Quem nunca comentou sobre um destino de viagem, um restaurante ou um produto e, pouco tempo depois, recebeu um anúncio exatamente sobre aquele assunto? A coincidência é tão frequente que muita gente acredita que o celular escuta tudo o que é dito para exibir publicidade personalizada.

Foto: Reprodução.
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Quem nunca comentou sobre um destino de viagem, um restaurante ou um produto e, pouco tempo depois, recebeu um anúncio exatamente sobre aquele assunto? A coincidência é tão frequente que muita gente acredita que o celular escuta tudo o que é dito para exibir publicidade personalizada.

A sensação de que o celular “escuta” as conversas é comum entre os usuários, mas especialistas afirmam que a explicação vai além do uso do microfone. Foto: Reprodução.

Mas afinal, isso realmente acontece? A resposta é mais complexa do que um simples “sim” ou “não”. Embora não existam evidências de que smartphones mantenham o microfone ligado 24 horas por dia para ouvir conversas e transformá-las em anúncios, especialistas explicam que a enorme quantidade de dados coletados pelos dispositivos e aplicativos é suficiente para prever, com grande precisão, os interesses de cada usuário.

Não há provas de que o celular grave todas as conversas

A ideia de que o smartphone escuta tudo o que as pessoas dizem ganhou força justamente por causa da frequência com que anúncios parecem surgir logo após uma conversa. 

No entanto, especialistas em segurança digital afirmam que não há evidências de que empresas como Google e Apple utilizem o microfone dos aparelhos para gravar conversas continuamente com finalidade publicitária.

Além disso, um sistema de gravação permanente consumiria muita bateria, aumentaria o uso de dados móveis e dificilmente passaria despercebido por pesquisadores e especialistas em segurança da informação.

Na avaliação de Jake Moore, consultor global de cibersegurança da ESET, o verdadeiro motivo dessa impressão está na capacidade dos algoritmos de interpretar o comportamento dos usuários.

“A verdade é que eles nem precisam ouvir nossas conversas para conhecer nossos hábitos, hobbies e escolhas de vida. Os algoritmos conseguem determinar muita coisa sobre nós antes mesmo de dizermos uma palavra.”

Segundo o especialista, a quantidade de informações coletadas atualmente é tão grande que permite às plataformas antecipar desejos e interesses antes mesmo de uma pesquisa ser realizada.

Como os anúncios parecem ‘adivinhar’ o que você quer?

Em vez de depender exclusivamente do microfone, empresas de tecnologia utilizam um enorme conjunto de informações autorizadas pelos próprios usuários.

Entre os dados analisados estão o histórico de pesquisas, localização, sites acessados, vídeos assistidos, aplicativos utilizados, compras realizadas, curtidas em redes sociais, tempo de permanência em determinados locais, contatos frequentes e até comportamentos semelhantes de pessoas com perfis parecidos.

Esse cruzamento de informações cria perfis extremamente detalhados, permitindo que sistemas de inteligência artificial indiquem produtos e serviços com alta taxa de acerto. É justamente essa precisão que faz muitas pessoas acreditarem que o celular está ouvindo todas as conversas.

Quando o microfone realmente pode ser utilizado?

Isso não significa que o microfone nunca seja utilizado pelos aplicativos. Assistentes virtuais, como Siri e Google Assistente, aplicativos de chamadas, gravação de vídeos, reconhecimento de músicas e mensagens de áudio dependem dessa permissão para funcionar corretamente.

Por isso, especialistas recomendam que os usuários revisem periodicamente quais aplicativos possuem autorização para acessar o microfone e retirem a permissão daqueles que não precisam desse recurso.

Tanto celulares Android quanto iPhones também permitem verificar quais aplicativos utilizaram recentemente o microfone, oferecendo maior controle sobre a privacidade.

Como proteger seus dados

Embora especialistas descartem a hipótese de uma escuta permanente para exibição de anúncios, algumas medidas podem aumentar a proteção da privacidade:

  • revisar as permissões concedidas aos aplicativos;
  • permitir acesso ao microfone apenas quando necessário;
  • desativar a personalização de anúncios, caso deseje reduzir o rastreamento;
  • apagar periodicamente o histórico de atividades da conta Google;
  • manter o sistema operacional e os aplicativos sempre atualizados;
  • instalar aplicativos apenas por meio das lojas oficiais.

Revisar permissões, desativar anúncios personalizados e manter o sistema atualizado estão entre as recomendações dos especialistas. Foto: Reprodução.

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Esses cuidados ajudam a reduzir o compartilhamento desnecessário de informações e oferecem maior controle sobre os dados utilizados pelas plataformas.

Empresas negam espionagem

Google e Apple afirmam que não utilizam o microfone dos celulares para ouvir conversas e direcionar publicidade sem autorização do usuário.

Segundo a Apple, ela nunca utilizou dados da Siri para criar perfis de marketing, disponibilizou essas informações para publicidade ou vendeu esses dados para qualquer finalidade.

Já o Google diz que não utiliza o microfone dos celulares para ouvir conversas e direcionar anúncios personalizados. De acordo com a empresa, a publicidade exibida aos usuários leva em consideração informações como pesquisas realizadas, navegação, localização, preferências e permissões concedidas em seus serviços.

As companhias sustentam que os anúncios personalizados são produzidos principalmente a partir do histórico de navegação, pesquisas, localização, interesses demonstrados pelo usuário e outros dados obtidos conforme as permissões concedidas em cada serviço.

Para especialistas, a sensação de estar sendo constantemente ouvido existe porque os algoritmos evoluíram a ponto de prever comportamentos com um nível de precisão cada vez maior. 

Assim, na maioria das vezes, não é o microfone que explica um anúncio aparentemente “coincidente”, mas sim o enorme volume de dados que as plataformas já conhecem sobre cada usuário.

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