O aumento de relatos envolvendo jovens atletas e pessoas aparentemente saudáveis vítimas de mal súbito tem gerado preocupação. Para esclarecer as principais dúvidas, o BacciNotícias ouviu o cardiologista Dr. Eugênio Moraes, médico formado pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, membro do corpo clínico do Hospital Sírio-Libanês, com especialização em Cardiologia e doutorado pelo Instituto do Coração (InCor).

Reprodução / Freepik
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O aumento de relatos envolvendo jovens atletas e pessoas aparentemente saudáveis vítimas de mal súbito tem gerado preocupação. Para esclarecer as principais dúvidas, o BacciNotícias ouviu o cardiologista Dr. Eugênio Moraes, médico formado pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, membro do corpo clínico do Hospital Sírio-Libanês, com especialização em Cardiologia e doutorado pelo Instituto do Coração (InCor).

Diferença entre mal súbito e morte súbita

“Mal súbito é um termo popular, genérico. Na medicina, em geral, estamos falando de morte súbita”, explica o especialista.

Segundo ele, trata-se de uma morte natural e inesperada, geralmente de provável causa cardíaca, que ocorre em até uma hora após o início dos sintomas ou em até 24 horas quando não há testemunhas.

Apesar disso, o médico reforça que nem todo caso tem origem no coração. Dissecção de aorta, tromboembolismo pulmonar, acidente vascular cerebral hemorrágico, epilepsia, traumas e anafilaxia também podem provocar morte súbita. Ainda assim, em jovens aparentemente saudáveis, as causas cardíacas são as mais frequentes, muitas vezes relacionadas a alterações elétricas ou doenças genéticas.

Sensação de aumento em 2026

Questionado sobre a percepção de que os casos estariam mais frequentes em 2026, o cardiologista pondera que essa sensação de aumento costuma ter três explicações principais, segundo análises europeias:

“Maior exposição midiática e redes sociais, maior participação em esportes competitivos e amadores, e uma melhor notificação e investigação pós-morte, porque hoje em 2026, temos como, nas autópsias, fazer testes moleculares que fazem diagnósticos de doenças que previamente a gente não conseguia fazer”, destacou o especialista.

Ele destaca que as estimativas internacionais apontam que a incidência anual de morte súbita em jovens atletas permanece relativamente estável nas últimas décadas, variando entre um e três casos a cada 100 mil atletas por ano. Até o momento, não há evidência epidemiológica robusta que demonstre aumento populacional significativo.

Fatores externos e evidências científicas

Segundo o médico, pode haver relação com miocardite pós-viral, inflamação do músculo cardíaco que pode evoluir de forma pouco sintomática e aumentar o risco de arritmias graves.

“O uso indevido de anabolizantes ou estimulantes ilícitos também aumenta a chance de mal súbito. Eles prejudicam, aumentam a chance de mal súbito e disturbam os hidroeletrolíticos, por exemplo, por suplementação inadequada”, afirmou.

Cardiomiopatia hipertrófica pode ser silenciosa

“A grande maioria das vezes ela é silenciosa. E quais são os sinais de alerta que não podem ser ignorados? É desmaio durante o esforço,  isso não pode ser ignorado. Quase desmaio ou tontura frequente no treino, dor torácica que é desproporcional ao esforço que você fez”, alertou o cardiologista ao falar sobre a cardiomiopatia hipertrófica.

A doença pode evoluir lentamente, com poucos sintomas iniciais, o que dificulta a identificação precoce. Entre os sinais de alerta que não devem ser ignorados estão desmaio durante esforço físico, tontura frequente no treino, dor no peito desproporcional, falta de ar inesperada e palpitações associadas a mal-estar.

O especialista reforça que a síncope durante atividade física é um sinal vermelho absoluto e deve ser investigado. O histórico familiar de morte súbita também é determinante.

Ansiedade ou arritmia genética?

Diferenciar palpitação causada por ansiedade de uma arritmia genética grave pode ser desafiador.

“A ansiedade costuma iniciar gradualmente e pode melhorar com distração”, explicou.

Já as arritmias genéticas surgem de forma abrupta, frequentemente acompanhadas de desmaio, dor no peito ou falta de ar, podendo ocorrer inclusive em repouso ou durante o sono.

Um exemplo é a Síndrome de Brugada, que pode desencadear fibrilação ventricular, arritmia grave que impede a contração eficaz do coração e interrompe a circulação sanguínea.

O que acontece nos casos em repouso

Nos jovens que morrem em repouso, o especialista aponta como causa mais comum as canalopatias, doenças genéticas que afetam os canais elétricos das células cardíacas.

Nesses casos, pode ocorrer taquicardia ventricular ou fibrilação ventricular. Como não há contração eficaz do músculo cardíaco, o sangue deixa de circular adequadamente, levando à parada cardíaca.

“Não é que o coração cansa. Ele entra em uma arritmia elétrica grave”, explicou.

A importância do eletrocardiograma

Mesmo jovens com bom condicionamento físico não estão livres de risco. Segundo o especialista, o eletrocardiograma (ECG) pode identificar alterações compatíveis com Brugada, cardiomiopatias e síndrome de Wolff-Parkinson-White. Para quem pratica atividade física regular ou pretende se tornar atleta, o exame funciona como ferramenta essencial de triagem.

“O eletrocardiograma é um exame simples, barato e pode salvar vidas. Em especial os que pretendem praticar atividade física ou se tornar atletas”, destacou.

Histórico familiar é determinante

Casos de morte súbita antes dos 50 anos, infarto fulminante inexplicado, afogamentos sem causa clara, acidentes sem explicação e crises convulsivas sem lesão cerebral estrutural devem motivar avaliação cardiológica dos familiares de primeiro grau. Parentes mais distantes também podem fornecer pistas importantes para investigação.

“O peso do histórico familiar é extremamente relevante. Isso deve motivar avaliação cardiológica de familiares de primeiro grau e mesmo parentes distantes”, enfatizou.

Cuidados com a saúde

O cardiologista resume que nem todo mal súbito é cardíaco, mas em jovens frequentemente é. A maioria dos casos envolve doenças genéticas silenciosas e não há evidência de uma nova epidemia.

“Síncope fazendo atividade física nunca é normal. Isto não é esperado, deve ser investigado e o histórico familiar é extremamente relevante, deve ser investigado a fundo. Por isso, os médicos são necessários nessa investigação. A melhor forma de se prevenir por morte súbita é fazendo uma consulta, um exame físico e um eletrocardiograma básico, esse é o começo de tudo”, concluiu.

Segundo ele, a melhor forma de prevenção passa por anamnese detalhada, exame físico adequado e realização de um eletrocardiograma básico, etapa fundamental para reduzir riscos e identificar precocemente alterações potencialmente graves.

Caso Maria Rita

Um caso recente que chocou as redes foi a morte da influenciadora Maria Rita Rodrigues da Silva, de 25 anos, ocorrida no último domingo (22), em São Bernardo do Campo, no ABC paulista.

A família da jovem revelou que a morte ocorreu devido uma isquemia miocárdica aguda e tromboembolismo pulmonar. Ela sofreu quatro paradas cardíacas enquanto estava internada e não resistiu.

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