Asgabate, capital do Turcomenistão, exige que todos os veículos que circulam pela cidade sejam brancos ou, no máximo, prata. A regra nasceu da preferência pessoal do ex-presidente Gurbanguly Berdymukhammedov, que associava a cor à boa sorte, e foi transformada em lei a partir de 2015. Carros de outras tonalidades eram rebocados durante a madrugada, e os donos só os recuperavam após assinar um compromisso formal de repintura.

Carro branco em Turcomenistão (Foto: Divulgação)
Carro branco em Turcomenistão (Foto: Divulgação)

Em grande parte do mundo, escolher a cor de um automóvel é uma decisão trivial, deixada ao gosto do comprador. No Turcomenistão, porém, essa liberdade simplesmente não existe, ao menos para quem vive na capital, Asgabate.

Desde 2015, carros coloridos são proibidos em Turcomenistão (Foto: reprodução)

Desde 2015, carros coloridos são proibidos em Turcomenistão (Foto: reprodução)

A cidade carrega o apelido de “metrópole do mármore branco”, uma referência à arquitetura monumental e uniforme que domina suas avenidas. E não é coincidência que os carros que circulam por essas ruas sigam a mesma paleta: desde 2015, uma legislação proíbe veículos de outras cores de trafegarem na capital, e a importação de automóveis pretos foi completamente vetada no país.

A origem dessa norma inusitada remete ao gosto pessoal do ex-presidente Gurbanguly Berdymukhammedov. Para o ex-líder, o branco era mais do que uma preferência estética, ele acreditava que a tonalidade trazia boa sorte. Numa nação onde o poder presidencial pouco encontra obstáculos, essa convicção foi suficiente para se tornar lei.

Em 2018, as restrições foram ainda mais longe, moradores de Asgabate passaram a ser impedidos de manter veículos em qualquer outra coloração. Quem descumpre a regra fica sujeito a multas e pode ter o carro apreendido.

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Preços nas alturas

A legislação imposta pelo regime ditatorial do Turcomenistão não era absolutamente inflexível. além do branco, o governo permitia que os veículos circulassem na capital Asgabate com lataria na cor prata. Uma brecha pequena, mas que foi suficiente para desencadear um efeito imediato na economia local.

Com a população correndo para adequar seus automóveis às exigências do Estado, as oficinas de pintura da cidade viram a demanda explodir da noite para o dia. O mercado reagiu como era de se esperar, os preços dispararam.

O serviço que, até então, saía por cerca de 7 mil manats turcomanos, equivalentes a aproximadamente R$ 10 mil, passou a ser cobrado por 11 mil manats, algo em torno de R$ 16,9 mil. O reajuste de mais de 50% aconteceu em menos de uma semana.

Reboques noturnos

Moradores relataram que, durante a madrugada, automóveis com cores não autorizadas simplesmente desapareciam das ruas e garagens. As autoridades realizavam reboques noturnos, recolhendo os veículos sem aviso prévio.

Para recuperar o carro apreendido, os proprietários eram obrigados a assinar um termo de compromisso, no qual assumiam formalmente a responsabilidade de repintar o automóvel dentro de um prazo determinado. Sem a assinatura, o veículo permanecia retido.

O episódio expõe, com clareza, como decisões arbitrárias de um governo autoritário podem atravessar o cotidiano das pessoas e atingir diretamente o bolso da população, de forma rápida, silenciosa e sem qualquer possibilidade de contestação.

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Multas por sujeira e vidros proibidos

As exigências do regime não param na cor da lataria. Veículos considerados insuficientemente limpos também são autuados pelas autoridades, sob o argumento de que comprometem a harmonia visual da capital. E quem pensa em recorrer a películas para amenizar o calor dentro do carro encontra outro obstáculo, elas estão banidas desde 2014.

A proibição das películas escuras nos vidros expõe os motoristas a condições extremas. No verão, as temperaturas no Turcomenistão ultrapassam os 50°C, um desconforto severo para quem precisa se deslocar sem qualquer barreira contra a radiação solar.

Ex-presidente do Turcomenistão acena em frente aos carros brancos de autoridades do seu governo Foto: Reprodução/Twitter

Ex-presidente do Turcomenistão em frente aos carros brancos do seu governo em 2018 (Foto: Reprodução/Redes Socias)

Questionado sobre a medida, o governo apresentou uma justificativa técnica: o calor intenso do clima subtropical desértico do país degradaria a pintura dos veículos de tonalidades mais escuras.

Todas essas restrições seguem em vigor até hoje, mesmo após a transição de governo.

Onde fica Turcomenistão?

Localizado na Ásia Central e banhado pelas águas do mar Cáspio, o Turcomenistão é um território marcado por paisagens extremas. O relevo é dominado por uma vasta planície desértica, com cadeias montanhosas concentradas nas porções sul e leste do país.

O clima continental reforça essa aridez, tornando a água um recurso precioso e são os oásis que cumprem esse papel essencial, abastecendo comunidades e viabilizando a agricultura, com destaque para o cultivo de algodão.

O país conta com pouco mais de 6,1 milhões de habitantes, dos quais cerca de 53% residem em áreas urbanas. A capital, Asgabate, concentra a maior densidade populacional, com aproximadamente 828 mil moradores e é também o centro político e simbólico de um regime que, como se vê, estende seu controle até os detalhes mais cotidianos da vida de seus cidadãos

O Turcomenistão permanece como um dos Estados mais herméticos do planeta, com acesso limitado à imprensa independente e controle rígido sobre a narrativa oficial.

Na prática, porém, a população convive com inflação persistente e desabastecimento de alimentos básicos. As avenidas de mármore e os carros brancos reluzentes de Asgabate contrastam, em silêncio, com a realidade de quem vive além das câmeras oficiais.

Atual presidente do país

Serdar Berdimuhamedow ocupa a presidência do Turcomenistão desde março de 2022, quando chegou ao poder após a saída de seu pai, Gurbanguly Berdimuhamedow, que esteve à frente do país durante 15 anos. A transição marcou a continuidade da influência da família Berdimuhamedow na política da nação localizada na Ásia Central.

Atual presidente de Turcomenistão, Serdar Gurbangulyýewiç e o ex-presidente Gurbanguly Berdymukhamedov (Foto: reprodução)

Mesmo após deixar o cargo presidencial, Gurbanguly permaneceu como uma figura de grande relevância no cenário político nacional, mantendo participação em estruturas de poder e influência sobre decisões do governo. Com isso, o atual presidente passou a liderar o país em meio à permanência de uma forte presença da antiga administração.

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