O Instituto Médico Legal (IML) do Centro do Rio de Janeiro suspendeu todos os atendimentos nesta quarta-feira (29) para priorizar a identificação das vítimas da megaoperação policial nos complexos da Penha e do Alemão, considerada a mais letal da história do país.

Segundo a Defensoria Pública do Rio, o número de mortos chegou a 132, incluindo quatro agentes de segurança.

A medida foi tomada após dezenas de corpos chegarem ao IML durante a madrugada, muitos levados por moradores das comunidades.

O Ministério Público acompanha a perícia e abriu investigação para apurar possíveis execuções.

Entidades civis e defensorias criticaram a violência da operação, batizada de “Operação Contenção”, e acusaram o governo estadual de promover ações letais e desrespeitar decisões do STF que buscam reduzir a letalidade policial.

O governador Cláudio Castro (PL) admitiu “excessos”, mas manteve o discurso de “guerra contra o crime”.

A ação mobilizou 2,5 mil agentes, apreendeu 93 fuzis e prendeu 81 suspeitos.

Agência Brasil
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O Instituto Médico Legal (IML) do Centro do Rio de Janeiro suspendeu, nesta quarta-feira (29), todos os atendimentos de rotina para concentrar-se na identificação dos corpos das vítimas da megaoperação policial realizada nos complexos da Penha e do Alemão. A ação é considerada a mais letal já registrada na história do estado.

A decisão foi tomada após a chegada de dezenas de corpos ao local durante a madrugada, muitos deles levados por moradores das comunidades. Inicialmente, a Polícia Militar havia divulgado 64 mortes nesta terça-feira (28), mas a Defensoria Pública do Rio de Janeiro afirmou nesta quarta (29) que o número real já chega a 132, incluindo quatro agentes de segurança. As forças de segurança do Rio falam em 119 mortos.

Atendimento restrito e perícia emergencial

O reconhecimento das vítimas ocorre em uma estrutura montada ao lado do IML, onde familiares aguardam desde as primeiras horas do dia.

O acesso ao prédio principal foi limitado a peritos, policiais civis e representantes do Ministério Público do Rio (MPRJ), que acompanham os exames e a coleta de material genético.

Segundo a Polícia Civil, uma força-tarefa foi criada para acelerar a identificação e cruzar os dados com registros de desaparecidos.

Casos sem relação com a operação foram transferidos para o IML de Niterói. O MPRJ também solicitou perícia independente e abriu investigação para apurar as circunstâncias das mortes e possíveis execuções.

Corpos levados por moradores e denúncias de abusos

Durante a madrugada, a Praça São Lucas, na Penha, tornou-se ponto de encontro de familiares e ativistas. Moradores relataram que dezenas de corpos foram retirados de áreas de mata e transportados em veículos particulares, muitos cobertos por lençóis e plásticos.

As cenas circularam nas redes sociais e provocaram reação de entidades civis. A Anistia Internacional Brasil classificou o episódio como “tragédia sem precedentes” e cobrou investigação independente, citando suspeitas de execuções e ocultação de cadáveres.

Críticas à violência de Estado

Em notas conjuntas, as defensorias pública estadual e da União criticaram duramente a “Operação Contenção”, afirmando que o Estado tem promovido “ações letais incompatíveis com os direitos humanos”.

“As forças de segurança não podem agir com métodos de guerra em comunidades vulneráveis. O combate ao crime deve obedecer aos limites legais”, diz o texto.

As instituições lembraram que o Supremo Tribunal Federal (STF) já havia determinado medidas para reduzir a letalidade policial, aprovando parcialmente o plano estadual de segurança apresentado em abril deste ano.

Governo mantém discurso de guerra

O governador Cláudio Castro (PL) admitiu que a operação pode ter “extrapolado limites legais”, mas justificou o caráter militar da ação, reforçando a ideia de “guerra contra o crime”.

“Estamos em uma guerra que o Estado não pode enfrentar sozinho. Talvez seja necessária ajuda das Forças Armadas”, declarou.

A fala foi criticada por organizações de direitos humanos, que afirmam que o discurso oficial legitima a violência policial e transforma as favelas em zonas de confronto permanente.

Megaoperação mobilizou 2,5 mil agentes

Batizada de “Operação Contenção”, a ação envolveu cerca de 2.500 policiais e resultou na apreensão de 93 fuzis, 200 quilos de drogas e na prisão de 81 pessoas.

Entre os detidos está Thiago do Nascimento Mendes, o Belão, apontado como operador financeiro do Comando Vermelho.

O principal alvo, Edgar Alves de Andrade, o Doca, líder da facção nos complexos da Penha e do Alemão, continua foragido.

 

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