Professor da USP afirma que ameaças de Trump ao Irã podem ser estratégia de pressão, mas alerta para riscos graves. Ele destaca alta de até 50% no petróleo, possível impacto global, isolamento dos EUA e considera improvável uma mudança de regime, criticando a falta de planejamento na condução da crise.

Trump tem a palavra final para orientar operação (Foto: The White House)
Trump tem a palavra final para orientar operação (Foto: The White House)

As declarações desta terça-feira (7) do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sobre um possível ataque devastador ao Irã elevaram o nível de tensão internacional e acenderam alertas no campo diplomático e econômico. Em entrevista ao Bacci Notícias, o professor titular de Direito Internacional Público da Faculdade de Direito da USP, Paulo Borba Casella, analisou o cenário e apontou riscos concretos de escalada — além de críticas à condução da política externa americana.

Paulo Borba Casella - Foto: Divulgação/USP

Paulo Borba Casella – Foto: Divulgação/USP

Ameaça ou estratégia de pressão?

Para Casella, o histórico de Trump indica que o discurso pode ser mais uma tática de pressão do que uma ação imediata — mas o risco não pode ser ignorado.

“Nós sabemos que o Trump sempre joga bravatas. Pode ser o usual ‘Trump always chickens out’, que ele acaba amarelando.”

Ainda assim, o professor faz um alerta contundente sobre os limites do direito internacional.

“Ou será um crime de guerra, porque ataque maciço contra a população civil é abusivo e excessivo em relação ao direito internacional vigente.”

Diante desse cenário, ele reforça a gravidade de uma eventual ofensiva. “Seria absolutamente criminoso, irresponsável e haveria sequelas enormes para todos os países da região e possibilidade de danos para o conjunto do mundo.”

Impacto imediato no petróleo e risco global

A crise envolvendo o Estreito de Hormuz, por onde passa cerca de 20% do petróleo mundial, já provoca efeitos diretos no mercado internacional. Segundo Casella, a reação foi rápida e intensa.

“Isso já teve repercussão. O petróleo subiu 50% nos últimos 30 dias, pode ainda subir mais e esse risco está colocado.”

Apesar da tensão, o professor observa que houve movimentos para evitar um colapso total na circulação marítima.

“Esse risco já foi minimizado ao permitir a passagem de navios de várias nacionalidades, mantendo proibição total para navios dos Estados Unidos e de Israel.”

Ele também destaca que a situação expõe uma contradição na política energética dos Estados Unidos.

“É uma grande ironia, porque o governo Trump tem trabalhado contra energias limpas e renováveis, enfatizando o petróleo, o que aumenta a dependência e o poder de barganha do Irã.”

Casella avalia que essa estratégia amplia a vulnerabilidade global.

“Ele agora está colhendo o resultado das escolhas equivocadas que faz, com impacto considerável sobre o mundo.”

Isolamento internacional dos EUA

No campo diplomático, o professor aponta que os Estados Unidos não conseguiram formar uma coalizão internacional para sustentar uma possível ação contra o Irã.

“Trump tentou trazer os europeus para essa briga e eles deixaram claro que estão fora.”

Segundo ele, a posição europeia é clara diante do cenário atual.

“Não há motivo para eles entrarem em uma briga da qual não são os causadores nem foram responsáveis pela situação chegar ao ponto em que estamos.”

Mudança de regime é improvável

Outro ponto abordado por Trump foi a possibilidade de mudança de regime no Irã — hipótese que, segundo Casella, já perdeu força até dentro do próprio governo americano.

“Essa possibilidade já foi descartada pelo próprio governo americano. Eles voltaram atrás e disseram que não falaram disso.”

Para o professor, além de improvável, a estratégia pode gerar efeito contrário ao desejado. “Sob pressão e sendo atacados, isso só dá mais espaço para as linhas duras e menos espaço para posições mais moderadas.”

Ele ressalta que o contexto iraniano é muito diferente de outros cenários internacionais. “A situação é completamente diferente e não teremos nada parecido com outras tentativas de mudança de regime.”

Falta de estratégia e risco de agravamento

Ao avaliar o conjunto da crise, Casella critica a condução do governo americano e aponta ausência de planejamento claro.

“Esse plano está todo errado no início, no planejamento que não houve, na execução desencontrada e nos objetivos a alcançar.”

Para ele, essa falta de direção compromete qualquer tentativa de solução. “Assim fica difícil de você conseguir resultados se você nem sabe por quais fins você está trabalhando.”

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