Um relatório do governo dos EUA, da gestão de Donald Trump, critica o Brasil em relação aos direitos humanos, apontando a violência policial em São Paulo e decisões do ministro Alexandre de Moraes, do STF. O documento cita mortes em operações policiais na Baixada Santista e faz menção ao caso Marielle Franco e a grupos de milícia. Trump usou o relatório para aplicar tarifas sobre produtos brasileiros, alegando perseguição a Jair Bolsonaro. O documento é considerado tendencioso, pois poupa aliados, como El Salvador, e critica democracias europeias e a África do Sul.
Um relatório elaborado pelo governo dos Estados Unidos e assinado pela administração de Donald Trump aponta uma suposta piora do Brasil na área de direitos humanos, com críticas diretas à violência policial em São Paulo e a decisões do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF). O documento, que foi divulgado na última terça-feira (12), gerou um atrito diplomático ao ser utilizado como justificativa para sanções econômicas contra o país.
Violência policial em São Paulo é destaque no relatório
O relatório publicado pelo Departamento de Estado norte-americano dedicou um tópico a “Execuções Extrajudiciais”, citando as mortes causadas pelas operações Escudo e Verão, da Polícia Militar de São Paulo, que resultaram na morte de pelo menos 28 pessoas. As operações foram deflagradas no litoral paulista em resposta à morte de policiais militares, durante a gestão do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos).
O documento afirma que “alguns homicídios foram atribuídos a uma operação policial contra organizações criminosas transnacionais no estado de São Paulo, no primeiro semestre do ano, e a uma operação policial realizada de julho de 2023 a abril na Baixada Santista”.
O relatório ainda detalha o caso de Fábio Oliveira Ferreira, morto na Operação Escudo em julho de 2023. O documento narra que um tribunal de São Paulo acusou dois policiais da Rota (tropa de elite da PM paulista) de homicídio qualificado e obstrução de provas. O capitão Marcos Correa de Moraes Verardino, um dos coordenadores da operação, teria disparado três tiros contra Ferreira após ele se render, enquanto o cabo Ivan Pereira da Silva teria atirado mais duas vezes no peito da vítima quando ela já estava caída. Os policiais, no entanto, foram absolvidos pela Justiça.
De acordo com dados do Ministério da Justiça, o número de mortes por intervenção policial em São Paulo aumentou 61,31% em 2025, segundo o Mapa da Segurança Pública. Em nota, a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo afirmou que as mortes foram investigadas rigorosamente e que a PM atua dentro da legalidade. O Ministério Público de São Paulo arquivou todas as denúncias que investigavam as mortes das operações Escudo e Verão.
Outras críticas ao Brasil: de Moraes ao caso Marielle
Além da violência policial em São Paulo, o relatório também cita outros pontos de preocupação em relação aos direitos humanos no Brasil. O documento faz menções a “relatos confiáveis de: assassinatos arbitrários ou ilegais; tortura ou tratamento ou punição cruel, desumano ou degradante; prisão ou detenção arbitrária; e sérias restrições à liberdade de expressão e à liberdade de imprensa, incluindo violência ou ameaças de violência contra jornalistas” no país.
Ainda em relação ao Brasil, o relatório de Trump recorda o assassinato da vereadora Marielle Franco e seu motorista, Anderson Gomes, em 2018. O documento lembra que, em março de 2024, a polícia prendeu o deputado federal Chiquinho Brazão e seu irmão, Domingos Brazão, por seu suposto papel na ordem do crime. O texto também cita as condenações de Ronnie Lessa, sentenciado a 78 anos e nove meses por ser o atirador, e de Élcio de Queiroz, condenado a 59 anos e oito meses por dirigir o carro da fuga.
O relatório também menciona uma operação da Polícia Civil de Roraima que investigou um grupo de policiais militares suspeitos de integrar uma milícia e um grupo de extermínio. A investigação apurou casos em que os policiais teriam fornecido segurança para garimpeiros ilegais, roubado e torturado invasores.
Relatório poupa aliados e ataca democracias
O relatório de Donald Trump, no entanto, é visto como um documento tendencioso. Enquanto avança em críticas e sanções ao Brasil e a autoridades brasileiras, poupa aliados, mesmo com graves violações de direitos humanos. O mesmo relatório que critica a atuação de Moraes e a violência policial no Brasil, exalta governos como o de Nayib Bukele, em El Salvador, onde organizações humanitárias acusam o governo de violar direitos de cidadãos e estrangeiros. O documento não faz qualquer menção à grave crise humanitária na Faixa de Gaza.
O Departamento de Estado de Trump também criticou democracias consolidadas na Europa, como França, Alemanha e Reino Unido, por supostas restrições à liberdade de expressão. Na África do Sul, o relatório acusou o governo de discriminação racial contra cidadãos brancos, ecoando alegações da extrema direita local sem qualquer comprovação.