O relatório final do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa), divulgado nesta quinta-feira (23), trouxe novos detalhes sobre a queda do voo 2283 da Voepass, que matou 62 pessoas em Vinhedo (SP), em agosto de 2024. Entre as conclusões, a investigação aponta que os pilotos conversavam sobre assuntos pessoais durante parte do voo e cita o “esquecimento” do sistema de degelo, mesmo após alertas emitidos pela aeronave.

Foto: Reprodução.
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O relatório final do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa), divulgado nesta quinta-feira (23), trouxe novos detalhes sobre a queda do voo 2283 da Voepass, que matou 62 pessoas em Vinhedo (SP), em agosto de 2024. Entre as conclusões, a investigação aponta que os pilotos conversavam sobre assuntos pessoais durante parte do voo e cita o “esquecimento” do sistema de degelo, mesmo após alertas emitidos pela aeronave.

Relatório final do Cenipa detalha fatores investigados na queda do voo 2283 da Voepass. Foto: Reprodução.

Segundo o tenente-coronel Paulo Mendes Fróes, responsável pela apresentação do relatório, o avião acionou diversas vezes o alerta electronic ice detector, que indica condições favoráveis para formação de gelo e exige procedimentos específicos da tripulação, como a alteração da velocidade e o acionamento do sistema de degelo.

Cabine registrou conversas pessoais

De acordo com o Cenipa, durante grande parte da gravação da caixa-preta, o comandante Danilo Romano e o copiloto Humberto de Campos Alencar e Silva conversavam sobre assuntos pessoais.

“Há uma grande parte das gravações que os dois pilotos estão conversando sobre assuntos pessoais”, afirmou o tenente-coronel Paulo Mendes Fróes.

Às 13h11, quando a aeronave emitiu o quarto alerta de formação de gelo, o copiloto comentou que havia “esquecido” de ligar o sistema de degelo.

“Então, o comandante comentou que ele poderia ligar todos os sistemas de de-icing. O copiloto, então, questiona o que o comandante teria dito. E o comandante respondeu que já tinha ligado todos os sistemas de de-icing. Porém, o sistema permaneceu desligado”, disse Fróes.

Na quinta detecção de gelo, cerca de um minuto depois, os pilotos voltaram a conversar sobre assuntos particulares, segundo o relatório.

Treinamento não foi suficiente

O Cenipa afirmou que, embora ambos tivessem recebido os treinamentos obrigatórios para operar a aeronave em condições severas de formação de gelo, a atuação observada durante o voo não foi compatível com o nível esperado de proficiência.

“Embora os tripulantes tivessem sido submetidos aos treinamentos exigidos, as ações observadas durante o voo do acidente não se mostraram condizentes com o nível mínimo de proficiência desejado”, destacou Fróes.

O relatório também aponta que o comandante enfrentava problemas pessoais que poderiam ter afetado seu desempenho operacional. Apesar disso, tanto essa condição quanto a conduta da tripulação foram classificadas como fatores indeterminados, ou seja, não é possível afirmar que tenham sido determinantes para o acidente.

Investigação identificou 19 fatores

Durante quase dois anos de investigação, o Cenipa analisou as caixas-pretas, realizou testes em simuladores, examinou os motores, o sistema de degelo, documentos de manutenção, certificados médicos dos pilotos e mais de 15 mil voos de aeronaves do mesmo modelo.

Ao todo, o órgão identificou 19 fatores contribuintes para o acidente, reforçando que a investigação tem caráter exclusivamente preventivo e não aponta culpados nem define responsabilidades civis ou criminais.

Viúva do copiloto defende tripulação

Após a divulgação do relatório, Rosana Maria Ferreira, viúva do copiloto Humberto de Campos Alencar e Silva, afirmou que as conversas pessoais registradas na cabine não significam negligência.

“O que eles relataram é que eles estavam conversando sobre assuntos particulares exatamente quando estava pilotando, o que é extremamente normal. Os pilotos não falam só de aviação, só da parte técnica do voo”, disse.

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Ela também destacou que representantes do próprio Cenipa afirmaram à família que os pilotos fizeram tudo o que era possível diante da situação.

“Recebi com muito carinho a fala de que o meu marido fez o que tinha de ter feito. Tudo o que poderia ter feito, ele fez. Só isso já ameniza, já bate o veredito final. Não, ele não teve culpa.”

PF ainda investiga possível responsabilidade criminal

Enquanto o relatório técnico do Cenipa é concluído, a Polícia Federal segue na fase final do inquérito criminal que apura possíveis responsabilidades pela tragédia.

A expectativa é que o caso seja encaminhado ao Ministério Público Federal (MPF), que decidirá sobre eventuais indiciamentos. Paralelamente, familiares das vítimas preparam uma ação coletiva por danos morais contra empresas e pessoas que possam ter contribuído para o acidente.

O voo 2283 caiu em 9 de agosto de 2024, quando fazia a rota entre Cascavel (PR) e o Aeroporto Internacional de Guarulhos (SP). As 62 pessoas a bordo morreram. O acidente foi o mais grave da aviação brasileira desde o desastre com o voo da TAM, em 2007.

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