Em entrevista exclusiva ao BacciNotícias, Kim Kataguiri detona a escolha de Flávio Bolsonaro para 2026, critica a submissão de Tarcísio de Freitas e confirma que seu grupo terá candidatura própria com Renan Santos. O deputado descarta anistia a Bolsonaro e afirma que governadores de direita hoje têm medo de enfrentar o sistema.
O deputado federal Kim Kataguiri (MISSÃO – SP) decidiu subir o tom contra o que chama de “retrocesso da direita”. Em uma entrevista exclusiva concedida ao repórter Lucas Tadeu, do BacciNotícias, o parlamentar afirmou que a insistência no sobrenome Bolsonaro para 2026 é um passaporte para a vitória do PT. Para ele, Flávio Bolsonaro é um candidato vulnerável devido ao seu histórico jurídico, e o governador Tarcísio de Freitas, embora popular, carece de “colhão” político para se desvencilhar da tutela da família do ex-presidente.
O Fim da Era Bolsonaro e o “Posto Ipiranga” de SP
Kim foi enfático ao analisar a dependência de Tarcísio de Freitas em relação ao clã Bolsonaro. Segundo o deputado, o governador de São Paulo não possui a autonomia necessária para liderar uma nação, vivendo sob o constante escrutínio e ataques de Carlos e Eduardo Bolsonaro.
“Tarcísio mostra sinais cada vez mais claros de que não tem autonomia política. Ele não enfrenta nem 10% das decisões da família Bolsonaro, apanha mais do Eduardo e do Carlos do que do próprio Lula e só se move com autorização.”

Jair Bolsonaro ao lado de lideranças do MBL e do NOVO (Foto: Reprodução/Facebook)
Terceira Via e o Partido Missão
A grande aposta de Kim para quebrar a polarização é Renan Santos, líder do MBL e pré-candidato pelo recém-fundado partido Missão. Kataguiri argumenta que o bolsonarismo “se ajoelhou” para o sistema em troca de sobrevivência, abandonando pautas como privatizações e o combate ao Centrão. Ele promete que a “Missão” apresentará um projeto técnico, o Livro Amarelo, focado em reformas que a elite política evita por medo de perder votos.
“O bolsonarismo teve a chance histórica de privatizar, cortar privilégios e enfrentar o Centrão, mas preferiu se ajoelhar em troca de emendas e cargos. A Missão não negociará os princípios que estão sendo construídos nesse projeto.”
Sem Anistia e Sem Alianças com Tarcísio em SP
Sobre o futuro jurídico de Jair Bolsonaro, Kim foi direto: nada de anistia. Ele defende que a direita deve enfrentar o STF pelas vias institucionais, algo que ele acusa Bolsonaro de ter negligenciado. Além disso, o deputado antecipou que seu grupo não apoiará Tarcísio de Freitas em uma eventual reeleição em São Paulo, mantendo a coerência da candidatura própria.
“Nosso candidato à Presidência não vai defender nenhuma anistia e vai enfrentar os abusos do Supremo, algo que Bolsonaro teve a oportunidade de fazer e nunca fez.”
A Crítica aos Governadores e o “Sistema”
Nomes como Romeu Zema e Ratinho Júnior também foram alvo de Kim. Para o deputado, falta a esses gestores a disposição de “comprar briga” com as corporações e os privilégios do funcionalismo de elite. Kataguiri encerrou a entrevista a Lucas Tadeu com um desabafo sobre o funcionamento do Parlamento, onde a troca de emendas por apoio soterra qualquer debate ideológico sério.
“A maioria dos deputados não se elege por pautas ideológicas. (…) Temos um Parlamento mais preocupado em discutir emendas orçamentárias e interessado em proteger regalias, enquanto o país caminha a passos largos para um colapso orçamentário.”
Leia a entrevista completa:
1- Kim, o PL oficializou Flávio Bolsonaro como o sucessor político do pai, mas você tem sido um crítico ferrenho dessa escolha, chamando-a de ‘entrega para a esquerda’. Por que você acredita que um nome como o do Tarcísio de Freitas ou do Ronaldo Caiado seria mais viável do que manter o sobrenome Bolsonaro na urna?
