Em uma tragédia que chocou a todos, Mykaella, de 22 anos, morreu após sofrer graves queimaduras durante uma “gira de esquerda”, um ritual de Umbanda. O acidente ocorreu quando o pai de santo, em transe, jogou álcool em uma chama, provocando uma explosão. A família da jovem, que a socorreu e a levou ao hospital, acusa o líder de imprudência e busca por justiça. A mãe da vítima lamenta a perda irreparável e pede para que rituais com fogo sejam proibidos, para evitar novas tragédias.
A morte de Mykaella César de Moraes, de 22 anos, que sofreu graves queimaduras em um terreiro de Umbanda, durante um ritual, em São Paulo (SP), em setembro de 2024, chocou o Brasil e levantou dúvidas sobre o que é mito ou verdade em rituais religiosos. O acidente fatal ocorreu durante uma “gira de esquerda”, um dos rituais mais importantes da Umbanda. A família da jovem acusa o pai de santo de imprudência e busca por justiça.
O que é uma ‘Gira de Esquerda’ na Umbanda?
Na Umbanda, as entidades “de Esquerda”, Exus, Pombas-giras e suas variações mirins, são espíritos comprometidos com a espiritualidade superior. Elas são denominadas “de Esquerda” por se localizarem à esquerda dos orixás, mas trabalham a serviço da luz, pregando perdão, lei e fé.
O ritual da Gira de Esquerda é um momento de consulta em que os médiuns manifestam as entidades de uma linha específica, mantendo um caráter de caridade e orientação espiritual.
De acordo com um líder espiritual de um terreiro localizado no interior de São Paulo, que não quis se identificar, a Umbanda não realiza rituais para “prejudicar pessoas ou amarrar alguém em algum relacionamento”.
“A religião prega a lei do retorno e o merecimento dos membros. Além disso, a denominação ‘esquerda’ não tem qualquer conotação moral, demoníaca ou política”.

Jovem morreu durante um ritual em São Paulo
Mitos sobre a ‘Gira de Esquerda’
- São espíritos maus e vingativos: na Umbanda, Exus e Pombas-giras não são considerados espíritos malignos, mas sim seres que trabalham para equilibrar energias densas, sem causar o mal;
- Fazem “trabalhos de amarração” ou vingança: a Umbanda, em sua essência, não realiza rituais para prejudicar pessoas ou para “amarrar” alguém em um relacionamento, pois a religião prega a Lei do Retorno e o merecimento.
- Pratica sacrifício de animais: a Umbanda não pratica matança de animais em seus rituais. As oferendas são compostas de elementos como frutas, velas, flores e bebidas.
- As entidades são associadas ao diabo: a associação de Exu com o diabo, presente em outras crenças, não existe na Umbanda. A denominação “Esquerda” não tem conotação moral ou demoníaca.
- Entidades de má índole, como “malandros”: o fato de alguns Exus e Pombas-giras se apresentarem com linguajar ou vestimentas específicas, não define seu caráter. Eles são espíritos que falam sobre perdão e Lei Divina.
- O ritual é só para “combater o mal”: embora lidem com energias densas, o foco da gira de esquerda não é apenas o combate ao mal. As entidades se dedicam a ouvir e orientar os consulentes em suas questões pessoais e espirituais.
- Pomba-gira é associada à promiscuidade: a Pomba-gira é uma entidade de força feminina, mas sua sensualidade não tem conotação sexual. É uma representação do empoderamento e da liberdade.
- As entidades são sujas ou desleixadas: a aparência das entidades na Gira de Esquerda é simbólica e não reflete falta de cuidado. Elas se apresentam de forma ritualística para trabalhar as energias necessárias.

Verdades sobre o ritual na Umbanda
- Trabalham a serviço da Lei Divina e da caridade: a principal função dessas entidades é oferecer orientação, limpeza espiritual e proteção, com base em princípios como ação e reação.
- As entidades têm personalidades próprias: exus e Pombas-giras se manifestam com características e formas de se expressar que os distinguem, como forma de se comunicar com os consulentes.
- Os trabalhos são feitos em dias específicos: muitos centros de Umbanda dedicam dias exclusivos para o atendimento dessas entidades, em giras onde somente elas se manifestam.
- O objetivo é a orientação e a reforma íntima: o trabalho é focado em guiar os consulentes, falar de perdão e incentivar o autoconhecimento, sem prometer milagres.
- É um dos rituais mais populares da religião: as giras de Exu e Pomba-gira são essenciais na estrutura de muitos terreiros, sendo fundamentais para a proteção espiritual e o equilíbrio energético do ambiente.
- Oferecem bebidas e fumos: é comum que as entidades da Esquerda utilizem elementos como cachaça, champanhe, charutos e cigarros em seus rituais como forma de descarregar e direcionar energias, além de facilitar a comunicação.
- A manifestação das entidades ocorre através de médiuns preparados: os médiuns que recebem essas entidades passam por um processo de doutrinação e desenvolvimento para aprender a incorporar e trabalhar com elas de forma segura.
- As entidades seguem uma hierarquia espiritual: os Exus e Pombas-giras não são espíritos sem lei. Eles trabalham sob uma hierarquia e respondem a entidades de níveis superiores e aos orixás.
Acidente fatal
O acidente que vitimou Mykaella aconteceu quando o pai de santo, Beto Silva, em transe, jogou álcool em um vaso de barro com uma labareda, causando uma explosão que atingiu a jovem. Ela sofreu queimaduras em 75% do corpo e, após 15 dias de internação, não resistiu aos ferimentos e faleceu. A família acusa o pai de santo de imprudência e busca por justiça.
A mãe de Mykaella relatou o momento angustiante:
“Houve uma explosão e o fogo atingiu minha filha. Eu só pude abraçá-la e pedir socorro.”
O pai da vítima, Sérgio, reforçou a indignação. “O pai de santo agiu com imprudência e deve ser responsabilizado”, afirmou.
A família registrou um boletim de ocorrência na Polícia Civil e aguarda o andamento da investigação.
“Nada vai trazer minha filha de volta, mas é necessário que haja justiça. Eles não podem ficar impunes.”