Luiz Bacci relata os últimos dez dias de Erlan Bastos e critica o descaso da saúde no Amapá, onde o jornalista não conseguiu exames básicos. Bacci destaca a evolução de Erlan, que superou um passado difícil e amadureceu na profissão, despedindo-se com serenidade.
Por Luiz Bacci
Era 6 de janeiro, e eu já estava mergulhado em um sono profundo quando a primeira mensagem de Erlan chegou, um pedido de ajuda que ecoou como um alarme: “Estou com suspeita de câncer no intestino.”
Aquelas palavras me apertaram o coração e trouxeram uma estranheza que só um amigo pode provocar. Havia conversado com ele apenas dez dias antes, no Natal, e ele parecia tão bem, tão cheio de vida.
“Estou com abdômen completamente desatendido. Vou te passar laudo”, escreveu. A partir desse momento, meu conhecimento, herdado de um pai médico, me disse que o caso era gravíssimo. Uma previsão que eu tentava ignorar, mas que se impunha: ele não sobreviveria por muito tempo. Durou apenas dez dias.
Conheci Erlan há cerca de 15 anos, através de uma reportagem de Ricardo Feltrin. No início, éramos como estranhos em lados opostos de um conflito, desentendendo-nos frequentemente. Mas a vida, com suas reviravoltas, nos uniu. Ele era um apaixonado pela comunicação, e essa paixão o levava a ultrapassar limites. Um jovem ambicioso, que, por vezes, confundia a informação com a invasão da privacidade alheia. Nos últimos anos, amigos conseguiram ajudá-lo a se tornar uma pessoa melhor, e ele começou a aprender que a dor do passado não precisava se refletir em seus textos. Havia um novo Erlan, mais maduro, mais consciente.
No dia seguinte ao seu desabafo sobre a doença, Erlan me contou sobre sua saga para conseguir uma colonoscopia em Macapá, onde estava morando e trabalhando.
“É um exame simples, mas só três profissionais no estado fazem. Um se acidentou, outro entrou de férias e o que sobrou está sobrecarregado.”
A precariedade do sistema de saúde local me deixou estarrecido, e ele, internado no Hospital das Clínicas da cidade, desabafava sobre o descaso: “Nenhum oncologista nunca falou comigo.”
Conversamos longamente, e juntos buscamos uma saída. A conclusão que chegamos foi que o melhor seria ele ir para Teresina, onde poderia contar com o apoio da família. A doença havia se espalhado por todo o corpo, e a viagem se tornou uma despedida. Vi Erlan aos 32 anos partindo, muito cedo, e a cada mensagem nos últimos dias, os sinais vitais que antes estavam estáveis começaram a piorar.
Ele falava pouco, mas sempre com uma fé silenciosa. “Confie que Deus fará o melhor”, eu dizia, enquanto dedicava minhas orações a ele.
Pelo menos por mensagens, Erlan me parecia sereno. Parecia até anestesiado com sua situação.
Erlan, como muitos jornalistas que cobrem celebridades, era uma fonte riquíssima de informações. Nos últimos anos, amadureceu e passou a entender a responsabilidade que seu trabalho carregava. Lembro bem de um episódio há um ano, quando ele teve acesso a um vídeo comprometedor de um casal de apresentadores de TV com uma outra mulher. Ele me ligou, inseguro: “O que eu faço com isso?” Sem hesitar, eu disse: “O Erlan de hoje não faria o que o do passado faria, certo?” Ele concordou, decidiu descartar o material, e até onde sei, o caso nunca se tornou público.
Por trás daquela imagem de um jovem cheio de sonhos e erros, havia um coração enorme, que defendia os amigos e buscava acertar. Erlan, que a vida lhe foi tão dura, agora se despede de nós. Que Deus o receba de braços abertos e conforte o coração da família neste momento de dor.
Veja últimas mensagens trocadas com Erlan




