A madrugada de sábado (3), em que os Estados Unidos capturaram Nicolás Maduro, em uma operação que deixou ao menos 40 mortos, segundo o The New York Times, virou uma página da história recente da Venezuela. O ditador e a esposa foram levados para Nova York, nos EUA, enquanto o presidente Donald Trump anunciou que Washington vai comandar a transição do país e assumir controle do petróleo venezuelano.
Como está a vida de quem acordou em Caracas nos dias seguintes ao ataque na Venezuela?
O BacciNotícias conversou com moradores da capital. Por segurança, nomes, idades e profissões serão preservados. Um deles será identificado como Ruan; o outro, como Pedro.
Cidade sem protestos
Nada de ruas tomadas, confrontos ou clima de guerra entre a população. De acordo com Juan, o que pesou mesmo para ele e sua família foram os apagões de energia no país.
“Aqui no meu bairro e em vários outros estamos há horas sem eletricidade. Saí duas vezes pela cidade e não vi militares, policiais nem protestos”, contou Ruan.

Ele vê uma Caracas estranha, diferente e silenciosa após a captura de Maduro. Segundo relato do jovem, supermercados estavam abertos, lotados. Farmácias também. Postos de gasolina, a mesma coisa. A sensação é de calma… mas é uma calma que observa tudo em volta.
A orientação da própria população, já que os políticos não apareceram mais após a investida norte-americana, é sair de casa apenas quando necessário. “As pessoas estão na rua só para o essencial”.

Assustados com a situação
Segundo Pedro, que também falou com a nossa reportagem, a população do país vive um misto de sensações.
“Estamos assustados, mas ao mesmo tempo emocionados com toda a situação”.
Ele confirmou a ausência de confrontos e manifestações contrárias ou a favor do regime de Nicolás Maduro. Além disso, o jovem afirmou que as autoridades do país se silenciaram, assim como boa parte da população, que prefere aguardar os desdobramentos políticos dos próximos dias.

“Não teve manifestações. O governo sumiu. Quem está no comando são os Estados Unidos, esperando que os outros líderes se entreguem. A polícia está nas ruas, mas não está atacando ninguém.”
Serviços básicos como hospitais, clínicas, postos de gasolina, entre outros, funcionam, mas com dificuldades. Quem circula pelas ruas de Caracas se depara com filas enormes para a compra de mantimentos.
“Os canais de televisão estão funcionando, passando notícias do que aconteceu no último final de semana. A internet segue funcionando, mas por vezes, apresenta instabilidade”.

Quem governa agora?
Militares venezuelanos reconheceram na manhã deste domingo (4) Delcy Rodríguez como presidente interina da Venezuela. O ministro da Defesa, Vladimir Padrino, realizou um comunicado televisionado confirmando a decisão do Tribunal Supremo de Justiça do país, que determina que Rodríguez assuma o poder por 90 dias.
“Não há agentes dos EUA nas ruas. A única autoridade que vi foi mais cedo, num posto de gasolina. Eram agentes municipais”, afirmou Ruan.

Vaza 1ª foto de Nicolás Maduro algemado após prisão (Foto: Ricardo Stuckert/PR)
Medo e alívio
Ruan avaliou que o sentimento predominante é de alívio por parte da população venezuelana.
“A maior parte da população está feliz. É um alívio saber que Maduro não está mais no poder”, revelou.
No entanto, segundo o jovem, a preocupação é com os próximos dias, uma vez que a população precisará voltar ao trabalho para sobreviver.
“Aqui é assim: se não trabalha, não come. Então, em poucos dias, a vida voltará ao normal, de um jeito ou de outro”.

Nicolás Maduro e sua esposa II Foto: Reprodução/Instagram
Mesmo sem Maduro no poder, Juan revelou ter medo de falar sobre o governo do país. Segundo Juan, as notícias transmitidas ao mundo sobre a Venezuela são verdadeiras. Ou seja, a população enfrenta um silêncio velado. Falar mal de Nicolás Maduro publicamente, de acordo com o jovem, pode ser considerado uma sentença de morte.
“Na Venezuela, quem fala contra o governo normalmente vai preso. Não é seguro”, garantiu.
O petróleo e o que vem pela frente
Trump já disse que os EUA vão controlar o petróleo. Para Ruan, isso significa reorganização economica do país e também o fim de uma era cercada por polêmicas. Embora tenha a maior quantidade de petróleo do mundo, segundo ele, as riquezas não foram transformadas em infraestrutura para o país.
“Provavelmente vai ser como antes: americanos processavam o petróleo e as coisas funcionavam. Este governo não soube administrar nada”.

O país tenta entender o que começa agora. Um novo governo, uma administração estrangeira ou uma transição inédita.
