados na vítima.
Quanto maior o número de coincidências observadas, maior a certeza da identificação.
Resistência ao fogo torna os dentes fundamentais
Em acidentes de grande impacto, como colisões aéreas ou incêndios, muitos tecidos do corpo podem ser destruídos pelo calor. Os dentes, porém, apresentam uma resistência muito superior.
De acordo com Levy, isso acontece porque são estruturas altamente mineralizadas.
“Os dentes são estruturas extremamente mineralizadas e compostas principalmente por esmalte, o qual apresenta elevada dureza e resistência térmica”, afirma.
Além da resistência, a própria anatomia dentária ajuda os especialistas: “A disposição dos dentes nas arcadas e o formato dentário também apresentam aspectos muito individuais, como dentes com aspecto conóide, raízes dilaceradas e outras particularidades”, acrescenta.
Essa combinação entre resistência física e características únicas faz com que a odontologia legal seja frequentemente utilizada em situações nas quais outros métodos de reconhecimento se tornam inviáveis.

O que os peritos procuram durante a análise?
A identificação odontológica depende diretamente da existência de documentação produzida antes da morte. Por isso, radiografias e prontuários se transformam em peças-chave durante as investigações.
Segundo Levy, diversos documentos podem auxiliar os especialistas.
“Todas as documentações odontológicas são valiosas. As mais utilizadas são radiografias panorâmicas e periapicais, tomografias computadorizadas, imagens fotográficas intra e extrabucais, modelos de estudo de gesso ou digitais, o próprio odontograma e a evolução do paciente registrada no prontuário.”
Foi justamente um conjunto de radiografias odontológicas enviado dos Estados Unidos que permitiu aos peritos brasileiros realizar a comparação necessária para identificar Oliver Tree.
Em muitos casos, a simples existência de uma radiografia antiga já pode fornecer informações suficientes para confirmar uma identidade.
O que sobrevive após um incêndio intenso?
Uma das dúvidas mais comuns da população é como os peritos conseguem realizar exames em corpos submetidos a temperaturas extremas.
Segundo o especialista, algumas estruturas permanecem preservadas mesmo após incêndios severos.
Entre elas estão:
- Raízes dentárias;
- Osso alveolar;
- Implantes dentários;
- Materiais restauradores metálicos;
- Esmalte dentário.
Esses elementos podem conter informações importantes para a comparação com os registros odontológicos existentes.
Em alguns casos, implantes e próteses apresentam numeração ou características específicas que ajudam ainda mais no processo de identificação.
Odontologia legal ou exame de DNA?
Quando um caso ganha repercussão nacional ou internacional, o exame de DNA costuma ser o primeiro método lembrado pela população. No entanto, a odontologia legal muitas vezes consegue fornecer respostas mais rapidamente.
Segundo Levy Anderson César Alves, cada técnica possui suas vantagens.
“A odontologia legal apresenta menor custo, o processo de análise costuma ser mais rápido e, quando há acesso à documentação odontológica, oferece alta precisão”, explica.
Já o exame genético demanda uma estrutura mais complexa.
“No exame de DNA, o custo é maior, o tempo para obtenção do resultado também costuma ser mais longo e é necessário um laboratório especializado com mão de obra específica.”
Por esse motivo, em muitos acidentes, a análise odontológica é realizada antes mesmo da conclusão dos exames genéticos.
Métodos complementares aumentam a segurança
Apesar das vantagens da odontologia legal, especialistas destacam que a utilização conjunta de diferentes técnicas oferece maior segurança para a investigação.
Em situações de grande complexidade, a perícia costuma reunir informações odontológicas, genéticas, antropológicas e médicas para reduzir ao máximo qualquer possibilidade de erro.
“Para grandes catástrofes, a associação da odontologia legal com técnicas analíticas laboratoriais é fortemente recomendada”, ressalta Levy.
No caso envolvendo Oliver Tree, a Polícia Civil informou que já havia coletado material biológico para eventual confronto genético caso a identificação odontológica não fosse conclusiva. No entanto, a comparação das radiografias enviadas dos Estados Unidos com os fragmentos dentários encontrados no IML foi suficiente para confirmar oficialmente a identidade do cantor.
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