O debate sobre o ensino domiciliar voltou ao centro das discussões após um casal de Jales, no interior de São Paulo, ser condenado por abandono intelectual ao retirar as duas filhas da escola para adotar o homeschooling. A decisão judicial determinou pena de 50 dias de detenção em regime semiaberto, embora a defesa ainda tente reverter a condenação.
O caso de uma família de Jales, no interior de São Paulo, reacendeu a discussão sobre o ensino domiciliar no Brasil. Um casal foi condenado a cumprir pena em regime semiaberto após optar por educar as duas filhas em casa, sem matrícula regular em instituição de ensino, prática que não possui regulamentação legal no país.

Imagem Ilustrativa (Foto: Reprodução/Pixels)
A situação chegou às autoridades depois que a antiga escola das adolescentes comunicou o caso ao Conselho Tutelar ao perceber que as estudantes haviam deixado de frequentar as aulas presenciais. Desde então, o episódio passou a gerar debates nas redes sociais sobre os limites da educação familiar e o direito dos pais na formação dos filhos.
Na defesa apresentada à Justiça, os pais afirmaram que as meninas tiveram evolução acadêmica superior à obtida no ambiente escolar tradicional. Para sustentar o argumento, a família reuniu 3 mil páginas de relatórios, avaliações e registros de aprendizagem somente do ano de 2025.
Entre as atividades desenvolvidas pelas adolescentes estão estudos de latim, música, canto e piano, além de uma intensa rotina de leitura ao longo deste ano.
Após analisar o caso, o juiz afirmou que houve abandono intelectual, já que as duas irmãs estavam fora da escola, e decidiu pela condenação dos pais a 50 dias de prisão em regime semiaberto.
Ensino domiciliar segue sem regulamentação no Brasil
Embora o ensino domiciliar seja tema de debates frequentes no Brasil, a modalidade ainda não possui autorização legal para funcionar no país.
Em decisão tomada em 2018, o Supremo Tribunal Federal (STF) reconheceu que a prática não viola a Constituição, mas determinou que sua implementação depende da criação de uma legislação específica que estabeleça regras, critérios de acompanhamento e mecanismos de controle educacional.
Enquanto isso, segue em análise no Senado um projeto que pretende regulamentar a educação domiciliar na educação básica brasileira. A proposta busca modificar tanto a Lei de Diretrizes e Bases da Educação quanto o Estatuto da Criança e do Adolescente, criando normas para permitir que famílias possam ensinar os filhos fora do ambiente escolar tradicional.
O texto já avançou nas discussões parlamentares e aguarda inclusão na pauta da Comissão de Educação e Cultura da Casa. A matéria recebeu parecer favorável da relatora, a senadora Professora Dorinha Seabra, e continua dividindo opiniões entre defensores da liberdade educacional e especialistas que defendem a permanência obrigatória de crianças e adolescentes nas escolas.

Avaliação aplicada por família no homeschooling (Foto: Arquivo pessoal)
O que é ‘homeschooling’?
O ensino domiciliar é adotado por famílias que decidem retirar os filhos do modelo tradicional de ensino e assumir diretamente a educação das crianças e adolescentes, seja por conta própria ou com o auxílio de professores particulares.
No Brasil, o movimento reúne grupos organizados em associações espalhadas por diferentes estados, que defendem o direito das famílias de escolher como desejam conduzir a formação educacional dos filhos.
Especialistas apontam que, nos primeiros anos, os defensores da modalidade apresentavam motivações variadas, incluindo críticas ao sistema escolar e métodos pedagógicos aplicados nas instituições de ensino. Com o passar do tempo, porém, o debate passou a ganhar também um forte componente ideológico e político.
Segundo estudiosos da área de políticas educacionais, parte dos grupos favoráveis ao homeschooling atualmente mantém articulação com setores conservadores e associa a pauta a discussões sobre valores morais, educação tradicional e influência ideológica nas escolas.
O tema também passou a ser relacionado a outros debates nacionais, como projetos ligados ao Escola sem Partido e propostas de militarização do ensino público.
