Especialistas alertam que a soltura de balões representa um grave risco para a aviação, principalmente durante pousos e decolagens. Dados do Cenipa apontam mais de 2 mil ocorrências envolvendo balões em operações aéreas no Brasil em 2024.
Enquanto as festas juninas movimentam cidades em todo o país, uma prática considerada tradicional continua gerando preocupação entre autoridades aeronáuticas: a soltura de balões. O que para muitos representa uma manifestação cultural pode se transformar em uma ameaça real para aeronaves, especialmente nas fases mais críticas do voo.

Em 2022, um balão caiu sobre um avião da Gol, no Aeroporto de Guarulhos – Foto: Reprodução/Redes Sociais
Dados do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa) mostram que mais de 2 mil ocorrências de interferência de balões em operações aéreas foram registradas no Brasil ao longo de 2024, com destaque para os estados de São Paulo e Rio de Janeiro.
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O aumento das ocorrências levou o Ministério de Portos e Aeroportos, a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) e outros órgãos do setor a reforçarem campanhas de conscientização sobre os riscos da prática.
Colisão pode ter consequências catastróficas
O coordenador do curso de Aviação Civil da Universidade Anhembi Morumbi, Alexandre Faro, afirma que os balões atuais apresentam um perigo ainda maior devido ao tamanho das estruturas.

Alexandre Faro – Foto: Arquivo Pessoal
Segundo ele, durante as fases de aproximação, pouso e decolagem, os aviões voam em altitudes mais baixas, aumentando significativamente as chances de encontro com balões.
“Os balões que têm sido soltos ultimamente são de proporções gigantescas. O risco é mais crítico porque o avião está mais baixo e pode encontrar esses balões com mais facilidade”, explica.
Faro alerta que o problema não está apenas no envelope de papel. Na parte inferior dos balões há estruturas responsáveis por sustentar a chama, frequentemente compostas por materiais metálicos.
“Se essa estrutura atingir o para-brisa ou entrar no motor, a possibilidade de o avião cair é muito grande”, afirma.
O especialista em Aviação Elétrica, Inovação Aeronáutica e Segurança Operacional José Carlos Más reforça que essas fases do voo já são naturalmente as mais sensíveis.

José Carlos Más – Foto: Arquivo pessoal
“As fases de aproximação, pouso e decolagem são consideradas as mais críticas de qualquer voo, pois a aeronave está em baixa altitude, próxima ao solo e com menor margem para manobras evasivas”, destaca.
Motores, asas e para-brisas estão entre os alvos mais vulneráveis
Os especialistas explicam que praticamente qualquer ponto da aeronave pode sofrer danos em uma colisão com um balão. Caso a estrutura seja sugada por uma turbina, arames, fios metálicos e outros materiais utilizados na construção podem provocar danos internos ao motor, comprometendo seu funcionamento.
Já um impacto contra o para-brisa pode prejudicar a visibilidade da cabine e até provocar rachaduras na estrutura. “As consequências podem variar desde danos leves até situações extremamente graves”, afirma Más.
Alexandre Faro acrescenta que as asas também merecem atenção especial. Além de armazenarem combustível, elas abrigam importantes superfícies de controle do voo.
“Se qualquer um desses componentes for atingido pelo balão, pode haver dano e prejuízo à controlabilidade do avião”, alerta. Segundo ele, uma colisão em qualquer parte da aeronave tem potencial para desencadear uma situação crítica.
Pilotos têm pouca margem para desviar
Embora muitos imaginem que basta o piloto mudar de direção para evitar um balão, a realidade operacional é muito mais complexa. Durante pousos e decolagens, as aeronaves seguem procedimentos rígidos definidos para garantir a separação segura entre outros aviões e obstáculos.
“O piloto não pode simplesmente pegar o avião e fazer uma manobra para a direita ou para a esquerda. Ele precisa pedir autorização ao controle”, explica Faro.
José Más acrescenta ainda que muitos balões são avistados apenas quando já estão muito próximos da aeronave. “Isso reduz drasticamente o tempo disponível para reação”, afirma.
A situação pode se tornar ainda mais perigosa durante a noite ou em condições meteorológicas adversas, como nevoeiro ou baixa visibilidade.
Impactos vão além do risco de acidente
Quando um balão é avistado próximo à trajetória de uma aeronave, uma série de medidas pode ser necessária para preservar a segurança operacional. Dependendo da situação, pilotos podem interromper aproximações, realizar arremetidas, alterar rotas ou mudar níveis de voo.
Essas decisões afetam não apenas a aeronave envolvida, mas toda a malha aérea da região.
“Um único balão pode afetar a segurança de diversas operações simultaneamente”, destaca Más.
Os impactos incluem atrasos, aumento do consumo de combustível, reprogramação de voos e possíveis restrições temporárias em aeroportos. Os números registrados em aeroportos brasileiros mostram a dimensão do problema.
No Aeroporto Internacional de Viracopos, em Campinas, foram contabilizados 116 avistamentos de balões e 18 quedas em 2025. Apenas nos quatro primeiros meses de 2026, já haviam sido registrados 47 avistamentos e uma queda dentro do complexo aeroportuário.
Em Guarulhos, maior aeroporto do país, foram registrados 58 eventos envolvendo balões entre 2024 e o primeiro semestre de 2025, incluindo uma colisão. Dois casos foram classificados com potencial impacto direto para a segurança operacional.
Já no Aeroporto Santos Dumont, no Rio de Janeiro, ocorreram 103 avistamentos apenas entre janeiro e junho de 2025.
Junho e julho concentram mais ocorrências
Segundo dados do Ministério de Portos e Aeroportos, existe um padrão sazonal claro nos registros de balões.
Os meses de junho e julho concentram o maior número de ocorrências devido às festas juninas, enquanto um segundo pico costuma ocorrer entre novembro e dezembro. As regiões metropolitanas de São Paulo e Rio de Janeiro lideram as estatísticas.
Somente no Aeroporto Internacional Tom Jobim (Galeão), no Rio de Janeiro, foram recolhidos 26 balões na área operacional ao longo de 2025, número equivalente a quase todo o volume registrado no ano anterior.
Crime previsto na legislação
Além dos riscos à aviação, a soltura de balões é proibida pela legislação brasileira.
A prática pode ser enquadrada na Lei de Crimes Ambientais (Lei 9.605/1998) e, dependendo das circunstâncias, também no artigo 261 do Código Penal, que trata do atentado contra a segurança do transporte aéreo.

Para Alexandre Faro, a conscientização da população é fundamental. “Imagine um avião com 200 pessoas a bordo colidindo com um balão, pegando fogo na turbina e caindo. Seria uma catástrofe provocada por algo plenamente evitável”, afirma.
Além da ameaça aos voos, os balões também podem provocar incêndios em áreas de mata, indústrias, residências e instalações comerciais.
Segurança depende da prevenção
Com o crescimento da aviação brasileira e o aumento da movimentação nos aeroportos, especialistas defendem que o combate à soltura de balões deve ser tratado como uma questão de segurança pública e operacional.
Para José Carlos Más, não existe balão inofensivo quando o assunto é aviação. “Uma estrutura não controlada voando em espaço aéreo utilizado por aeronaves representa um risco permanente”, conclui.
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