Em 1973, o antropólogo Santiago Genovés reuniu 11 voluntários em uma travessia transatlântica de 101 dias para estudar violência, poder e atração sexual. O experimento, apelidado pela imprensa de “balsa do sexo”, virou polêmica mundial, mas acabou revelando mais tensões contra o próprio pesquisador do que entre os tripulantes.
Em 1973, o antropólogo espanhol-mexicano Santiago Genovés lançou um dos experimentos mais polêmicos da ciência: a expedição conhecida como “balsa do sexo”. O projeto, batizado de Acali — que em náuatle significa “casa na água” — reuniu 11 voluntários de diferentes nacionalidades em uma travessia transatlântica de 101 dias, com o objetivo de estudar a violência, a agressão e a atração sexual em condições de isolamento.
A embarcação, de apenas 12 metros de comprimento por 7 de largura, não tinha motor, eletricidade ou barcos de apoio. O convívio era forçado em espaço limitado, com chuveiro e banheiro ao ar livre, sob a observação de Genovés. Para aumentar a tensão, ele deu papéis de liderança às mulheres e relegou funções menores aos homens, testando se a distribuição de poder influenciaria nos conflitos.
A fama de “balsa do sexo”
A imprensa logo apelidou o experimento de “balsa do sexo”, alimentando rumores sobre orgias em alto-mar. Embora relações sexuais tenham acontecido entre alguns participantes, as tensões previstas pelo pesquisador não se confirmaram. O que surgiu, em contrapartida, foi hostilidade contra o próprio Genovés, acusado de comportamento autoritário.
Segundo relatos reunidos no documentário A Balsa (2018), do sueco Marcus Lindeen, alguns tripulantes chegaram a cogitar “eliminar” o antropólogo devido à sua pressão psicológica, embora nada tenha se concretizado.
O legado
No fim da viagem, todos foram submetidos a exames médicos e psicológicos. Genovés foi duramente criticado pela comunidade científica, mas seguiu sua carreira como antropólogo de prestígio, enquanto os voluntários criaram laços que mantiveram por décadas.
Para o diretor Marcus Lindeen, Genovés poderia ter compreendido melhor a violência se tivesse ouvido as histórias pessoais dos participantes — como o racismo vivido pela engenheira afro-americana Fé Seymour ou a fuga da capitã Maria Björnstam de um relacionamento abusivo.
O experimento ficou marcado como um dos mais controversos da história da antropologia, misturando ciência, sensacionalismo e drama humano.
Referências: BBC Mundo, BBC Brasil, The Guardian, documentário A Balsa (2018).
