A inteligência artificial já está mudando a forma como empresas operam e deve transformar ainda mais o mercado de trabalho nos próximos anos. Para o professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e membro do IEEE, Jéferson Campos Nobre, tarefas repetitivas serão automatizadas, enquanto habilidades como pensamento crítico, criatividade e capacidade de supervisão ganharão ainda mais importância.

IA vai redefinir profissões, e não substituir trabalhadores, afirma especialista do IEEE

A inteligência artificial deixou de ser uma promessa futurista para se tornar uma realidade presente em empresas de diversos setores. Da indústria à saúde, passando pelo sistema financeiro e pela segurança da informação, a tecnologia já automatiza processos, apoia decisões estratégicas e amplia a capacidade de análise de dados.

Para Marcosiris Amorim de Oliveira Pessoa,  integrante do IEEE, a maior organização profissional técnica do mundo dedicada ao avanço da tecnologia em benefício da humanidade, que reúne mais de 420 mil membros em mais de 160 países —, a tendência é que essa transformação se intensifique nos próximos anos, alterando profundamente o perfil dos profissionais.

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“Mais do que substituir pessoas, a IA tende a redefinir funções. O diferencial competitivo estará cada vez mais na combinação entre conhecimento técnico, pensamento crítico e colaboração com sistemas inteligentes.”

Segundo o especialista, a inteligência artificial já integra a infraestrutura tecnológica de inúmeras organizações e está presente em sistemas capazes de automatizar análises, identificar padrões e apoiar decisões em tempo real.

“O que muda não é apenas a tecnologia, mas também o perfil do profissional. Haverá menos execução manual e mais capacidade de supervisionar sistemas inteligentes, formular as perguntas certas e validar criticamente os resultados”, explica.

Atividades repetitivas devem ser automatizadas

Na avaliação de Marcosiris Pessoa, as funções que envolvem processos previsíveis e repetitivos são as que apresentam maior potencial de automação.

Marcosiris Amorim de Oliveira Pessoa - Foto: Arquivo Pessoal

Marcosiris Amorim de Oliveira Pessoa – Foto: Arquivo Pessoal

Entre elas estão a triagem de chamados, análise inicial de registros (logs), digitação, conferência de dados e elaboração de relatórios padronizados.

O especialista, porém, faz um alerta: isso não significa que essas profissões desaparecerão: “As tarefas serão automatizadas, mas isso não representa o fim dessas carreiras. O que veremos é uma transformação das atividades desempenhadas pelos profissionais.”

Enquanto algumas funções tendem a perder espaço, outras devem ganhar relevância.

Especialistas em governança de dados, auditoria de algoritmos, gestão de riscos, resposta a incidentes e segurança de sistemas baseados em inteligência artificial estarão entre os profissionais mais demandados.

Além das competências técnicas, habilidades comportamentais também passam a ter peso ainda maior.

“Pensamento crítico, criatividade, comunicação, liderança e capacidade de resolver problemas complexos tornam-se diferenciais. São essas competências que permitem utilizar a IA como ferramenta de apoio, e não apenas aceitar suas respostas como verdade absoluta.”

“O desafio não é competir com a IA”

Para o IEEE Senior Member, um dos maiores equívocos é imaginar que trabalhadores precisarão competir diretamente com a inteligência artificial.

Na visão dele, esse cenário simplesmente não faz sentido.

“O maior desafio será aprender a utilizá-la. A IA consegue executar determinadas tarefas com velocidade e escala impossíveis para um ser humano. Por isso, a questão não é competir com ela, mas saber utilizá-la de forma inteligente.”

Segundo Marcosiris Pessoa, o profissional do futuro será aquele capaz de interpretar criticamente os resultados produzidos pelos modelos de IA, reconhecer seus limites e tomar decisões fundamentadas.

Na área da segurança da informação, por exemplo, uma interpretação equivocada pode gerar consequências graves.

“A produtividade não vem de delegar decisões cegamente à IA, mas de saber onde a supervisão humana continua sendo indispensável. Quanto mais avançada for a tecnologia, mais importante será o julgamento humano.”

Brasil precisa acelerar a formação de profissionais

Apesar de destacar a qualidade das universidades brasileiras, o especialista afirma que o país enfrenta dificuldades para acompanhar o ritmo acelerado das transformações tecnológicas.

Segundo ele, as instituições de ensino têm o desafio de formar profissionais preparados para aprender continuamente ao longo da carreira.

“As universidades não podem reformular seus currículos a cada novo modelo de inteligência artificial lançado. Seu papel é oferecer uma base sólida em computação, engenharia, matemática, segurança da informação e pensamento crítico.”

Para Marcosiris Pessoa, essa preparação depende da atuação conjunta entre universidades, empresas e poder público.

As empresas precisam investir na requalificação constante de seus colaboradores, enquanto o governo deve incentivar políticas públicas voltadas à capacitação profissional, ampliar parcerias entre universidades e setor produtivo e estabelecer uma regulamentação que ofereça segurança jurídica sem comprometer a inovação.

Ética e segurança precisam caminhar junto com a inovação

Embora os benefícios da inteligência artificial sejam cada vez mais evidentes, o especialista alerta que o avanço tecnológico precisa ocorrer acompanhado de responsabilidade.

Segundo ele, muitas empresas ainda tratam governança, privacidade e segurança como preocupações secundárias.

“Muitas organizações tratam a adoção da IA como uma corrida pela inovação, deixando a governança, a privacidade e a segurança para depois da implantação. Esse caminho aumenta riscos, eleva custos e compromete a confiança das pessoas.”

Na avaliação de Marcosiris Pessoa, segurança e privacidade precisam estar presentes desde a concepção dos sistemas, seguindo princípios conhecidos como security by design e privacy by design.

Isso passa pelo controle rigoroso dos dados utilizados pelos modelos, auditorias constantes para identificar vieses e garantir confiabilidade, além de transparência com os usuários afetados por decisões automatizadas: “O verdadeiro avanço da inteligência artificial não está apenas em torná-la mais inteligente, mas também mais segura, responsável e confiável.”

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