Em meio à sequência de casos de envenenamento que chocaram o país, a psicóloga Sthepanie Rocha analisa os fatores emocionais que levam alguém a cometer esse tipo de crime. Segundo ela, o envenenamento é um ato calculado, motivado por sentimentos como vingança e desejo de poder, e raramente fruto da impulsividade.

O que leva alguém a envenenar outra pessoa: psicóloga explica a mente por trás do crime

A série de casos de envenenamento registrados nas últimas semanas no Brasil voltou a chamar atenção para um tipo de crime silencioso, mas profundamente calculado. Ao contrário de agressões cometidas por impulso, o envenenamento exige planejamento, paciência e frieza — características que revelam um perfil psicológico distinto.

Segundo a psicóloga Sthepanie Rocha, esse tipo de ato está ligado a emoções intensas, porém reprimidas.

“O envenenamento é um ato premeditado e calculado, diferente de agressões impulsivas. Está ligado a raiva acumulada, ressentimento ou desejo de punição. São emoções transformadas em um comportamento estratégico, planejado para causar dano sem confronto direto”, explica.

A especialista destaca que muitas vezes o autor do crime constrói justificativas internas para minimizar a culpa. “Essas pessoas podem ter frustrações pessoais, dificuldade em lidar com conflitos e um sentimento de impotência, que as leva a buscar controle sobre o outro por meio do ato”, acrescenta.

Apesar de não haver um perfil único, Sthepanie aponta algumas semelhanças entre os casos:

“É comum observar planejamento, frieza emocional e uma aparência socialmente adaptada. Em alguns, aparecem traços de narcisismo ou comportamento antissocial, mas isso não é regra. Situações de ciúmes intensos, relações conflituosas ou prolongadas também podem servir como gatilhos.”

Entre as principais motivações estão a vingança e o desejo de controle.

“O envenenamento permite causar dano de forma silenciosa e planejada, reforçando a sensação de poder. É um comportamento deliberado e consciente, que envolve avaliação de riscos. A impulsividade, nesse caso, praticamente não existe”, conclui a psicóloga.

Alguns casos de envenenamento no Brasil:

1. Família envenenada em Torres (RS)

Em dezembro de 2024, três pessoas de uma mesma família morreram no município de Torres, no Rio Grande do Sul, após consumirem um bolo contaminado com arsênio.
A investigação concluiu que a nora da mulher que preparou o bolo, identificada como Deise de Moura dos Anjos, teria envenenado e matado quatro pessoas (quatro membros da família) entre 2024 e início de 2025, sendo três em dezembro do bolo com arsênio e uma anteriormente.

O caso ganhou repercussão nacional como “caso da família dos Anjos”, pela natureza fria, premeditada e silenciosa do crime. Essa frieza — manipulação de alimento, escolha de veneno, ocultação da ação — conecta-se diretamente com o perfil psicológico descrito pela psicóloga Sthepanie Rocha (planejamento, controle).

Esse incidente é emblemático porque combina domicílio/família, vítima próxima, alimento contaminado, e uso de substância química letal (arsênio) — o que exige perícia especializada, exame toxicológico e investigação complexa.

2. Ceia de Réveillon adulterada em Parnaíba (PI)

No início de 2025 — em janeiro — ocorreu um caso grave em Parnaíba, no Piauí: uma refeição de Réveillon adulterada com inseticida (terbufós) deixou nove pessoas intoxicadas, das quais cinco morreram — entre elas um bebê com menos de dois anos. No laudo do Instituto Médico-Legal, foi identificado o inseticida terbufós no “baião de dois” consumido pelas vítimas.

Trata-se de um crime de alto grau de premeditação: a refeição conjunta de celebração foi o veículo do envenenamento, o que mostra planejamento (seleção da vítima ou grupo), escolha da substância e contexto de aprovação social (uma ceia). O dano foi coletivo, atingindo várias pessoas.

Esse tipo de crime, quando envolve alimento coletivo, agrava ainda mais o risco de vítimas secundárias, o que exige investigação policial, sanitária e toxicológica robusta.

3. Envenenamento de crianças em Imperatriz (MA)

Ainda em 2025, no mês de abril, duas crianças morreram após consumirem um ovo de Páscoa envenenado em Imperatriz, Maranhão. A mãe das crianças também acabou hospitalizada.

Esse caso reforça a característica de que os autores muitas vezes escolhem alitimentos ou alimentos “presentes” — algo que inspira confiança na vítima — para ocultar a ação criminosa. A psicóloga Sthepanie destacou que o envenenamento frequentemente surge de uma situação de controle ou desejo de poder, e não de impulsividade.

4. Bebê de 8 meses morta em Natal (RN) por açaí contaminado

Também em abril de 2025, em Natal, Rio Grande do Norte, um açaí entregue em domicílio resultou na morte de uma bebê de 8 meses e deixou uma mulher em estado grave.

Novamente, chama atenção o veículo de envenenamento: alimento com entrega em domicílio, contexto de confiança, vítima vulnerável (bebê). Isso evidencia a frieza e o planejamento envolvidos.

5. Panorama nacional mais amplo

Os dados mais recentes do Ministério da Saúde e de entidades de saúde mostram que o envenenamento criminoso no Brasil atinge níveis recordes: no primeiro semestre de 2025 foram registrados 560 casos de envenenamento destinados por terceiros (intencionais), com 15 mortes. Isso representa um aumento de cerca de 9% em relação ao mesmo período de 2024. 
Entre 2009 e 2024 foram realizadas 45.511 internações por envenenamento que exigiram hospitalização. Deste total, 3.461 foram classificada como intoxicação proposital por terceiros.

A distribuição por região mostra que o Sudeste concentra quase metade dos casos, com o estado de São Paulo liderando (10.161 registros em 10 anos) seguido por Minas Gerais (6.154).

O perfil das vítimas revela que homens são maioria (23.796 casos entre 2009-24) e que os grupos etários mais atingidos são adultos jovens de 20 a 29 anos (7.313 casos) e crianças de 1 a 4 anos (7.204 casos).

As substâncias mais comuns envolvidas em envenenamentos (em geral, acidentais ou indeterminados) incluem: medicamentos/drogas, produtos químicos não especificados, pesticidas.

Especialistas alertam que a facilidade de acesso a substâncias tóxicas, a fiscalização precária, e o uso de venenos em contextos íntimos (família, relação próxima) são fatores que facilitam esse tipo de crime.

Leia mais:

Vídeos curtos

Mais lidas