Um homem de 25 anos desenvolveu um tipo raro de epilepsia após sobreviver a uma avalanche durante uma viagem de esqui nos Alpes, em novembro de 2008.
Um homem de 25 anos desenvolveu um tipo raro de epilepsia após sobreviver a uma avalanche durante uma viagem de esqui nos Alpes, em novembro de 2008. O caso, acompanhado por neurologistas da Universidade de Munique, na Alemanha, tornou-se objeto de estudo por apresentar crises epilépticas desencadeadas especificamente por atividades de raciocínio visual, como a resolução de quebra-cabeças de Sudoku.
O jovem ficou soterrado por cerca de 15 minutos sob a neve, período em que sofreu hipóxia, condição caracterizada pela redução crítica de oxigênio nos tecidos. Ele foi resgatado por um amigo, que realizou manobras de reanimação cardiopulmonar ainda no local, antes do encaminhamento a um hospital alemão.
Sequelas neurológicas após a hipóxia
Nos dias seguintes ao acidente, o paciente passou a apresentar movimentos involuntários nas pernas durante a caminhada e espasmos na boca ao falar. Os sinais foram associados a danos cerebrais provocados pela falta de oxigênio. Após a estabilização clínica, ele foi transferido para uma clínica de reabilitação para dar continuidade ao tratamento neurológico.
Durante esse período, os sintomas motores persistiram de forma leve, mas sob acompanhamento médico contínuo, sem registros iniciais de convulsões generalizadas.
Crises começaram durante jogos de Sudoku
Foi na fase de reabilitação que os médicos identificaram um padrão incomum. Ao retomar o hábito de resolver Sudokus, atividade que apreciava antes do acidente, o jovem passou a apresentar espasmos repetidos no braço esquerdo. As crises cessavam imediatamente quando o jogo era interrompido.
A relação direta entre a atividade e os sintomas chamou a atenção da equipe médica liderada pelo neurologista Berend Feddersen, da Universidade de Munique, que decidiu aprofundar a investigação clínica.
Exames revelam hiperatividade cerebral específica
Exames de eletroencefalograma identificaram atividade epiléptica na região centroparietal direita do cérebro, área responsável pelo controle motor do braço esquerdo. Uma ressonância magnética convencional não apontou lesões estruturais evidentes, o que levou os especialistas a utilizar técnicas mais avançadas de imagem.
Durante exames de ressonância magnética funcional, realizados enquanto o paciente resolvia o Sudoku, foi observada uma ativação cerebral extensa, com maior intensidade no córtex centroparietal. Já imagens ponderadas por difusão indicaram uma redução de fibras inibitórias nessa região, favorecendo uma hiperatividade neural capaz de desencadear crises convulsivas.
Segundo o laudo médico, a hipóxia sofrida durante a avalanche foi considerada a causa mais provável da alteração nos circuitos cerebrais.
Diagnóstico de epilepsia reflexa
Com base nos achados, os médicos diagnosticaram o paciente com epilepsia reflexa, condição rara em que as crises são desencadeadas por estímulos específicos. No caso, tarefas que exigiam processamento visual e espacial complexo atuavam como gatilho.
O jovem não apresentou crises ao ler, escrever ou realizar cálculos simples. No entanto, outras atividades visuais semelhantes, como ordenar números de forma aleatória, também provocavam os episódios.
Tratamento e evolução do caso
O paciente iniciou tratamento com medicação antiepiléptica e permaneceu sem crises por mais de cinco anos, conforme relato publicado pela revista científica Live Science. A fisioterapia contribuiu para reduzir os movimentos involuntários residuais, e, como medida preventiva, ele passou a evitar jogos e tarefas que pudessem desencadear convulsões.
Embora cerca de 3,8% da população desenvolva epilepsia ao longo da vida, apenas entre 4% e 7% dos pacientes apresentam epilepsia reflexa. Há registros na literatura médica de crises associadas a jogos como Mahjong, em Taiwan, e Zipai, na China, mas este foi o primeiro caso documentado envolvendo especificamente o Sudoku.
Importância do acompanhamento médico
Para os especialistas, o caso demonstra como danos cerebrais provocados pela falta de oxigênio podem alterar circuitos neurais e transformar atividades cotidianas em fatores de risco para crises epilépticas. O relato também reforça a importância do atendimento médico imediato em situações de hipóxia e do acompanhamento neurológico prolongado para garantir qualidade de vida aos pacientes.
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