Psicóloga Stephany Silva Rocha explica ao Bacci Notícias que a gravidez psicológica é uma condição rara, mas real, que pode provocar sintomas físicos de uma gestação sem que exista um bebê. Especialista ressalta que o diagnóstico exige avaliação médica e psicológica e que cada caso deve ser analisado individualmente.

Gravidez psicológica: entenda a condição que faz o corpo apresentar sintomas reais de uma gestação

O caso da enfermeira suspeita de tentar raptar um bebê em uma maternidade do Piauí nos últimos dias voltou a colocar a gravidez psicológica no centro das discussões. Embora as investigações ainda estejam em andamento e as circunstâncias do caso sejam apuradas pelas autoridades, episódios como esse despertam dúvidas sobre uma condição pouco conhecida, mas reconhecida pela medicina e pela psicologia.

É importante destacar que nem toda pessoa envolvida em crimes dessa natureza apresenta gravidez psicológica. A condição não pode ser presumida ou utilizada para explicar um comportamento específico sem diagnóstico clínico. Ainda assim, o tema passou a ser amplamente debatido diante da repercussão do caso.

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Em entrevista ao Bacci Notícias, a psicóloga Stephany Silva Rocha explicou como a gravidez psicológica se manifesta, quais são suas causas, como é realizado o diagnóstico e de que forma deve ser conduzido o tratamento.

O que é a gravidez psicológica?

Conhecida cientificamente como pseudociese, a gravidez psicológica é uma condição em que a mulher acredita estar grávida e pode desenvolver diversos sinais físicos característicos de uma gestação, mesmo sem existir um feto em desenvolvimento.

Segundo Stephany Silva Rocha, a condição está longe de ser um fingimento.

“A gravidez psicológica é uma condição em que a mulher acredita estar grávida e pode apresentar sinais físicos muito semelhantes aos de uma gestação, mesmo sem existir um feto em desenvolvimento. Não se trata de fingimento ou de uma escolha consciente, mas de uma manifestação em que o sofrimento psíquico encontra uma forma de expressão no corpo”, explica.

A psicóloga afirma que a gravidez mobiliza aspectos muito profundos da identidade e da história de vida da mulher, podendo despertar conflitos emocionais que permaneciam inconscientes.

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Quais fatores emocionais podem desencadear a condição?

De acordo com a especialista, não existe uma única causa para a gravidez psicológica. Trata-se de um fenômeno complexo, resultado da interação entre fatores emocionais, psicológicos e até físicos.

Entre os principais fatores associados estão o desejo intenso de engravidar, dificuldades relacionadas à infertilidade, experiências de perda gestacional, luto, conflitos familiares, medo da gravidez, relacionamentos afetivos conturbados e expectativas em torno da maternidade.

Stephany explica que muitas mulheres constroem projeções e fantasias sobre a experiência de ser mãe, e quando essas questões emocionais não conseguem ser elaboradas de forma saudável, podem acabar encontrando uma manifestação no próprio organismo.

“A gestação mobiliza aspectos muito profundos da identidade e da história de vida, reativando lembranças, conflitos e necessidades emocionais que, muitas vezes, permaneciam inconscientes. Quando esses conteúdos não conseguem ser elaborados simbolicamente, podem encontrar no corpo uma forma de expressão”, afirma.

Os sintomas podem ser praticamente iguais aos de uma gravidez real

Uma das características que mais chama a atenção é que os sintomas costumam ser verdadeiros. A mulher pode apresentar atraso menstrual, aumento do abdômen, sensibilidade nas mamas, enjoos, alterações hormonais e até relatar sensação de movimentos fetais.

Por isso, Stephany alerta que esses sinais nunca devem ser tratados como exagero ou simulação.

“A gravidez psicológica pode apresentar sintomas muito semelhantes aos de uma gestação real, como ausência da menstruação, aumento abdominal, sensibilidade nas mamas, náuseas e até a sensação de movimentos fetais. Esses sintomas são reais e vivenciados pela mulher”, destaca.

Stephany Silva Rocha - Foto: Arquivo Pessoal

Stephany Silva Rocha – Foto: Arquivo Pessoal

Como é feito o diagnóstico?

A confirmação de que não existe uma gestação depende da avaliação médica.

Segundo a psicóloga, exames como a dosagem do hormônio beta-hCG, exame físico e ultrassonografia são fundamentais para confirmar a ausência do bebê.

“O diagnóstico é feito principalmente pela avaliação médica, por meio do exame físico, da dosagem do hormônio beta-hCG e da ultrassonografia, que confirmam a ausência de uma gestação em desenvolvimento”, explica.

Entretanto, ela ressalta que o atendimento não deve terminar com o resultado dos exames.

Além da investigação clínica, a avaliação psicológica é considerada indispensável para compreender o contexto emocional da paciente, sua história de vida e os conflitos que podem estar relacionados ao surgimento da condição.

Tratamento vai muito além da confirmação de que não existe uma gestação

Receber o diagnóstico pode representar um momento de intenso sofrimento emocional. Em muitos casos, a mulher acreditava genuinamente estar esperando um filho.

Por isso, o tratamento deve envolver uma equipe multiprofissional, unindo médicos e psicólogos para oferecer acolhimento e suporte.

“O acompanhamento psicológico tem um papel fundamental porque ajuda a identificar os significados que essa gestação representava para aquela paciente. Muitas vezes, ela simboliza desejos, perdas, conflitos familiares, expectativas em relação à maternidade ou necessidades emocionais que estavam sem espaço para serem elaboradas”, afirma Stephany.

Segundo ela, após o diagnóstico, sentimentos como tristeza, culpa, vergonha, frustração, ansiedade e até sintomas depressivos podem surgir com intensidade.

Em algumas situações, a paciente vivencia um processo semelhante ao luto, já que, para ela, aquela gravidez era absolutamente real.

Cada caso precisa ser analisado individualmente

A psicóloga reforça que não é possível estabelecer relações automáticas entre a gravidez psicológica e casos criminais de grande repercussão, como tentativas de sequestro de recém-nascidos.

Segundo a especialista, cada situação possui características próprias e exige investigação médica, psicológica e judicial.

“O objetivo da psicoterapia não é simplesmente convencer a mulher de que ela não está grávida. O tratamento busca compreender o significado dessa vivência em sua história, oferecendo acolhimento, elaboração psíquica e fortalecimento dos recursos emocionais”, explica.

Stephany conclui lembrando que cada mulher vivencia a gravidez psicológica de forma singular e que o cuidado deve ocorrer sem julgamentos.

“O tratamento busca compreender o significado dessa experiência na história de vida da paciente, promovendo acolhimento, elaboração psíquica e cuidado integral”, finaliza.

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