Quase dois anos após a queda do voo 2283 da Voepass, o Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa) divulgou, nesta quinta-feira (23), o relatório final sobre o acidente que matou 62 pessoas em Vinhedo, no interior de São Paulo.

Foto: Reprodução.
Foto: Reprodução.

Quase dois anos após a queda do voo 2283 da Voepass, o Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa) divulgou, nesta quinta-feira (23), o relatório final sobre o acidente que matou 62 pessoas em Vinhedo, no interior de São Paulo.

Relatório do Cenipa concluiu que o avião da Voepass operava em desacordo com normas de segurança. Foto: Reprodução.

A investigação concluiu que a tragédia foi resultado de uma sequência de falhas envolvendo a companhia aérea, a tripulação e a fiscalização da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac). Entre os principais apontamentos, o órgão afirma que a aeronave não deveria ter decolado nas condições em que operava.

Aeronave apresentava falhas antes da decolagem

Segundo o relatório, o ATR 72-500 possuía dez itens com falhas registrados antes do voo.Entre eles estava um defeito no sistema do limpador de para-brisa, equipamento considerado indispensável para operações com previsão de chuva. 

Pelas normas operacionais, a aeronave não poderia ser liberada para decolar nessas condições.  Mesmo assim, o voo foi autorizado. Pouco depois da decolagem, o avião permaneceu entre oito e dez minutos em uma área de formação severa de gelo.

Pilotos demoraram para acionar sistema de degelo

A investigação aponta que diversos alertas de formação de gelo foram emitidos durante o voo.

As caixas-pretas mostram que comandante e copiloto demoraram para executar os procedimentos previstos e chegaram a deixar de acionar corretamente o sistema responsável por remover o gelo acumulado nas asas.

O relatório também revela que, durante parte do trajeto, os pilotos conversavam sobre assuntos pessoais, o que teria contribuído para o atraso na adoção dos protocolos de segurança.

Falhas já haviam sido registradas antes do acidente

O Cenipa identificou que o mesmo avião apresentou problemas no sistema de degelo em voos realizados na véspera da tragédia.

No entanto, essas falhas não foram registradas oficialmente pelas tripulações, impedindo que a manutenção fosse acionada antes da operação seguinte.

Segundo os investigadores, havia uma prática recorrente de comunicação informal de defeitos, comprometendo os controles internos da empresa.

Cenipa aponta “cultura de normalização de desvios”

Um dos pontos mais graves do relatório é a conclusão de que existia uma “cultura de normalização de desvios” dentro da Voepass. Na prática, equipes deixavam de registrar problemas técnicos para evitar que aeronaves fossem retiradas de operação.

A investigação também identificou reutilização de componentes de aeronaves com defeitos em outros aviões e atuação de auxiliares de manutenção sem a supervisão adequada de mecânicos habilitados.

Segundo o Cenipa, esse ambiente reduziu as barreiras de segurança que poderiam ter evitado o acidente.

Anac também é alvo de críticas

O relatório atribui responsabilidade à Agência Nacional de Aviação Civil (Anac). Segundo o Cenipa, auditorias realizadas antes do acidente já haviam identificado problemas relacionados à manutenção, rastreabilidade de peças e controle operacional da companhia.

Leia também:

Mesmo assim, as irregularidades não resultaram em medidas capazes de interromper ou restringir as operações da Voepass. Em nota, a Anac informou que analisará todas as recomendações feitas pelo Cenipa dentro do prazo de até 120 dias.

Polícia Federal ainda apura possível responsabilidade criminal

Enquanto o Cenipa concluiu a investigação técnica, a Polícia Federal continua conduzindo um inquérito para apurar eventuais responsabilidades criminais pelo acidente.

A expectativa é que o procedimento seja concluído nas próximas semanas e encaminhado ao Ministério Público Federal, que decidirá se haverá indiciamentos.

Já a Voepass informou, por meio de nota, que colaborou com todas as etapas da investigação, afirmou que sua frota operava dentro dos padrões internacionais de aeronavegabilidade e disse que só comentará detalhadamente o relatório após concluir sua análise.

Leia mais no Bacci Notícias:

Vídeos curtos

Mais lidas