Projeto prevê regras
A proposta em discussão no Congresso estabelece uma série de regras para a eventual regulamentação do ensino domiciliar no Brasil. Entre as exigências previstas está a obrigatoriedade de que ao menos um dos responsáveis pela educação da criança possua diploma de ensino superior.
“A defesa das famílias era para que não houvesse essa limitação de ensino superior. Mas o movimento acabou abrindo mão disso no texto, para ter mais chance de ele ser aprovado”, disse, Luciane Barbosa, professora e pesquisadora de Políticas Educacionais da Faculdade de Pedagogia da Unicamp.
Além disso, os estudantes precisariam permanecer matriculados em uma instituição de ensino, pública ou privada, responsável pelo acompanhamento pedagógico e pela fiscalização do aprendizado.
O texto também determina que o conteúdo aplicado pelas famílias siga as diretrizes da Base Nacional Comum Curricular (BNCC), além da realização periódica de avaliações para medir o desempenho acadêmico dos alunos.
Especialistas apontam que a exigência de formação universitária dos pais foi um dos pontos que mais geraram discussão durante a tramitação da proposta.
“O entendimento comum das universidades e dos órgãos de Justiça no Brasil é o de que escola é igual a educação, ignorando o bem-estar e o ritmo de desenvolvimento da própria criança”, Édison Prado de Andrade, advogado e gestor da Associação Brasileira de Defesa e Promoção da Educação Familiar (ABDPEF).
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Defensores criticam excesso de burocracia
Segundo pesquisadores da área educacional, representantes do movimento favorável ao homeschooling inicialmente resistiram à medida, mas acabaram aceitando a inclusão da regra como forma de facilitar a aprovação do projeto.
Já defensores da educação domiciliar consideram que as exigências previstas podem dificultar o acesso de famílias interessadas na modalidade.
Integrantes de associações ligadas ao homeschooling argumentam que pais comprometidos, com acesso a materiais pedagógicos, plataformas digitais e métodos estruturados de ensino, podem alcançar resultados acadêmicos tão bons quanto, ou até superiores, aos do ensino convencional.
Para os apoiadores do projeto, o excesso de burocracia ignora diferentes formas de aprendizagem e desconsidera o desenvolvimento individual das crianças.
“As crianças educadas em casa costumam aprender mais em menos tempo. Engessar o projeto com exigências burocráticas extremas pune famílias que possuem tempo e interesse legítimo em cuidar da formação de seus filhos, mas que não detêm uma titulação acadêmica formal”, defende, Édison Prado de Andrade.
Escola acionou Conselho Tutelar
O caso começou a ser acompanhado pelo Conselho Tutelar após a própria escola das adolescentes comunicar que as estudantes deixariam o ensino tradicional para serem educadas em casa. A informação foi repassada pela mãe das meninas, que informou à instituição a decisão da família de adotar o ensino domiciliar.
Durante o processo judicial, o Ministério Público se manifestou favoravelmente à absolvição dos pais. Mesmo assim, a Justiça decidiu condenar o casal por abandono intelectual, fixando pena de 50 dias de detenção em regime semiaberto.
Embora o magistrado tenha autorizado a suspensão condicional da pena, a defesa avalia que a medida pode trazer consequências ainda mais rígidas.
Segundo a advogada da família, Isabelle Monteiro, pedagoga, especialista em direito educacional e coordenadora jurídica da Associação Nacional de Educação Domiciliar (ANED),o acordo prevê uma série de obrigações, como comparecimento periódico à Justiça, prestação de serviços comunitários e a necessidade de rematricular as filhas em uma escola regular.
A defesa argumenta ainda que qualquer descumprimento das condições impostas pode levar ao cumprimento imediato da pena em regime semiaberto.
Os representantes do casal também criticaram trechos da decisão judicial que mencionam hábitos e preferências culturais da filha mais velha, de 15 anos, considerando que essas observações extrapolam a discussão central do processo.
“Em um depoimento especial de quase duas horas, a adolescente comentou, despretensiosamente, que não gostava de funk e sertanejo. Isso foi pinçado na sentença para sinalizar uma suposta educação discriminatória, o que soa absurdo. O gosto musical é um direito íntimo e inviolável”, diz a advogada, Isabelle Monteiro .
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