Os registros de incidentes envolvendo banhistas e tubarões na orla da Região Metropolitana do Recife têm chamado atenção sobre fatores de risco que podem aumentar as chances de ataques.
Os registros de ataques envolvendo tubarões na orla da Região Metropolitana do Recife têm chamado atenção sobre fatores de risco que podem aumentar as chances de um incidente.

(Foto: Reprodução)
Acessórios podem ser perigosos
Além dos fatores ambientais amplamente conhecidos, pesquisadores da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE) e especialistas internacionais chamam a atenção para detalhes que costumam passar despercebidos pelo público, como o uso de relógios, joias brilhantes e roupas em tons néon, que funcionam como verdadeiras iscas visuais para os predadores.
De acordo com dados de uma pesquisa do Arquivo Internacional sobre Ataques de Tubarões (ISAF), objetos metalizados e reflexivos, como relógios de pulso podem atuar de forma semelhante às escamas dos peixes, o que pode induzir o animal a um ataque por erro de identificação. Segundo pesquisadores, o reflexo desses dispositivos brilhantes desperta a curiosidade exploratória dos predadores.
Tubarão tem visão “distorcida”
Estudos conduzidos pelo fisiologista Nathan Hart, da Universidade Macquarie, na Austrália, revelam que a maioria das espécies de tubarões possui visão monocromática (enxergam apenas uma cor), ou seja, não distinguem cores como o ser humano. No entanto, eles são extremamente sensíveis ao contraste. Trajes de banho em cores muito chamativas ou néon contra o fundo escuro do oceano criam uma silhueta de alta visibilidade.
Em águas turvas, segundo especialistas, a situação se agrava. A pesquisadora Mariana Cruz, da UFRPE, explica que, com a visão comprometida pela falta de transparência da água, o tubarão utiliza as ampolas de Lorenzini (poros sensoriais no rosto que detectam campos magnéticos e elétricos de seres vivos) para localizar potenciais presas. Como o sistema não identifica o formato exato do corpo humano, o animal costuma desferir uma mordida para saber do que se trata.
“Devido à turbidez (falta de transparência) da água, a visão do tubarão vai ficando mais comprometida, para isso ele vai utilizar poros que existem no rosto dele, que a gente chama de sexto sentido, que são as ampolas de Lorenzini. Essas ampolas conseguem detectar a presença de seres vivos que vão estar escondidos, mas não identificando que não somos a presa dele. Então ele só vai identificar depois da mordida investigativa”, afirmou a Mariana à Agência Brasil.
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Por que Pernambuco concentra alto índice de incidentes?
Conforme defendem os pesquisadores, a questão em Pernambuco é complexa e envolve profundas alterações ambientais causadas pelo homem. Desde 1992, o Comitê Estadual de Monitoramento de Incidentes com Tubarões (Cemit) contabiliza 84 casos no estado, incluindo o arquipélago de Fernando de Noronha. A praia de Boa Viagem, sozinha, soma 25 ocorrências. Cientistas associam diretamente o início desse cenário à construção do Complexo Industrial Portuário de Suape.
De acordo com o biólogo marinho Marcelo Szpilman, as obras impactaram no ecossistema local. “Ele [o porto] acabou com o mangue da região e aí houve uma diminuição na oferta de alimentação, e também fechou duas bocas de rio. E a fêmea penetra na água doce para parir o filhote em água doce. Quando você fecha a boca de rio e acaba com a comida, essa população que havia em Suape, que nunca representou grandes ameaças, ela se deslocou para o Grande Recife”, explicou.
A topografia submarina da costa recifense também facilita os encontros. Há um canal profundo, medindo entre 5,5 e 6,5 metros, que corre de forma paralela e muito próxima à faixa de areia, cuja profundidade média é de apenas dois a três metros. Esse desenho geográfico funciona como uma avenida que condiciona os tubarões a nadarem naturalmente perto de banhistas e surfistas.
Histórico de vítimas e recomendações de segurança
Além dos casos registrados neste ano, o histórico na região inclui outros episódios graves na Praia de Piedade, em Jaboatão dos Guararapes, onde em março de 2023 uma adolescente de 15 anos e um jovem de 14 anos sofreram amputações de membros em ataques seguidos com apenas um dia de diferença.
Em Olinda, um surfista também foi ferido gravemente em fevereiro daquele mesmo ano, recebendo alta após dez dias de internação no Hospital da Restauração. Mais recentemente, novas ocorrências envolvendo um menino de 11 anos e uma jovem de 19 anos reforçaram a urgência de medidas preventivas.

Divulgação/Prefeitura de Olinda
Especialistas do Núcleo de Educação Ambiental da UFRPE advertem que pessoas com qualquer tipo de ferimento ou sangramento não devem entrar no mar de forma alguma, dado o olfato extremamente apurado desses animais. As autoridades destacam os principais pontos que devem ser evitados pelos banhistas:
- Regiões sinalizadas com placas de advertência (há mais de 150 placas em 33 quilômetros de orla em PE);
- Áreas abertas que não contem com a proteção natural de arrecifes;
- Períodos de maré alta, que permitem aos animais ultrapassar as barreiras de corais;
- Horários do amanhecer e do cair da tarde, momentos em que os tubarões estão mais ativos para alimentação;
- Desembocaduras de rios e estuários;
- Entrar na água em profundidades que ultrapassem a linha da cintura;
- Períodos chuvosos, que deixam a água turva e com sedimentos;
- Evitar nadar sozinho ou após o consumo de bebidas alcoólicas.
Dispositivo promete afastar tubarões
Diante do receio da população, o mercado começou a apresentar soluções tecnológicas de proteção individual, como o SharkBanz, um acessório em formato de pulseira que promete repelir os animais. O dispositivo atua criando um campo magnético focado em sobrecarregar os sensores elétricos do tubarão, afastando-o da proximidade do usuário.
O especialista em tubarões Felipe Lamarca, PhD em Biologia Animal, afirma que a tecnologia se mostrou eficaz em testes científicos com diferentes espécies, servindo inclusive para proteger iscas de pesca. Contudo, o pesquisador faz um alerta rigoroso sobre o risco de uma falsa sensação de segurança. Segundo Lamarca, o uso do acessório não deve servir de pretexto para que banhistas ou surfistas ignorem as regras básicas e se exponham a situações de risco evidente.
“O problema do uso desse acessório é a pessoa achar que é 100% eficaz e acabar se colocando em situações perigosas, situações essas que ela não entraria se não estivesse usando esse acessório, e que podem resultar em um eventual ataque. O ideal é usar e respeitar o mar, respeitar os tubarões”, pontuou.
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