Kim: Manter o sobrenome Bolsonaro na urna hoje é entregar a eleição de bandeja para a esquerda. Flávio Bolsonaro carrega um histórico tão pesado que obrigou o governo inteiro a trabalhar para blindá-lo da prisão. Esse é o nome que vai liderar uma renovação nacional? Enquanto isso, Tarcísio mostra sinais cada vez mais claros de que não tem autonomia política. Ele não enfrenta nem 10% das decisões da família Bolsonaro, apanha mais do Eduardo e do Carlos do que do próprio Lula e só se move com autorização. O Brasil precisa de nomes com coragem e independência para enfrentar corporações, cortar privilégios da elite do funcionalismo e da classe política, mexer nos gastos intocáveis e fazer as reformas que ninguém quer fazer porque têm custo eleitoral.
2- O seu grupo lançou o Renan Santos como pré-candidato à Presidência pelo partido Missão. Em um cenário onde as pesquisas mostram uma polarização consolidada entre Lula e o herdeiro do bolsonarismo, qual é o caminho matemático e político para que uma ‘terceira via’ liberal-conservadora não termine apenas como um acessório no primeiro turno?
Kim: A população não quer nem Lula nem Bolsonaro, o que mostra que há espaço para um novo nome disputar as próximas eleições. Nós temos um projeto de país diferente do deles, com coerência e profundidade. O Livro Amarelo é um exemplo disso, ao apresentar planos reais para o país, com pautas claras de liberalismo econômico, conservadorismo e combate frontal ao populismo. Diferentemente do bolsonarismo, que teve a chance histórica de privatizar, cortar privilégios e enfrentar o Centrão, mas preferiu se ajoelhar em troca de emendas e cargos, a Missão não negociará os princípios que estão sendo construídos nesse projeto.
3- Mesmo preso e inelegível, Jair Bolsonaro continua sendo o maior cabo eleitoral da direita. Se o próximo presidente eleito for de um campo aliado ao seu, você defenderia uma anistia para o ex-presidente ou acredita que a direita precisa, institucionalmente, virar essa página e aceitar as decisões do STF para se reconstruir?
Kim: Não. Nosso candidato à Presidência não vai defender nenhuma anistia e vai enfrentar os abusos do Supremo, algo que Bolsonaro teve a oportunidade de fazer e nunca fez.
4- Temos nomes como Ratinho Júnior, Romeu Zema e Eduardo Leite tentando se nacionalizar. Para você, esses governadores sofrem do mesmo problema que a ‘terceira via’ de 2022: falta de coragem para o embate direto? Quem deles, hoje, você considera o adversário mais preparado para enfrentar o PT tecnicamente?
Kim: Nenhum deles. Falta coragem para enfrentar o sistema quando isso tem custo político. É preciso comprar briga com corporações, com privilégios do funcionalismo de elite, com gastos obrigatórios fora de controle. Nenhum desses nomes apresentou até agora disposição real de enfrentar esse núcleo duro do problema. Renan Santos se diferencia porque não tem rabo preso, não vive de acordo com conveniência eleitoral e não evita os temas impopulares e, para além disso, ele terá a condição de expor os escândalos de corrupção e o retrocesso da direita que o Bolsonaro representou e isso afeta qualquer candidato submisso ao bolsonarismo.
5- Existem rumores de que você pode disputar o Governo de São Paulo em vez da reeleição para a Câmara. Como fica a sua estratégia se o Tarcísio de Freitas decidir ir para a reeleição no estado em vez de tentar a Presidência? Você subiria no palanque dele ou o Missão terá candidatura própria em SP de qualquer maneira?
Kim: Essas decisões ainda estão em avaliação dentro do partido. A Missão tem como princípio lançar candidaturas próprias e construir um projeto nacional consistente, inclusive nos estados e municípios. O foco agora é estruturar o movimento, fortalecer nossa bancada. Não subiremos no palanque de Tarcísio. Teremos candidatura própria ou não apoiaremos ninguém.
6- Por fim, você foi um dos deputados mais jovens da história do Brasil. Olhando para a sua trajetória até aqui, qual foi o maior ‘choque de realidade’ que o sistema político te deu e o que você mudaria na sua própria atuação lá no início, com a experiência que tem hoje?
Kim: A maioria dos deputados não se elege por pautas ideológicas. Eles não se elegem com base naquilo em que acreditam. Não há defesa de ideias, de projetos sólidos. Temos um Parlamento mais preocupado em discutir emendas orçamentárias e interessado em proteger regalias, enquanto o país caminha a passos largos para um colapso orçamentário e ninguém quer falar de corte de gastos, revisão de benefícios e desvinculação de despesas obrigatórias. Eu não mudaria minha atuação no início. Se algo ficou claro com o tempo, é que enfrentar privilégios desde o primeiro dia foi a decisão certa. A diferença hoje é que eu tenho ainda mais clareza de que, sem confronto direto com esse sistema, nada muda.
