Em entrevista ao À Deriva Podcast, o pichador Jepa One afirmou que a pichação é uma forma de jovens da periferia ocuparem espaços negados pela desigualdade. Ele defendeu a prática como expressão artística ligada ao hip hop e ao grafite brasileiro.

Jepa One fala sobre movimento da pichação (Foto: @insallubre)
Jepa One fala sobre movimento da pichação (Foto: @insallubre)

Entre movimento artístico e infração penal, a pichação segue sendo tema para debate no Brasil, onde ela é facilmente percebida principalmente em regiões periféricas dos grandes centros. Em entrevista ao À Deriva Podcast, o pichador Jepa One, de 26 anos, morador da Zona Leste de São Paulo, contou sua história na vanguarda e as interpretações sobre a representatividade das comunidades nela.

Para o pichador, jovens que crescem em regiões periféricas se enxergam como incapazes de “ocupar certos lugares”, abrindo um precedente para carimbar sua presença de forma a ser percebida pela sociedade com a popular tag, expressão utilizada para identificar a assinatura estilizada de um artista urbano.

“A gente não tem como ocupar certos lugares, e a gente vai ocupar com a pichação, com a nossa arte, com a estética que vem da periferia. (…) A pichação é o grafite brasileiro, quem não entende isso, é porque tá fora do movimento do hip hop, do grafite”, declarou Jepa.

Pichação da tag 'KTASTROF' (Foto: Reprodução / Redes Sociais)

Pichação da tag ‘KTASTROF’ (Foto: Reprodução / Redes Sociais)

Pichação enxergada como ‘estética de periferia’

O pichador, que atualmente ganha a vida trabalhando como alpinista industrial, contou que conheceu o movimento através do grafite. Depois de estudar a arte originária da cultura hip hop, cuja origem está atrelada principalmente à década de 1970, em Nova Iorque, passou a praticar a pichação por volta de 2015, por ser mais acessível.

Jepa ainda comentou a percepção do público sobre o movimento ser ou não arte.

“Elas estão bem juntas [pichação e grafite], vai do lado individual de cada um, tem cara que você vai encontrar no movimento que vai falar ‘a pichação não é arte, é vandalismo’, só que hoje, a pichação está dentro do museu, ela ocupa esses lugares, tiveram nomes na pichação que fizeram total diferença pra isso, pra hoje a pichação ser levada para a Europa, para os Estados Unidos, ser vista lá fora”, contou.

KTASTROF

Atualmente, Jepa One assina o letreiro “KTASTROF”, analogia para a palavra “catástrofe”, como uma crítica social estampada nas alturas dos prédios, e também no vandal, estilo feito ilegalmente, sem a permissão do proprietário da superfície, mas que pode ser encontrado em lugares de mais fácil acesso.

Para ele, a pichação não é valorizada no Brasil pelo excesso, diferente da forma como é enxergada em outros países.

"Vivemos uma KTASTROF social", diz o pixo (Foto: Reprodução / Redes Sociais)

“Vivemos uma KTASTROF social”, diz o pixo (Foto: Reprodução / Redes Sociais)

“Aqui tem muita [pichação] e é saturada, então o pessoal não dá valor, mas quando é visto de outros olhares, eles vão atrás do conceito, não atrás de beleza, porque já está em outro patamar, não é mais a pintura realista, é do conceito que isso carrega: da onde veio, quem são eles, por que fazem”, concluiu Jepa.

Apesar da visão romantizada do autor em decorrência da convivência e cultura histórica, a pichação é configurada como infração penal no Brasil, tipificada como crime ambiental no Art. 65 da Lei nº 9.605/98, com pena prevista de três meses a um ano de detenção, podendo conter agravante em caso de prática contra patrimônios tombados.

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