Os pastores Wenderson Lima de Souza, de 32 anos, e Arielly Kamila Moraes de Souza, de 24 anos, estão foragidos e são investigados por abuso sexual de seis adolescentes com idades entre 12 e 17 anos em Boa Vista (RR). Segundo a Polícia Civil, o casal usava a liderança religiosa para manipular as vítimas e o estatuto da própria igreja para blindar o pastor de denúncias. As investigações começaram em abril após a denúncia de uma adolescente de 14 anos. A defesa afirma que os dois são inocentes e têm bons antecedentes.

Casal de pastores evangélicos Wenderson Lima de Souza e Arielly Kamila Moraes de Souza — Foto: Arquivo pessoal
Casal de pastores evangélicos Wenderson Lima de Souza e Arielly Kamila Moraes de Souza — Foto: Arquivo pessoal

Os pastores Wenderson Lima de Souza, de 32 anos, e Arielly Kamila Moraes de Souza, de 24 anos, estão foragidos e são investigados por crimes sexuais contra seis adolescentes com idades entre 12 e 17 anos em Boa Vista, Roraima. Segundo a Polícia Civil, o casal usava a posição de liderança religiosa e a fé das vítimas para manipulá-las, convencendo-as de que os atos sexuais faziam parte de um propósito espiritual.

A defesa do casal afirmou, em nota, que os dois são inocentes, primários, têm bons antecedentes e nunca responderam a processos criminais.

O casal liderava a igreja há cinco anos. As investigações tiveram início em abril, a partir da denúncia de uma adolescente de 14 anos. Outras cinco vítimas relataram posteriormente ter sofrido abusos praticados pelo casal.

Estatuto criado para blindar pastor, aponta inquérito

A Polícia Civil identificou que a estrutura da própria instituição religiosa teria sido utilizada para proteger Wenderson e dificultar questionamentos à sua liderança. O estatuto da igreja, elaborado em 13 de agosto de 2021, estabelecia normas de conduta com “força de lei” para todos os membros e previa o desligamento de fiéis que “promoverem dissidência ou se rebelarem contra a autoridade da Igreja, Ministério e Assembleias” ou que “tiverem conduta duvidosa, com atos ilícitos ou imorais”.

“Olhando mais a fundo, pode-se constatar que as regras da igreja foram criadas por Wenderson, para blindá-lo”, registra o inquérito policial. Para os investigadores, a regra de expulsão por “rebeldia” era usada para evitar denúncias de abuso sexual por parte das vítimas e de outros membros que tivessem conhecimento dos fatos.

Pastor se apresentava como ‘ungido de Deus’

Segundo a investigação, Wenderson se apresentava à congregação como a principal autoridade religiosa, cuja posição não poderia ser contestada. O inquérito descreve que, na visão dos membros, ele era “o representante de Deus na terra, o ‘ungido’, o portador da palavra sagrada”, e que contrariá-lo significava, na percepção dos fiéis, rebelar-se contra a própria divindade.

A Polícia Civil aponta que esse peso psicológico era ainda mais intenso sobre as adolescentes. “Esse peso psicológico e espiritual é de magnitude imensurável, especialmente quando recai sobre adolescentes que estão em processo de formação de identidade, que buscam na comunidade religiosa um sentido de pertencimento, acolhimento e proteção”, registra o documento.

Estrutura da igreja concentrava poderes disciplinares no pastor

Conforme o estatuto da instituição, Wenderson ocupava o cargo de pastor presidente e exercia a função de órgão disciplinar, com autoridade para definir a gravidade de faltas, as penalidades aplicáveis e a execução das medidas. Arielly Kamila ocupava o cargo de vice-presidente.

O documento previa que, nos casos em que as denúncias envolvessem o próprio pastor presidente, caberia ao Ministério da Igreja formar um Conselho de Ética para analisar os fatos. Se as denúncias fossem confirmadas pelo conselho, uma Assembleia Geral Extraordinária deveria ser convocada para deliberar sobre as medidas. Segundo a Polícia Civil, mesmo diante dessa previsão, membros da igreja com conhecimento dos abusos deixaram de denunciá-los, contrariando a própria Ata de Fundação da instituição.

A delegada responsável pelo caso reforçou: “Nenhum ambiente e nenhuma posição de autoridade estão acima da lei.”

Crimes investigados e situação processual

Wenderson responde por seis crimes: estupro de vulnerável, importunação sexual, favorecimento da exploração sexual de adolescente ou pessoa vulnerável, registro não autorizado de intimidade sexual, fraude processual e falsidade ideológica. Arielly é investigada por estupro de vulnerável, importunação sexual e fraude processual.

A defesa do casal informou ainda que tenta obter acesso aos autos para se manifestar sobre o pedido de prisão. Até o momento, os dois permanecem foragidos.

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