A Polícia Civil e o Ministério Público de São Paulo afirmam que o vereador Senival Moura (PT) foi condenado à morte pelo PCC durante um “tribunal do crime”, mas acabou perdoado por sua influência política e pela possibilidade de ressarcir prejuízos financeiros. Preso na Operação Última Parada, ele é investigado por suposta lavagem de dinheiro da facção por meio da empresa de ônibus Transunião. A defesa nega qualquer irregularidade.

O líder do PT na Câmara Municipal de São Paulo, vereador Senival Moura. — Foto: Afonso Braga/CMSP
O líder do PT na Câmara Municipal de São Paulo, vereador Senival Moura. — Foto: Afonso Braga/CMSP

O vereador de São Paulo Senival Pereira de Moura (PT), preso nesta quinta-feira (25) durante a Operação Última Parada, teria sido condenado à morte pelo Primeiro Comando da Capital (PCC), mas acabou perdoado pela facção em razão de sua influência política e da possibilidade de ressarcir parte dos prejuízos financeiros atribuídos a ele pelos criminosos.

Justiça também determinou o bloqueio de R$ 194,4 milhões em contas ligadas aos investigados - Divulgação/Rede Câmara

Justiça também determinou o bloqueio de R$ 194,4 milhões em contas ligadas aos investigados – Divulgação/Rede Câmara

A conclusão consta nos documentos apresentados pela Polícia Civil e pelo Ministério Público de São Paulo (MP-SP) à Justiça. A operação investiga um suposto esquema de lavagem de dinheiro do PCC por meio da empresa de ônibus Transunião Transportes S.A.

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Segundo os investigadores, Senival exercia o chamado “controle fático” da empresa, embora não figurasse formalmente no quadro societário, utilizando pessoas de confiança e familiares para administrar o patrimônio e as operações financeiras.

Como surgiu a crise com o PCC

De acordo com a investigação, a crise começou após integrantes da facção passarem a desconfiar da administração financeira de Adauto Soares Jorge, então diretor-presidente da Transunião e apontado como representante de Senival na empresa.

Em março de 2020, Adauto foi executado a tiros no estacionamento de uma padaria no bairro do Lajeado, na Zona Leste de São Paulo.

O Ministério Público sustenta que integrantes do PCC descobriram que Adauto estaria desviando recursos da empresa para abastecer um caixa dois destinado à campanha de reeleição de Senival Moura em 2020, deixando de realizar repasses considerados de interesse da organização criminosa.

Segundo os autos, a situação provocou uma ruptura de confiança dentro da facção.

Tribunal do crime

Ainda conforme o MP-SP, o operador da facção Leonel Moreira Martins, conhecido como “Cabeça Branca”, teria sido encarregado de conduzir um “debate”, nome dado pelo PCC aos chamados tribunais do crime.

Ao final desse julgamento clandestino, Adauto Soares Jorge e Senival Moura teriam sido condenados à morte.

Entretanto, segundo os investigadores, o vereador acabou sendo perdoado.

A decisão teria levado em consideração sua influência política e a possibilidade de devolver parte dos recursos que, segundo a investigação, haviam sido desviados.

Como contrapartida, Senival teria concordado com a execução de Adauto, apontado pelas autoridades como seu principal representante dentro da Transunião.

Operação Última Parada

A Operação Última Parada foi deflagrada nesta quinta-feira pelo Departamento Estadual de Investigações Criminais (Deic) e pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco).

Ao todo, foram cumpridos cinco mandados de prisão temporária e 104 mandados de busca e apreensão.

Além de Senival Moura, também foram presos:

  • Lourival Monário, conhecido como “Orelha”, atual presidente da Transunião;
  • Jair Ramos de Freitas, o “Cachorrão”, apontado como diretor informal da empresa e acusado de executar Adauto;
  • Leonel Moreira Martins, o “Cabeça Branca”, identificado como interlocutor do PCC dentro da companhia;
  • Devanil de Souza Nascimento, o “Sapo”, motorista e homem de confiança do vereador.

A Justiça também determinou o bloqueio de R$ 194,4 milhões, o sequestro de 117 veículos, 21 imóveis e três embarcações.

Empresa teria sido usada para lavar dinheiro

Segundo o Ministério Público, a Transunião, que opera 51 linhas de ônibus na capital paulista e transporta aproximadamente 389 mil passageiros por dia, teria sido utilizada como estrutura para lavagem de dinheiro da facção criminosa.

A investigação aponta que a empresa movimentava recursos públicos e mantinha um núcleo paralelo responsável por autorizar transferências milionárias destinadas a integrantes do PCC.

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Os investigadores também identificaram um aumento considerado incompatível do capital social da empresa, que passou de pouco mais de R$ 100 mil para mais de R$ 50 milhões sem comprovação da origem dos recursos.

Mensagens colocam vereador no centro do esquema

Segundo a investigação, mensagens obtidas em aparelhos celulares mostram que movimentações financeiras e pagamentos de grandes quantias dependiam da autorização de Senival Moura.

Nas conversas analisadas, o vereador era identificado pelos apelidos “presidente”, “véio”, “velhinho” e simplesmente “vereador”.

Planilhas internas apreendidas ainda indicam que ele aparecia como beneficiário econômico de pelo menos 13 ônibus da frota da empresa, embora os veículos estivessem registrados em nome de terceiros.

Relatórios de inteligência financeira apontam que Senival movimentou cerca de R$ 4,39 milhões entre 2019 e 2022. Segundo os investigadores, existe uma diferença superior a R$ 2,4 milhões entre os valores movimentados e os rendimentos oficialmente declarados pelo parlamentar.

Os autos também mencionam imóveis de alto padrão ligados ao vereador, entre eles um apartamento na Vila Madalena, na capital paulista, e uma propriedade rural em Extrema, no sul de Minas Gerais.

Defesa nega irregularidades

Em nota, a defesa de Senival Moura afirmou que recebeu com “profunda indignação” a decretação da prisão temporária.

Segundo os advogados, a medida causa surpresa por ocorrer às vésperas do período eleitoral e o vereador confia que, ao longo da investigação, será demonstrada a inexistência de qualquer conduta ilícita.

A defesa informou ainda que busca acesso integral aos autos para apresentar os esclarecimentos necessários e afirmou que Senival sempre pautou sua atuação pública pelo compromisso com a população, pela transparência e pelo respeito às instituições democráticas.

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