A acusação havia sido registrada na Delegacia de Repressão a Crimes Homofóbicos, Étnico-Raciais e de Intolerância Religiosa por causa de letras consideradas “controversas”

Banda Garotos Podres (Divulgação/Garotos Podres)
Banda Garotos Podres (Divulgação/Garotos Podres)

A Justiça da Paraíba decidiu arquivar a denúncia apresentada contra a banda paulista de punk rock “Garotos Podres”, após concluir que não havia provas suficientes para dar continuidade ao processo. A decisão encerra a investigação aberta após uma apresentação do grupo em João Pessoa, realizada em fevereiro deste ano.

A banda formada na cidade de Mauá, na Grande São Paulo, havia sido alvo de uma queixa registrada na Delegacia de Repressão a Crimes Homofóbicos, Étnico-Raciais e de Intolerância Religiosa. A denúncia estava relacionada à execução de canções compostas na década de 1980.

A investigação contra a banda punk Garotos Podres avançou após uma denúncia que apontava suposto conteúdo controverso em algumas músicas do grupo, entre elas “Papai Noel, Velho Batuta”, “Fernandinho Viadinho”, “Führer” e “Voltem pro Nordeste”. As canções, compostas principalmente nos anos 1980, foram citadas como motivo para a abertura do procedimento.

No entanto, a decisão judicial destacou que o autor da denúncia não presenciou a apresentação realizada em João Pessoa e construiu sua acusação a partir de informações coletadas na internet, sem comprovação direta dos fatos.

Durante a apuração, as autoridades analisaram todo o material audiovisual do show, além de ouvir os integrantes da banda. A conclusão foi clara: nenhuma das músicas mencionadas na denúncia fez parte do repertório executado no evento.

Diante da ausência de evidências e da confirmação de que os títulos citados não foram apresentados no palco, o caso acabou sendo arquivado, encerrando a investigação por falta de provas.

“As testemunhas e os integrantes/produtor da banda foram uníssonos em afirmar que as músicas apontadas como controversas não foram executadas na data, sendo esta última sequer pertencente ao repertório autoral do grupo. Ademais, ‘Fernandinho Viadinho’ teria sido excluída do set há décadas, e ‘Führer’ não integra o setlist há mais de 30 anos”, explica o texto.



Banda ironiza apuração sobre letra de música clássica

A banda punk Garotos Podres voltou a comentar publicamente o inquérito policial que investigou letras antigas do grupo e acabou arquivado por falta de provas. Em um vídeo divulgado nas redes sociais, gravado durante um show no Sesc Belenzinho, em São Paulo, o vocalista Mao ironizou a situação antes da execução da música “Papai Noel, Velho Batuta”, um dos maiores sucessos da banda.

No palco, o cantor relatou que o baterista Negralha precisou prestar esclarecimentos a uma delegada de polícia por videoconferência, em um procedimento realizado fora do estado de São Paulo. Segundo Mao, a autoridade questionou o conteúdo da canção, o que levou o músico a explicar algo inusitado durante o depoimento.

De acordo com o relato, Negralha afirmou que a letra não estimula violência, ressaltando que o personagem citado na música é fictício. A situação foi tratada com ironia pelo vocalista, que classificou o episódio como um processo de caráter inquisitorial, mesmo décadas após o fim da ditadura militar no Brasil.

O episódio, citado com tom crítico durante o show, reforça a posição da banda sobre a investigação, que acabou sendo arquivada após análise completa das apresentações, já que as músicas questionadas não haviam sido executadas no show que motivou a denúncia.

“Essa semana, a delegada, por videoconferência, perguntou ao Negralha, que é nosso baterista, sobre essa canção. O Negralha teve que explicar para a delegada de polícia que Papai Noel não existe. O pior que é sério isso. 40 anos depois do fim da ditadura militar, nós fomos inquiridos num processo inquisitorial questionando as letras ‘ah, mas você estimula a violência com o Papai Noel’, daí o nosso amigo (se referindo ao baterista Negralha) falou ‘Papai Noel não existe’. Daí a delegada chorou, chorou, chorou”. E a banda começou a tocar o sucesso “Papai Noel, Velho Batuta”.

Garotos Podres entram na mira de investigação policial

A banda paulista de punk rock Garotos Podres revelou ter sido alvo de um inquérito policial instaurado no fim de novembro por causa da música “Papai Noel, Velho Batuta”, lançada em 1985. A canção, criada ainda nos últimos anos da ditadura militar, voltou ao centro de uma polêmica quase quatro décadas depois.

A informação foi tornada pública pelos próprios integrantes da banda por meio das redes sociais. No comunicado, o grupo relatou que a investigação teve início após uma denúncia feita por um indivíduo identificado como ligado à extrema direita, embora o nome não tenha sido divulgado.

Segundo a banda, o denunciante alegou que a música conteria mensagens que incentivam a violência, ao mencionar sequestro e morte de uma figura simbólica associada à cultura cristã. Para o grupo, trata-se de uma interpretação distorcida de uma composição satírica criada em um contexto político e social específico dos anos 1980.

O refrão da composição, principal sucesso da banda, diz: “Papai Noel, velho batuta/ Rejeita os miseráveis/ Eu quero matá-lo/ Aquele porco capitalista/ Presenteia os ricos/ (Cospem nos pobres)/ Presenteia os ricos/ (Cospem nos pobres)”.

Os Garotos Podres afirmaram que a denúncia que resultou em um inquérito policial tinha como principal objetivo impedir a realização de shows do grupo. Segundo a banda, por conta da acusação, os integrantes precisaram prestar depoimento às autoridades, mesmo se tratando de uma música lançada há quase 40 anos.

Em publicação nas redes sociais, o grupo contou que passou por um interrogatório considerado constrangedor, o que gerou indignação entre os músicos. A banda reforçou que nunca havia enfrentado esse tipo de situação, nem mesmo durante o período final da ditadura militar, quando a canção “Papai Noel, Velho Batuta” foi lançada.

Os Garotos Podres classificaram o episódio como um ato de censura e destacaram que, em 1985, a música não foi alvo de questionamentos pelo antigo Departamento de Censura do Estado. Para o grupo, o caso representa um retrocesso no tratamento dado à produção cultural e artística no país.

Ainda de acordo com o relato publicado, o baterista da banda, o integrante mais jovem da formação atual e que sequer havia nascido quando a música foi composta e passou a sofrer pesadelos recorrentes após o interrogatório.

Segundo a banda, ele sonhava que estava sendo acusado de forma absurda, em situações que remetiam a interrogatórios sob tortura, o que evidenciaria o impacto emocional causado pelo episódio.

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