Priscila Schimitt, de 40 anos, foi localizada em um hotel na região central de São Paulo na noite desta terça-feira (2), após permanecer desaparecida por quase um mês. Ela estava sumida desde 8 de agosto, quando relatou à família que seu celular havia sido furtado e que compraria um chip novo para restabelecer contato.

O caso também levanta a questão do desaparecimento de pessoas no Brasil: em média, 220 pessoas somem por dia, totalizando 46.651 registros. Entre as causas mais frequentes estão conflitos familiares, dependência química, transtornos mentais, fugas voluntárias e exploração, como trabalho escravo ou prostituição. Para crianças e adolescentes, os desaparecimentos estão mais ligados a conflitos e violência no lar.

Priscila Schimitt, gaúcha desaparecida por três semanas (Foto: Reprodução/Redes sociais)
Priscila Schimitt, gaúcha desaparecida por três semanas (Foto: Reprodução/Redes sociais)

Priscila Schimitt, de 40 anos, foi localizada em um hotel na região central de São Paulo na noite desta terça-feira (2), após permanecer desaparecida por quase um mês. Ela estava sumida desde 8 de agosto, quando relatou à família que seu celular havia sido furtado e que compraria um chip novo para restabelecer contato.

Segundo a delegada Ivalda Aleixo, do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), Priscila está saudável e já conseguiu se comunicar com os familiares. A geóloga e doutoranda ficou chateada ao perceber que não conseguiria renovar o visto para retornar à Nova Zelândia, onde vive e trabalha.

O caso também levanta a questão do desaparecimento de pessoas no Brasil: em média, 220 pessoas somem por dia, totalizando 46.651 registros. Entre as causas mais frequentes estão conflitos familiares, dependência química, transtornos mentais, fugas voluntárias e exploração, como trabalho escravo ou prostituição. Para crianças e adolescentes, os desaparecimentos estão mais ligados a conflitos e violência no lar.

Situações como essa podem afetar diretamente a saúde mental das pessoas, para entender melhor o assunto, o portal BacciNotícias conversou com a Dr. Leninha Wagner, doutora em Neurociências psicologia, e mestre em psicanalise.

A neurocientista explica que quadros graves de depressão, surtos psicóticos, delírios persecutórios ou estados dissociativos podem levar alguém a se afastar do convívio social ou a vagar sem rumo. “Em idosos, por exemplo, a demência aumenta o risco da chamada deambulação, quando a pessoa sai de casa e não consegue retornar. Já o abuso de substâncias altera o julgamento e fragiliza os vínculos familiares, ampliando a vulnerabilidade”, aponta.

Do ponto de vista neurobiológico, Wagner destaca que há um “descompasso entre áreas emocionais e racionais do cérebro”: a amígdala, em estado de hiperalerta, intensifica a sensação de perigo, enquanto o córtex pré-frontal, responsável pelo planejamento, perde força. “A consequência pode ser a fuga, o sumiço como resposta impulsiva”, explica.

Para além da biologia, a especialista lembra que desaparecer também pode ter um sentido simbólico. “Sob a lente psicanalítica, há casos em que sumir representa uma tentativa inconsciente de ‘sair da cena’ diante da dor, da culpa ou da vergonha. É um grito silencioso”, afirma.

Por que alguém desaparece por conta própria?

Segundo Wagner, existem múltiplas razões, mas todas carregam um forte componente emocional. Pessoas em crises psiquiátricas, como depressão, mania ou psicose, muitas vezes enxergam a fuga como a única saída para um sofrimento insuportável. Já crianças e adolescentes podem desaparecer como forma de escapar de ambientes familiares violentos ou opressivos, embora isso as exponha a riscos ainda maiores.

O desaparecimento também pode estar associado a situações de exploração, tráfico ou trabalho análogo à escravidão. “Do ponto de vista psicológico, sumir pode significar o desejo inconsciente de anular-se, de se tornar invisível, de romper com a própria narrativa para tentar construir outra, ainda que insustentável”, analisa.

A neurociência ajuda a entender esse mecanismo: alterações nos circuitos de motivação e recompensa podem levar à busca imediata por alívio, da dor, da vergonha ou da opressão, sobrepondo-se à capacidade de prever consequências de longo prazo. “É um ato menos racional e mais emocional, uma mistura de fuga, desespero e, em alguns casos, esperança de recomeço”, acrescenta a pesquisadora.

Como prevenir?

A prevenção, explica Wagner, exige ações em múltiplos níveis: clínico, familiar, comunitário e estatal. No campo da saúde, medidas como planos de segurança, pactos de cuidado e contatos de emergência podem ajudar. “É essencial fortalecer a rede de apoio: famílias que mantêm diálogo aberto, escolas atentas a sinais de sofrimento e comunidades que se organizam para proteger seus membros”, destaca.

Ela ressalta ainda a importância de o Estado agir rapidamente: “Ainda persiste a ideia equivocada de que é preciso esperar 24 horas para registrar um desaparecimento. Hoje já existe o Cadastro Nacional de Pessoas Desaparecidas, que precisa ser amplamente utilizado”, afirma.

Do ponto de vista neurocientífico, Wagner lembra que o cérebro em sofrimento precisa de contenção, vínculos e regulação emocional. “Quando isso não existe, a tendência é a fuga. Muitas vezes, desaparecer é um pedido desesperado por reconhecimento: ‘me vejam, mesmo que pelo meu sumiço’”, reflete.

Para a pesquisadora, prevenir desaparecimentos não significa apenas vigiar corpos, mas oferecer espaços de acolhimento antes que a dor se transforme em ruptura. “É ensinar famílias, comunidades e o próprio Estado a reconhecer sinais de risco e a responder com cuidado, rapidez e humanidade”, conclui.

 

 

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