Em Campinas, no interior de São Paulo, as mães solo Thaillis Paula Valvassouri da Silva e Juliana Cristina Trindade de Souza reconstruíram suas vidas por meio de projetos sociais voltados à inclusão produtiva. Thaillis criou a marca de roupas plus size, enquanto Juliana comanda um salão, especializado em beleza afro. Ambas conciliam maternidade e negócios sem rede de apoio, mostrando que, com capacitação, microcrédito e suporte psicossocial, é possível romper ciclos de vulnerabilidade e construir um futuro melhor para seus filhos e comunidades.

Mulheres que sustentam a casa: força e resiliência na base da pirâmide social
Mulheres que sustentam a casa: força e resiliência na base da pirâmide social

Ser mulher, mãe e provedora não é tarefa simples — sobretudo para quem pertence às classes C e D e enfrenta a falta de rede de apoio, a sobrecarga de tarefas e as dificuldades financeiras que o cenário impõe. No Brasil, segundo dados do IBGE, cerca de 11 milhões de mulheres criam os filhos sozinhas. Por trás dos números, existem histórias de luta, coragem e empreendedorismo que se erguem, muitas vezes, a partir do nada.

Em Campinas, no interior de São Paulo, duas mulheres se destacam como exemplos dessa resistência: Thaillis Paula Valvassouri da Silva, 37 anos, e Juliana Cristina Trindade de Souza, 36. Elas são mães solo que deram a volta por cima com auxilio de projetos sociais como o de inclusão produtiva da Fundação FEAC, que atua no fortalecimento de empreendedoras em situação de vulnerabilidade.

Empreender para ressignificar a própria história

A Gata Mimada nasceu da minha dor, mas também da minha força. Empreendo pelos meus filhos e meu propósito é transformar o olhar de cada cliente diante do espelho, celebrando corpos reais, especialmente do manequim 46 ao 52”, afirma Thaillis, mãe de Thailla, 12, e Bryan, 4.

Moradora do bairro Novo Campos Elíseos, periferia de Campinas, ela vende roupas midsize e plus size em uma sala comercial e pelas redes sociais, após anos de tentativas, fechamentos e recomeços, ela conseguiu dar a volta por cima. Sem rede de apoio, organiza os atendimentos com hora marcada para conciliar o trabalho com os cuidados dos filhos.

“Já abri e fechei lojas várias vezes até entender o que realmente queria. Hoje, faço meus horários e consigo trabalhar com meus filhos por perto. É difícil ser a provedora, você se coloca por último, mas quando faz o que gosta com propósito, Deus prepara coisas incríveis”, afirma.

Segundo a analista de projetos da área de Inclusão Produtiva da Fundação FEAC, Belisa Gaudereto, projetos sociais voltados às mães solo são “mecanismos de reparação estrutural”.

“Eles oferecem capital semente, microcrédito e capacitação, promovendo autonomia econômica e enfrentando desigualdades históricas de gênero. A maternidade solo é marcada por sobrecarga e ausência de redes de apoio, por isso é essencial articular geração de renda com cuidado, proteção social e valorização dos saberes dessas mulheres”, explica.

É também o caso de Juliana Cristina Trindade, mãe solo de cinco filhos — Lorena Amélie (12), Lorenzo Uriah (10), Benjamim (7), Bella Elisa (4) e Ayla Mavie (1) — que hoje comanda o Stúdio Nega Ju, especializado em beleza afro, no Jardim Dom Gilberto.

No caso dela, a paixão por tranças surgiu na infância e virou profissão. Começou trançando os cabelos das irmãs, depois das amigas, e, com o tempo, criou um negócio reconhecido em toda a cidade. Sua equipe é formada exclusivamente por mulheres negras microempreendedoras. Ela conta que quando começou a atender as clientes na sala de casa gerava incômodo no então companheiro.

No entanto, foi através desse trabalho que teve acesso a mentorias, psicoterapia e capital semente. “Percebi que repetia o ciclo da minha mãe, também mãe solo, que se relacionava com homens tóxicos. Com apoio das psicólogas e das minhas clientes, saí de um relacionamento abusivo e decidi criar meus filhos sozinha. Hoje, entendo que foi a melhor escolha”, diz.

Além de manter o estúdio, Juliana ministra cursos de tranças e se especializa em cortes para cabelos com curvatura e penteados para eventos. “Hoje sou mais feliz. Meus filhos não veem brigas. Tenho paz, consigo pagar alimentação, levá-los ao atletismo, e eles estão sempre comigo nos eventos afros.”

Belisa destaca que muitas dessas mulheres enfrentam violência doméstica e múltiplas camadas de vulnerabilidade: pobreza, racismo, violência e falta de acesso a políticas públicas. Para romper o ciclo, é preciso um ecossistema que una suporte psicossocial, formação técnica, crédito e mentorias, respeitando o tempo e a realidade de cada uma. “Não é só sobre dar recursos, mas sobre construir trajetórias”, diz.

Criando futuro

As histórias de Thaillis e Juliana mostram que, mesmo sem formação acadêmica formal ou rede de apoio, é possível reconstruir a vida e garantir um futuro melhor para os filhos. Elas também escancaram os desafios que persistem: conciliar trabalho e maternidade, lidar com o medo da instabilidade e romper o isolamento social.

Ao investir em mulheres que sustentam suas casas, projetos como os da FEAC ajudam a transformar não apenas a vida dessas mães, mas também a realidade das comunidades onde vivem. São iniciativas que fazem o ciclo da pobreza dar lugar a um ciclo de potência — um legado que se multiplica, de mãe para filho, de mulher para mulher.

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