O avanço das inteligências artificiais (IAs) no cotidiano já não é novidade, mas a presença de chats criados dentro do Instagram trouxe a tecnologia ainda mais para perto da vida social. Agora, qualquer usuário pode desenvolver um chatbot personalizado e disponibilizá-lo para conversas, atraindo a curiosidade de milhões de pessoas. Porém, a questão que surge é: até que ponto essas interações artificiais podem impactar as relações humanas?
O avanço das inteligências artificiais (IAs) no cotidiano já não é novidade, mas a presença de chats criados dentro do Instagram trouxe a tecnologia ainda mais para perto da vida social. Agora, qualquer usuário pode desenvolver um chatbot personalizado e disponibilizá-lo para conversas, atraindo a curiosidade de milhões de pessoas. Porém, a questão que surge é: até que ponto essas interações artificiais podem impactar as relações humanas?
Onde a máquina encontra o humano: a lógica por trás dos chatbots
Segundo o engenheiro de produção Luiz Santos, especializado em automação, os chats disponíveis na plataforma são criados diretamente pelos próprios usuários. “Dentro do Instagram, existe um construtor que permite ao usuário programar a IA, definir comportamentos e até inserir arquivos limitados. Mas, quando se busca algo mais robusto, é preciso recorrer a ferramentas externas”, explica.
Sobre os dados, Santos reforça que a IA não acessa informações privadas dos usuários além do que eles mesmos fornecem durante a conversa. “Se alguém cria uma IA de dieta e o usuário informa peso e altura, esses dados servem apenas para gerar a resposta no chat. Eles não ficam disponíveis para quem desenvolveu a IA”, detalha. Apesar disso, ele reconhece que qualquer recurso online envolve risco de privacidade, mas reforça que por se tratar de uma ferramenta da Meta as chances de vazamento são menores.
Riscos e benefícios emocionais
Se, por um lado, as conversas com IAs podem trazer acolhimento imediato e organização de pensamentos, por outro, o uso excessivo pode gerar isolamento social e confusão emocional, aponta a psicóloga clínica e neuropsicóloga Aline Rezende Graffiette.
“A IA pode oferecer acolhimento imediato, ajudar a organizar pensamentos ou até reduzir a solidão momentânea. Por outro, se o usuário criar uma dependência excessiva dessas interações, pode se distanciar das relações reais, o que gera riscos como isolamento social, dificuldade de enfrentar frustrações e confusão entre o “virtual” e o “real”.”, alerta Aline.
O psicanalista Dr. Jorge Guedes reforça que o problema não está apenas no conteúdo das interações, mas na forma como o sujeito se relaciona com a IA. “A. Quando alguém conversa com uma máquina como se fosse uma pessoa, o inconsciente pode projetar nela suas angústias, desejos e fantasias. Isso pode trazer algum alívio, mas também pode gerar confusão na construção da subjetividade, pois falta o retorno humano que nos confronta e nos limita”.
Para Guedes, o maior risco é a chamada “solidão acompanhada” gerada pelas IAs. Por estar sempre disponível e validando o usuário, de forma a não existir ausência, troca de desejo ou alteridade, o indivíduo se afasta de condições essenciais da experiência humana.
Aline também destaca o impacto em adolescentes: “O impacto pode ser mais sensível, já que estão em fase de formação da identidade e das habilidades socioemocionais. Se eles recorrerem com frequência a IAs para conversar, podem ter menos prática em lidar com interações humanas reais, que são complexas, envolvem empatia, linguagem corporal e negociação de conflitos”.
Suporte ou substituição?
Ambos os especialistas concordam que existe uma linha tênue entre o uso saudável e o prejudicial. Para Aline, “a IA pode ser um suporte, uma ferramenta, mas não deve ser a principal fonte de afeto ou validação emocional.”. Já Guedes resume que o risco maior acontece quando a inteligência artificial passa a ocupar o lugar do “Outro” simbólico. Nesse ponto, a relação com a máquina começa a substituir o laço social, que é essencial para a constituição do sujeito.
Por que nos atraímos pelas IAs?
Mas, afinal, por que as pessoas se sentem atraídas por conversar com IAs? Para a psicóloga, a resposta está na promessa de que a IA está “sempre disponível, não julga e responde de forma rápida”. Ela pontua que isso é um reflexo do nosso tempo, marcado pela “pressa, pelo medo do julgamento e pela carência de escuta atenta”.
Dr. Guedes completa: “O desejo moderno parece buscar respostas imediatas e um espelho sem riscos. Mas essa busca também denuncia um mal-estar coletivo: vivemos num tempo em que a solidão é tão intensa que mesmo uma presença artificial pode servir de alívio.”
Equilíbrio é a chave
As IAs de conversa, como as que já circulam no Instagram, podem ser ferramentas de apoio, informação e até entretenimento. Mas, segundo os especialistas, seu uso deve vir acompanhado de consciência e moderação. Afinal, por mais sofisticada que a tecnologia se torne, a profundidade das relações humanas permanece insubstituível.
